Peregrina desde sempre

Por Ir. Sandra Regina Amado*

Minha experiência peregrina começou desde cedo na família. Sou a primeira de quatro filhos, todos nascidos num período de cinco anos! Vivi o peregrinar dos meus pais à procura de vida melhor. Estávamos em Rondônia quando, aos 15 anos, conheci minhas irmãs Missionárias Combonianas e me encucou aquela comunidade! Brasileiras, e estrangeiras falando enrolado, trabalhando incansavelmente em meio àquela poeira e calor dos anos 80, na formação de lideranças das comunidades, na paróquia de Rolim de Moura, diocese de Ji-Paraná! O povo as ama até hoje. Encantei-me com aquela vida, para surpresa de meu pai que não gostou nada da ideia. Desde cedo, para ajudar a família, trabalhei fora e estudei. Com coragem de iniciante, comecei o processo vocacional num misto de apoio da mãe e de resistência do pai. Acho que era mesmo a força da vocação a despertar em mim. O Senhor da vida nos quer feliz! Mas, o caminho se faz caminhando, não é mesmo? Depois de cinco anos de formação, em 1994 fiz a primeira profissão religiosa missionária consagrada em Curitiba. Fiz um ano pastoral em Cacoal – Rondônia, na mesma paróquia em que, alguns anos antes, o Pe. Ezequiel Ramin havia doado sua vida no num martírio testemunhal por Jesus e seu povo sofrido. No caminho vocacional a figura de Ezequiel me tocou muito, me fez perguntar, o que queria eu da vida?

Em 1995 fui enviada para aprender inglês e em 1997 já pisava solo africano, no país da Eritrea, capital Asmara. Convivi e aprendi, com esse povo determinado, resistente e corajoso, que vale a pena lutar e sofrer por um ideal. Sua cultura semítica e ortodoxa cristã balizava a experiência pastoral e linguística no processo de inculturação na vida do povo. A língua Tigrinya era mesmo difícil, com um alfabeto de mais de 300 caracteres (desenhos). E a pronúncia então nem se fala! As famílias, sobretudo as mulheres e as crianças adoravam me ver balbuciar alguma palavra. Vibravam comigo e me encorajavam a perder o medo de errar e falar seu idioma. Apesar de minha pele acusar, já não era vista pelas amigas como estrangeira! Isso foi incrível! Na minha experiência, a língua foi mesmo o portal para o coração do povo e sua cultura. Porém, foram cinco anos desafiadores, de muito esforço para entrar no caminho da Igreja católica ortodoxa local. Contudo, amava o povo e me sentia amada por eles, mas precisava também mais capacitação para continuar minha contribuição na missão!

Assim segui e, após capacitação nos USA, voltei para a África, agora enviada para o Sudão do Sul. No início, em 2007, uma situação caótica em Juba, a capital. Foi também missão difícil e desafiadora. Lembro quando caminhava pelas ruas para ir dar aulas na escola e me perguntavam onde estava o carro, “sua chinesa”! Isso era de amargar qualquer boa intenção; nada contra os chineses né! Fui aprendendo que as situações de guerra e conflito minam as relações na desconfiança. A certeza é que a missão é de Deus. Essa foi missão desafiadora e complexa, e aí cresci: “Me fiz os ossos” como dizem os italianos, partilhei da vida de um povo sofrido. Minha colaboração foi mais na área da educação. A experiência mais linda e vivificante que vivi na missão foi nos últimos três anos no Sudão do Sul.

Um projeto da União dos Superiores/as Gerais das Congregações (UISG), espalhadas pelo mundo, gestou um plano para atender à Igreja do Sudão do Sul. Provavelmente, esperavam ajuda financeira. Entretanto, um comitê foi criado e visitaram o local, escutaram, conversaram e bolaram um plano. Até parecia “o Plano de São Daniel Comboni” de um século atrás sendo atualizado. Só que os membros do comitê não eram comboniano; porém, nos consultaram. Nasceu então o projeto Solidariedade com o Sudão do Sul. De início, duas frentes de trabalho foram criadas: saúde e educação. Mais tarde também se agregou a frente pastoral de formação da liderança da Igreja local. Na saúde priorizaram a obstetrícia porque o número de crianças e mães que morriam nos partos era assustador. E na sessão educacional se previu que, sem uma educação forte de base na formação dos professores para a fase inicial das crianças, a paz nunca poderia se realizar no futuro. Apaixonei-me por essa iniciativa. Minha colaboração foi na área da educação. Vivíamos em comunidade, membros de congregações de nacionalidades diversas em três pontos geográficos diferentes do Sudão do Sul. Também os leigos/as se juntaram ao projeto. Pois não há evangelização sem educação, sendo uma educação para a reconciliação entre povos e culturas de etnias diversas dentro do mesmo território. Foi experiência de Solidariedade e entusiasmo, coragem e energia. Ensinávamos debaixo de puxados de palha para a capacitação de professores candidatos, alguns caminhavam horas para participar desse programa. Havia o centro de treinamento em regime de internato por um período de dois anos, para proporcionar espaço adequado para treino-estudo. Presenciei ali a fadiga do encontro entre pessoas inimigas entre si por serem de etnias diferentes. O Sudão do Sul é formado por 69 etnias e línguas diversas. Algumas pessoas até se recusavam a partilhar da mesa com o “inimigo”. Com paciência, a equipe Solidariedade incutia os valores e o respeito mútuo! A tolerância e a aceitação eram regras do centro. Tanto assim que, ao final dos dois anos, outrora considerados inimigos se abraçavam em lágrimas ao se despedirem uns dos outros! Entenderam que eram irmãos iguais e semelhantes à imagem de Deus. Verificávamos que a reconciliação pode ser fruto do trabalho sério de acompanhamento e treinamento para a construção da paz.

Para Solidarity with South Sudan, a capacitação de mulheres professoras é um objetivo. Logo, Achol e Achai, duas jovens mulheres da etnia Dinka, vieram para o treinamento. Elas sabiam árabe e um pouco de inglês e comunicavam entre si em Dinka. Eu as conheci um ano antes em seu estado. Em choque por não conseguirem se comunicar com os colegas no centro, na primeira semana vieram dizer que iam embora, pois não sabiam o inglês para continuar o programa. Eu as encorajei a ficar e dar tempo para a língua. Disseram que era difícil e não iam conseguir, mas os tutores do Centro Solidariedade desenharam um programa específico para elas. As duas se sentiram acolhidas e se dedicaram ao trabalho. No final daquele ano, as duas mulheres ficaram entre os primeiros alunos da turma e, na formatura, estavam felizes e orgulhosas pela vitória. Até fizemos uma foto juntas. Aprenderam o valor de encorajar e acompanhar as meninas de suas comunidades para se desenvolver e também contribuir com a educação de seu país. Acredito que meu fundador São Daniel Comboni vibrou com a minha participação do projeto Solidariedade com o Sudão do Sul!

Assim em 2019, de volta ao Brasil, celebrei o jubileu dos 25 anos de vida consagrada à missão! Tenho muita história pra contar, porém, o mais importante é a vida vivida intensamente no serviço à solidariedade a quem se encontra pelo caminho da missão. Sou muito agradecida à minha família por tudo que sou desde a concepção. A minha província das Combonianas no Brasil aceitou o desafio de me liberar para colaborar na assessoria da Comissão para a Ação Missionária da CNBB. Assim, estou desenvolvendo o trabalho com dedicação missionária a serviço da Igreja do Brasil para este quadriênio. Sou ainda agradecida à minha congregação: Irmãs Missionárias Combonianas pela formação e envio em missão. São Daniel Comboni, nosso fundador, rogai por nós e por mais vocações generosas ao serviço da missão no mundo.

* Assessora da Comissão Missionária da CNBB

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