Papa: é preciso políticos de raça e uma justiça que não seja instrumentalizada

O Pontífice, por ocasião do 10º aniversário de seu Pontificado, concedeu uma longa entrevista ao Canal 5 de Noticias, uma rede de televisão argentina, abordando uma ampla gama de temas, desde recordações de sua eleição em 2013 até as vicissitudes de seu país, da paz a questões mais propriamente eclesiásticas. O Papa se refere aos casos de Lula da Silva e Dilma Roussef.

A luta contra os abusos na Igreja, a guerra na Ucrânia, a paz, a política argentina, o avanço da extrema-direita, o valor do patriotismo, a difusão das Igrejas evangélicas na América Latina, a instrumentalização da política conhecida como lawfare, os pecados do jornalismo, seu apego com aqueles privados de liberdade e sua visão sobre as mulheres: o Papa Francisco falou sobre tudo isso em uma longa conversa com o jornalista Gustavo Sylvestre do Canal 5 de Noticias (C5N), uma rede de televisão argentina, por ocasião do décimo aniversário de sua eleição para o pontificado. Além de reiterar reflexões já compartilhadas nas numerosas entrevistas publicadas nas últimas semanas por ocasião do aniversário, o Papa aprofundou questões relativas à sua pátria, a Argentina.

As lutas internas
Sylvestre perguntou ao Pontífice sobre suas palavras na audiência geral de 15 de março, quando agradeceu aos líderes do governo do país e dos partidos de oposição por se reunirem para assinar uma carta de saudação e também exortou-os a sempre se unirem para conversar, discutir e fazer avançar a Pátria. Prosseguiu dizendo que todos gostam da luta interna dos outros, ou seja, polemizar sobre qualquer coisa, acrescentando: “Nossa luta interna é prejudicial, é mais forte do que um sentimento de pertença, destrói a filiação política. Eles fazem diferentes partidos que não têm força política de convocação”.

Em seguida, o Santo Padre ilustrou seus pensamentos sobre o ‘internismo’, ou seja, aquelas disputas que surgem dentro da vida política e social. Ele citou o exemplo de seis ou sete empresários que acabam de assinar um acordo entre suas respectivas empresas e, enquanto esperam a chegada do champanhe para brindar, conversam sorrateiramente sobre a fundação de outra empresa. A este respeito, o Papa comentou que “a política é a arte de apresentar um projeto e convencer o outro” e destacou a necessidade de se ter “políticos de raça”, lamentando como às vezes se perde o significado do que é antes de tudo um serviço. Depois, denunciou como vergonhoso o fato de que existem líderes que tiveram quatro “divórcios políticos” e se apresentam como “salvadores da pátria”, acrescentando que “há identidades que você tem ou não tem” para deixar claro que a filiação política ou religiosa não é uma roupa ou um sapato que se muda todos os dias, mas “uma paixão, que se tem dentro”. Francisco convidou todos a se perguntarem qual é a história política de cada pessoa, sua identidade, sua pertença.

A extrema-direita é sempre centrípeta
Quanto ao avanço da extrema-direita, o Pontífice mostrou preocupação com o fenômeno, afirmando que ela “sempre se recompõe, é centrípeta, não é centrífuga, não cria para fora possibilidades de reforma”. E quando perguntado qual é o antídoto, o Papa respondeu: justiça social. “Não há outro”, acrescentou. “Se quiser discutir com um político, um pensador de extrema-direita, fale sobre justiça social, fale horizontalmente”, aconselhou.

O lawfare
Com respeito à instrumentalização da justiça, o Santo Padre disse que “o lawfare começa através da mídia, que enxovalha e insinua a suspeita de um crime”. Criam-se enormes investigações e o volume destas investigações é suficiente para condenar, mesmo que o crime não seja encontrado”. O Pontífice se referiu em particular aos casos controversos no Brasil envolvendo os presidentes Luiz Inácio “Lula” da Silva e Dilma Roussef. Lula da Silva, após seu segundo mandato presidencial, passou 19 meses na prisão sob acusações de corrupção, as mesmas acusações que o Congresso Nacional usou para colocar sob impeachment a Rousseff em 2016, a quem o Papa descreveu como “uma mulher com as mãos limpas, uma excelente mulher”. Em ambos os casos, explicou Francisco, não conseguiram provar que tinham cometido crimes. Por isso considerou que “devemos levantar nossa voz”, “devemos dizer que há aí uma irregularidade” e “os políticos têm a missão de desmascarar um sistema judicial que não é justo”.

Igreja, casa de todos
Sobre homossexuais e divorciados casados novamente, Francisco reiterou que a Igreja não pode ser dividida em setores, mas que todos são seus filhos e todos devem ser acompanhados em seu caminho. Questionado sobre o celibato dos padres, respondeu reiterando que não se trata de um dogma, mas de uma disciplina que pode ser mudada ou não, e lembrou que já existem padres “uxorados” na Igreja oriental.

“Todos dentro… A Igreja é casa de todos”
Em seguida, o Papa se deteve sobre a luta contra os abusos que a Igreja está realizando, lembrando a este respeito o compromisso de Bento XVI, que ele continua. Também lembrou como é necessário lutar pela paz, porque a guerra é um drama e nos destrói. Ele lembrou que quando um império se sente fraco, precisa fazer a guerra e comercializar com as armas. E concluiu reiterando que se apenas por um ano parassem de produzir armas, isso acabaria com a fome no mundo.

Fonte: Vatican News

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