Natal de minha aldeia

Alfredo J. Gonçalves *

O Natal de minha aldeia, meio século atrás, nas montanhas da Ilha da Madeira, Portugal, sabia pedir licença, bater à porta com delicadeza, antes de entrar. O primeiro sinal era a matança dos porcos. Praticamente todas as famílias abatiam o seu, após engordá-lo por longos meses. E entre si trocavam pedaços de carne de acordo com os gostos mais ou menos conhecidos. Tratava-se de um ritual: dever para os adultos, divertimento para as crianças, tragédia para os animais.

Depois vinham os fogos e bombas. Começavam em pontos rarefeitos da Ilha, umas duas ou três semanas antes das festividades. Com certo risco para crianças e adultos, aos poucos iam cobrindo o espaço e o tempo, numa inconfundível tonalidade de festa. Rebentavam no chão e no ar, repercutiam no coração, como a anunciar uma mudança de calendário que fazia vibrar tudo e todos. Uma espécie de relógio a marcar os dias, logo as horas, e por fim os minutos.

De longe e de perto, chegavam também o repique dos sinos e o canto dos galos, como inusitada algazarra de pássaros que pré-anunciam o sol. Mais intensos e frequentes que no decorrer do ano, pareciam conter uma misteriosa notícia, um segredo que corria veloz por colinas, montes e vales. Como por encanto, sua voz metálica ou rouca tornava-se mais nítida, mais alegre e mais transparente. A brisa ou vento a espalhavam por todo território da Ilha, como se fosse já o canto dos pastores nas redondezas de Belém.

As luzes constituíam outro sinal festivo. Enfeitavam árvores, ruas, praças, casas e negócios, conferindo à chegada da festa um colorido que haveria de ficar gravado na memória com caracteres de fogo. Seu fascínio crescia ainda mais devido à distância, uma vez que não havia energia elétrica em nossa pobre aldeia. Pequenos rios luminosos saíam de determinados pontos, ou para eles convergiam, formando uma rede que revestia a Ilha de uma roupagem resplandecente.

Mais perto do ambiente familiar e religioso, multiplicavam-se os presépios. Raras as famílias que não os erguiam, por mais rústicos e simples que fossem. Tornavam-se cartão de visita às vésperas da festa natalina. Mas as atenções se voltavam especialmente para o présepio da Igreja paroquial, no povoado vizinho, onde a luz elétrica permitia uma elaboração bem mais requintada.

Evidente que a promessa dos brinquedos mantinham as crianças em expectativa, espreitando o comportamento dos adultos. Estes, de fato, faziam viagens furtivas à cidade e nós, os pequenos, antecipávamos entusiastas a posse de um carrinho, um barco, uma boneca, uma bexiga, uma miniatura de qualquer animal – objetos que deviam durar até o próximo Natal.

Mas a festa tinha outro sabor especial e inesquecível. Sabor que se forjava na cozinha. Ali preparavam-se os bolos normais e os bolos de mel, as broas e biscoitos que recheavam a mesa natalícia. Ali se dividiam as laranjas e figos-passados, “luxos” da época. E ali a família, na sua pobreza, celebrava de maneira simples mas digna o nascimento do Senhor, na ceia de Natal e em seguida à missa do galo.

Com ou sem saudosismo, tudo isso tem pouco a aver com o Natal de hoje. Este não pede licença nem bate à porta, invade-a brutal ou sorrateiramente. Se a fechamos, entra pela janela, pela televisão ou pela internet. Irrompe com a espantosa velocidade do mercado. Voraz em produzir, comprar e vender mercadorias, impõe-se com a força de águas represadas. Natal e comércio tornaram-se quase sinônimos. Sempre ele – o mercado – dita as regras, determina o tempo e espaço em que o Menino Jesus deve nascer nos grandes centros comerciais. E ali, na manjedoura junto aos animais, recordando o cenário de Belém, meio envergonhado, o Recém-nascido deve disputar com Papai Noel quem consegue atrair mais clientes e despachar mais produtos.

* Padre Alfredo J. Gonçalves, CS, vigário Geral dos missionários scalabrinianos em Roma.

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