Família missionária italiana vive experiência no Brasil

O jornalista Andrea Guerra, casado e pai de uma menina, é leigo do PIME, de nacionalidade italiana. Está com sua família vivendo uma experiência missionária em São Paulo (SP). Acompanhe a entrevista realizada pelo jornalista Felipe Koller, editor da página Oficina de Nazaré.

Andrea, você faz parte de uma família missionária, certo? Mas família de sangue, não religiosa. Explica um pouco como se deu isso…

Verdade! Eu estou fazendo trabalho missionário aqui na periferia de São Paulo junto aos padres do PIME, mas não vim sozinho. Junto a mim estão minha esposa Chiara e a Matilde, nossa filha. Nós somos Italianos, da região de Milão e, antes mesmo da Matilde nascer, eu e a Chiara já tínhamos envolvimento com o PIME e com missões promovidas por eles.

Antes do casamento fizemos com outros jovens da nossa paróquia uma experiência na Amazônia, algumas ações no Camboja, Argentina… Enfim, todas ações curtas, de verão, mas que sempre foram muito boas! Mas depois de casarmos pensamos em fazer algo juntos, como família e que não fosse curto, e sim uma imersão missionária mais longa e mais forte também. O próprio PIME tem uma formação voltada para missionários com o nosso perfil, a Associação Leigos do PIME (ALP). Essa associação oferece um percurso de dois anos de preparo. É um percurso exigente, mas muito bom.

Quando estávamos quase terminando o processo a Matilde chegou! Então demoramos um pouquinho mais para, de fato, virmos para missão. Quando ela completou 8 meses nós viemos para cá passar um mês de experiência para ver se era possível ficar com ela aqui também. Voltamos tão felizes para a Itália que entendemos que poderíamos sim assumir essa missão mais longa. Por isso voltamos e estamos desde março de 2019 no trabalho missionário.

Qual o trabalho que vocês desenvolvem aqui no Brasil?
Nós trabalhamos principalmente em uma associação chamada “Conosco”, cujos fundadores eram muito próximos dos padres do PIME. A associação trabalha com crianças e adolescentes e atende um público muito grande na periferia de São Paulo, nos bairros de Grajaú e Parelheiros. Além da interação com as crianças, nós fortalecemos a estrutura da ONG. Eu sou jornalista e ajudo na parte de comunicação, redes sociais, que era algo que eles não tinham. A Chiara, que era professora na faculdade de Economia, também ajuda nessas questões burocráticas, prestação de contas, etc…

Vocês tem um tempo determinado para esta missão?
A ALP, na América Latina e África, trabalha com projetos de no mínimo 3 anos, podendo renovar por duas vezes, ou seja, no máximo 9 anos. Na Ásia, por conta da dificuldade da língua, o mínimo é de 5 anos.

Como foi deixar a estabilidade dos empregos e a vida na Itália para vir pra cá? É uma decisão difícil, não?
Sim, de fato, nós deixamos algumas coisas importantes pra trás. A estabilidade e a carreira, por exemplo. Mas quando nós temos um desejo na mente e no coração que é maior que tudo, é ele que nos move, que nos chamou a estar aqui.

Como a família e os amigos reagiram?
Acho que foi tranquilo. Nossos pais estão felizes com nossa escolha, felizes por estarmos fazendo essa experiência. Eles sentem, claro, muita saudade da Matilde, porque os avós eram muito apegados a ela. Nossos amigos também entenderam bem. Há saudade, mas todos ficaram tranquilos.

Por que vir tão longe? Porque teoricamente você poderia desenvolver um trabalho como esse, de comunicação, na Itália mesmo, não?
É uma vocação específica. Claro que a Itália também tem realidades que precisam de ajuda. Mas cada um de nós é chamado a um serviço. Alguns são missionários na própria rua de casa, outros se sentem enviados a lugares distantes. Não tem muita explicação. É o chamado de cada um.

Ao longo dessas experiências todas, como a visão de missão que vocês tinham se transformou? O que vocês entendem que mudou desde as primeiras vivências enquanto jovens missionários nos períodos de férias até agora, como família missionária?
Realmente, nossa visão mudou muito. Eu vejo que, sobretudo, na juventude, pensávamos missão como um “fazer algo”, de modo especial um “ajudar os outros”, “ajudar os pobres”. Lembro que quando voltamos da primeira vez na Amazônia nós contávamos para as pessoas que tínhamos vindo ao Brasil e ajudado os pobres, os indígenas. Mas hoje nós entendemos que nós não viemos fazer nada, porque o Brasil não precisa de nós. Aqui tem pessoas capacitadas para desempenhar os trabalhos que nós desempenhamos. Aliás, até mais capacitadas do que nós. O que nós viemos fazer na missão é compartilhar nossa experiência de família, de vida, e de fé. Somente isso.

A ONG na qual vocês trabalham é voltada ao atendimento de crianças e adolescentes. Como é esse convívio?
Sempre que nós nos encontramos com eles e voltamos pra casa, eu e Chiara costumamos dizer que o olhar deles é a resposta do porque estamos aqui.

A realidade que vocês encontraram no Brasil é muito diferente da que vocês estavam acostumados?
Em alguns aspectos, sim. A Itália não é um paraíso. A Europa tem muitos problemas também. Antes de virmos, pensamos muito na Matilde, porque ela é a mais importante. E aqui onde vivemos há creches e hospitais públicos, melhores até do que na Itália. Nesse sentido nos sentimos tranquilos. Mas a violência urbana, especialmente nas periferias, é algo que nos chama a atenção. Isso, de fato, é diferente da Itália. Lá não estamos vulneráveis à violência como aqui. Do ponto de vista religioso, encontramos uma Igreja mais emotiva, mais afetiva, apaixonada também. E gostamos muito disso. Na Itália a fé é mais intelectualizada, mais pesada até. Aqui estamos em contato com uma paróquia que é administrada pelo PIME e a acolhida foi muito grande e isso ajuda, inclusive para trocarmos experiências de vida.

Como vocês vivem o matrimônio dentro dessa realidade missionária? Como essas duas vocações se encontram e dialogam?
Eu e a Chiara sempre dizemos que o matrimônio é a nossa primeira vocação. A família é o mais importante. Se em algum momento a missão nos atrapalhasse nesse aspecto, voltaríamos amanhã para a Itália. Nós estamos em missão como família, não separados. Fomos chamados em primeiro lugar a viver essa dimensão e a missão enriquece nossa experiência familiar.

Do ponto de vista da transmissão da fé, mesmo a Matilde sendo ainda muito pequena, como você espera que essa experiência impacte ela?
Bem, na Itália nós sempre dizíamos que nós não estávamos indo para o Brasil apesar da Matilde, mas pela Matilde. Ela agora é muito pequena, tem um ano e meio. Mas quando voltarmos, ela tendo seus 4 ou 5 anos, a gente espera que ela guarde no coração, no interior dela essa experiência. Claro que ela não vai lembrar disso, mas isso estará nela de alguma forma. E quando ela crescer, a gente espera que ela tenha no coração e no seu jeito de ser essa experiência de ser a outra, de ser a imigrante. Na Itália, muitas vezes se culpam os migrantes, o outro, o estrangeiro, pelos problemas do país. Se a Matilde crescer de alguma forma com essa lembrança, a lembrança de que ela foi a outra, a diferente, a migrante, isso já significará muito!

Antes de se conhecerem, vocês chegaram a pensar na vida religiosa?
Bem, nossas famílias sempre se conheceram, fomos vizinhos de casa, crescemos na mesma paróquia e em 2003 começamos a namorar. Nós ficamos 11 anos juntos antes de casar. Durante um ano, nesse período, estivemos separados, solteiros. Foi o período dos questionamentos, das descobertas. Mas eu tive um padre que me acompanhou, e que Chiara também conheceu, e ele fez esse questionamento também para nós. Claro que, em alguns momentos, eu pensei que talvez minha vida pudesse ser outra. Mas eu gosto de pensar na vida como uma caminhada e, quando eu caminho, existe sempre um pé que está no chão e outro que se eleva, para dar o próximo passo. O pé mais alto é os questionamentos, ideais… o outro é o da realidade. E, na realidade, a vida me fez encontrar de novo a Chiara. A gente tinha esse sentimento de falta, de saudade e, por isso, juntos fomos pensando numa vida futura.

Se um jovem fosse perguntar pra vocês o que é mais importante na hora de discernir a própria vocação, o que vocês diriam?
Eu gosto de dizer que a vocação é a melhor roupa que você pode usar. Todo mundo tem uma roupa que gosta mais, que se sente mais tranquilo, confortável. A vocação é isso. É aquela roupa que lhe cai melhor, que te faz mais feliz, mais tranquilo. Parece que estou banalizando, mas acho que a vocação é isso. Escolher a roupa que lhe cai melhor e que é a melhor segundo a vontade de Deus. Mas eu acho que Deus nos deixa sempre diante do guarda-roupa e nos dá a liberdade de escolher. A vontade de Deus, pra mim, é que a gente se sinta à vontade!

Eu imagino que o que o Papa Francisco tem dito sobre ir às periferias ajude vocês a viverem essa experiência, não?
Sim, ajuda muito. Mas eu acho importante dizer que a missão, assim, neste modelo, não é para todos. É uma vocação específica. Ela demanda preparo, cuidado, não é um improviso. Então é importante ter essa visão porque às vezes as pessoas acham que é simples e que se pode começar um trabalho assim de qualquer forma. Então, claro que nos ajuda e incentiva, e que faz bem à Igreja. Mas não podemos perder de vista aquilo que é vocação específica de cada um.

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