Experiência missionária na comunidade Três Unidos – Rio Cuieiras (AM)

Por Pe. Jardson Sampaio e equipe Michel Carlos e Genilson Morais

Jesus Cristo é missão! Jesus Cristo é Vida Plena para todos os povos!

Nos dias de 22 a 24 de outubro do corrente ano, nós do seminário São José – Arquidiocese de Manaus – fizemos uma especial vivência missionária junto à comunidade Três Unidos – Comunidade da etnia Kambeba – que vive na boca do Rio Cuieiras (Amazonas).

Missão é colocar-se a caminho. Em nosso contexto, os caminhos são os rios amazônicos, com seus afluentes, lagos e igarapés, onde vivem povos indígenas e muitos ribeirinhos. Navegamos umas seis horas no Rio Negro até chegarmos à boca do Rio Cuieiras, na Comunidade Kambeba.

Missão é encontro. No barco, uma criança bem espontânea me indaga: – Você também é missionário?  Alegre respondi: – Sim!

Me falou entusiasmada de sua alegria de ter sido batizada e recebido a 1º Eucaristia na comunidade Bom Pastor, na vila Pagodão, beira do Rio Negro.

Uma menina bem esperta já havia percebido que éramos um grupo missionário. Depois de um tempo me perguntou: – Tem algum padre entre vocês? Só fiz levantar o dedo indicador e sorri para ela. Ela logo falou para sua avó: – Eu sabia que ele era padre!

Sua avó, dona Nadí, partilhou um pouco de sua história de vida, desde suas peripécias do tempo de infância, as lembranças das missões de padre João em anos idos em Itamarati-AM, até de sua mãe já bem idosa que havia trabalhado com os missionários. Missão é escuta. Muito interessante o caminho que as histórias nos fazem percorrer.

Obrigado a dona Nadí e a pequena Ana.

“Não podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos” (Atos 4, 20). Não podemos deixar de escutar a quem vimos e encontramos.

Dos caminhos geográficos aos caminhos do coração.

Após uma tranquila viagem contemplando as margens do Rio Negro, chegamos à boca do Rio Cuieiras onde se localiza Três Unidos. Ao desembarcar na praia de areia branca, subimos o barranco e fomos encontrados pelo Tuxaua Valdemir que nos deu as boas-vindas e nos levou ao alojamento. Ficamos alojados no Polo de saúde indígena N. Sra. Da Saúde, onde médico e enfermeiros fazem seus atendimentos ao povo local.

O jovem professor Tomé nos mostrou, orgulhoso, a organização da sua comunidade: duas belas escolas, municipal e estadual, os belos trabalhos artesanais, as práticas de esporte “canoagem e arco e frecha”, e como cultivavam a identidade indígena Kambeba, pelo ensino da língua materna na escola, a transmissão da história e valores de seus antepassados para as crianças e jovens.

À noite, nos reunimos no pátio da casa do Tuxaua Valdemir e da mãe da comunidade, carinhosamente chamada Babá. Após alguns minutos para combinarmos nossa estada na comunidade, passamos horas ouvindo a memória de sua vida, de seus antepassados, seu nascimento, suas aventuras, suas lutas, suas conquistas. Fatos que concatenados formam a história da comunidade. Babá, que estava ao lado, escutava tudo com muita atenção como viajando pela história que também era sua.

“Quando um Tuxaua morre, dá vida para cem outras pessoas”, disse o Tuxaua ao falar sobre um acontecimento que marcou sua vida: a morte de uma filha de apenas 4 anos. Contou que após ingerir uma moeda, não tinham assistência médica no longínquo interior de Alvarães, região de várzea amazônica. A pequena não resistiu. Muito simbólico que, por causa desse metal, foram mortos centenas de indígenas. Mas o Tuxaua enxergou nesse acontecimento a vida de outras cem pessoas, conforme ensinamento ancestral.

No interior de Alvarães havia vivido preso a um sistema de aviamento, uma forma de comércio que internamente escravizava. Conta que num só dia fez uma pesca de 10 pirarucus – grande peixe amazônico, que foi suficiente para mudar sua vida. O entendeu como a “pesca milagrosa”. Pagou sua dívida com o comerciante e mudou-se para o Rio Cuieiras, onde fundaria uma comunidade Kambeba e seria o pai de um povo.

A noite terminou com uma bela caldeirada que as jovens indígenas Tainara, Tailane e Tauana, filhas do professor Tomé, haviam preparado. Ficamos encantados que as mesmas jovens pescaram no rio, trataram os peixes e prepararam a deliciosa caldeirada de jaraqui. Sentar-se à mesa foi ocasião para escutarmos mais belas histórias, trajetórias do professor Tomé, de sua esposa Tatiane e suas famílias.

Assim, cada encontro eram histórias partilhadas. Partilha de lutas e esperanças, caminhos percorridos e histórias cheias de riquezas culturais e espirituais transmitidas pelas gerações. Os povos indígenas, com sua sabedoria ancestral, nos ensinam a arte do bem viver, viver em harmonia com a natureza e busca de um bem viver coletivo.

A celebração eucarística foi cheia de simbolismo e alegria. Com cantos e palmas, crianças, jovens e adultos seguiam como uma coreografia bem orquestrada. Ao final, o Tuxaua agradeceu e o jovem professor se emocionou ao notar a presença de seus símbolos na liturgia: uma peneira feita por eles, os colares e pulseiras que o padre usou.

Criou-se uma ligação muito familiar, através de seus símbolos.

Ao final daqueles dias, ficaram a gratidão, o abraço, o canto, a festa, o encanto, a alegria, a amizade, o sorriso, e o sentimento: “voltem outra vez, desejamos reencontrá-los”. Ao final, a missão continua. Não poderemos deixar de lembrar o que vimos e ouvimos! Gratidão!

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