Entrevista Pe. Genilson Sousa: “Caminhar juntos na reciprocidade é a nossa missão”

Em sua primeira semana de chegada na sede das Pontifícias Obras Missionárias em Brasília, conversamos com Pe. Genilson Sousa, vindo da Diocese de Nazaré da Mata (PE) para colaborar na secretaria da Pontifícia Obra da Propagação da Fé (POPF). Nos próximos meses, Pe. Genilson fará um trabalho conjunto com Pe. Badacer Neto. Nesta entrevista fala sobre sua história pessoal e das motivações para assumir a secretaria nacional da POPF.

POM: O que você poderia nos falar sobre sua história pessoal em família e na comunidade?
Pe. Genilson: Falar da minha vida pessoal e de sacerdote, posso dizer que é uma vida interligada, de onde vi, da minha família, do meu chão. Sou o Pe. Genilson Sousa da Silva, vim de uma comunidade rural chamada Sítio Catolé, da cidade de Casinhas, Agreste de Pernambuco. Filho de uma família de agricultores, meus pais Sr. Gerson Francisco da Silva e Dona Maria Olivia Sousa da Silva, e meus irmãos Gilson Francisco, Gildo Francisco e Genivaldo Sousa.

Cresci em um lar católico, na devoção a São José, Padroeiro de Surubim, e também dos agricultores. Todos os anos tínhamos o rito de participar da festa do glorioso São José, junto com a família, nos anos que as condições ajudassem, claro, porém, quando não, meu pai ia com minha mãe.

Fiz a primeira comunhão em 1996, na capela de Santa Luzia, na comunidade onde morava, preparada pela catequista, Dona Maria de Fatima. Em 2002-2003 fiz a experiência dos Encontros da catequese de Crisma. Andava cinquenta minutos todos os domingos, ao meio dia, para escutar e aprender os ensinamentos da catequista, Dona Flora. Enfrentei um sol muito forte por dois anos. Às vezes queria desistir, mas algo me chamava. Muitas vezes ia sem almoçar para não perder os encontros. Quando não ia, ficava inquieto comigo mesmo. Certo dia, a catequista me pediu para ler a bíblia na hora do encontro, gostei daquele momento. Cada dia me envolvia ao ponto de não perder mais os encontros.

Depois de Crismado, estive envolvido no grupo de jovens chamado Filhos de Maria, que tinha como símbolo Nossa Senhora de Fátima, ao estilo da Pastoral da Juventude (PJ). Meus irmãos e vizinhos também participavam desse grupo motivados pelo coordenador da comunidade, chamado Nivaldo Duda. Nos reuníamos todos os domingos à tarde. Partilhávamos a palavra, cantávamos, planejávamos os encontros para outras comunidades.

POM: Como foi a vivência de seu discernimento vocacional?
Pe. Genilson: Ainda no ano de 2003 fui convidado pela coordenadora pedagógica e direção do colégio São Luiz, em Casinhas, a Senhora Veronica Geriz, para participar de um encontro na Mariapolis, dos Focolarinos, em Recife. Passei 4 dias nesse encontro. Uma experiência diferente, ecumênica, inter-religiosa, espiritual, testemunho e unidade. A história de Chiara Lubich acolhia como uma fonte de inspiração vocacional e doação. Guardava aquela experiência única no coração. Voltei encantado, muito feliz. Os amigos perguntavam o que tinha acontecido comigo. Não sabia responder. Sem palavras. O sorriso, a alegria de viver era o que expressava em mim.

Em 2005, em um retiro de carnaval, organizado pela Renovação Carismática Católica, ouvindo as pregações, cada vez mais sentia no coração o chamado para aprofundar a vocação. Eu estava, naquele período, auxiliando na catequese de crisma com a catequista. Todos os meses tínhamos formação de catequese na cidade de Surubim, no Colégio Nossa Senhora do Amparo. O pároco sempre dava os nortes reflexivos para a catequese. Era bom ouvir, escutar e participar. Certo dia, peguei uma carona com o coordenador da catequese, o professor Luiz Gonsalves, já de idade, hoje padre Luiz. Ele parecia angustiado pela falta de padre: “são poucos padres, e os poucos, ocupados demais”. Fiquei matutando aquelas palavras.

Havia na paróquia de Surubim o padre Aluísio da Silva Ramos. Eu escutava as suas pregações pelo rádio, ou nos encontros de catequese. Naqueles dias, no sítio, ouvindo sua pregação, deixei de lado a serra, instrumento que usava para cortar capim, e fui ouvi-lo. Falava de saída, não ser o que o outro pensa, mas ser uma pessoa de decisão, que sabe o que faz, consciente da sua missão. Foi profundamente essencial na minha vida suas reflexões.

A figura do padre era para mim e a para minha família um modelo, mas muito distante. Eu precisava quebrar aquela distância. Dias depois compartilhei com um catequista, no encontro, meu desejo de falar com o padre. O rapaz disse: “olha o padre aí, fala com ele”. No intervalo daquele encontro, falei: “Olá, sr. padre, posso falar com o senhor? Queria falar sobre vocação”, disse eu. Respondeu o padre: “Meu irmão, hoje não da, mas na próxima semana lhe atenderei na secretaria paroquial”. Naquela semana, pela primeira vez faltei a aula para ir à missa. Nunca tinha feito isso. Não sabia qual padre iria, apenas queria estar na missa naquele dia. Antes da missa ele me chamou e conversou comigo. Mais uma vez disse que no outro dia poderia ouvir com mais tempo.

No dia agendado, ao começar a conversa, fui logo expressando: “Olhe, não quero ser padre, mas quero discernir minha vocação”. Ele muito sábio pediu duas tarefas como critério, depois de várias conversas, para eu ficar um final de semana ajudando os padres nas missas e, em outro final de semana, participar dos encontros vocacionais. Era cansativo pra mim, pois, além de cuidar do gado e realizar as tarefas do sítio, tinham as aulas e eu estagiava no colégio, lecionando uma turma de jovens e adultos toda noite. Porém não foi motivo para desistir. Além da escola, todos os sábados eu era vendedor de frutas e verduras na feira livre da cidade. Eu gostava de ajudar muito meu pai. Porém, meu pai jamais pensava que ia seguir a vocação, apesar de ter muita vontade de ver um filho padre. Assim foi tomando o caminho da vocação.

POM: Após esse momento de discernir sobre a vocação, como foi o período de formação ao sacerdócio?
Pe. Genilson: Em 2006, entrei no Seminário Menor Nossa Senhora de Lourdes para a experiência dos estudos do propedêutico em preparação para o seminário Maior. Em 2007 ingressei no Seminário Maior Rainha dos Apóstolos, da Diocese de Nazaré, em Olinda. Cursei filosofia no Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Olinda e Recife.

Em 2010, com a chegada de Fernando Saborido, em Recife, e apoio do Bispo de Nazaré, Dom Severino Batista, fomos estudar na Universidade Católica de Pernambuco. Ainda em formação, tive a oportunidade de participar das missões dos seminaristas, idealizada por Dom Esmeraldo, em Santarém, por 40 dias, na Cidade de Belterra (PA). Participei dos encontros dos seminaristas no nordeste em Campina Grande e da formação missionária para seminaristas no Centro Cultural Missionário (CCM).

POM: O que você destaca do período de ordenação e trajetória na missão presbiteral?
Pe. Genilson: Em 2014, aconteceu o estágio pastoral em preparação ao diaconato na cidade de Goiana. No dia 14 de novembro fui ordenado diácono na cidade de Nazaré, sendo enviado para serviço diaconal, na cidade de Orobo. Fui ordenado presbítero em 9 de abril de 2015, ano em que a igreja do Brasil trabalhava o tema do serviço: “Eu vim para servir” (Mc 10,45). Essa foi a inspiração também da minha ordenação. Nesse mesmo ano recebi a missão de assessorar a Infância e Adolescência Missionária (IAM) na diocese. Em 2016 fui enviado para a paróquia Nossas Senhora do Rosário, em Goiana, coadjutor do Pároco, Padre Limacedo Antonio, hoje atual bispo auxiliar de Olinda e Recife.

No dia 5 de outubro de 2017, assumi a paróquia Nossa Senhora do Desterro, Itambé (PE). Um contexto novo, diferente e desafiador para mim. Mas com o apoio do clero, o Bispo diocesano, Dom Francisco de Assis, e toda a comunidade, assumi aquela missão com muito amor e disponibilidade naquele mês missionário. Por três anos, cuidamos sendo presença de pastor, na proximidade ao povo, na atenção às comunidades mais afastadas, os grupos, pastorais e movimentos, juventude, catequese, aberto ao dinamismo da paróquia, na paciência e consciência de ser, mesmo um jovem, mas buscando com sabedoria conduzir o povo que Deus me confiou.

POM: Como você recebeu este novo desafio em sua vida de estar na secretaria da POPF?
Pe. Genilson: Em contexto de pandemia, tempo de responder com mais ousadia o chamado, vi como um renovar da vocação. Recebi o convite do bispo diocesano e da direção das Pontifícias Obras Missionárias a tarefa de colaborar na Obra na Propaganda da Fé. Foi uma surpresa, uma novidade e uma responsabilidade tamanha. Em conversa com o bispo, olhamos para o testemunho, como cristão, como igreja diocesana, como padre, respondendo às intuições do Papa Francisco para uma Igreja aberta, ousada e em saída. Acolhi a nova missão como resposta ao chamado de Deus. Posso dizer que não foi fácil. Foram dias de silêncio, oração e discernimento.

A secretaria da obra tem uma dimensão tamanha em acompanhar, motivar, colaborar com vários grupos missionários, as famílias missionarias, a juventude missionária e o projeto dos enfermos e idosos missionários, por esse imenso Brasil. Vamos ter o contato com os regionais, as dioceses que têm a obra e também na possibilidade de escutar e apresentar as dioceses onde ainda não tem.

POM: Nos próximos seis meses fará um trabalho conjunto com Pe. Badacer Neto na secretaria. Quais as perspectivas deste trabalho?
Pe. Genilson: Primeiramente, falo daquilo que já estou vivendo nesses dias de chegada. Uma acolhida fraterna do Diretor da POM, Pe. Maurício Jardim, da alegria contagiante da Ir. Vania Sousa, da IAM; do Pe. Antonio Niemiec, da União Missionária; e claro, do meu irmão, nordestino, baiano, o Pe. Badacer Neto, sem esquecer os funcionários das POM. Vejo como um belo processo de caminhar juntos na missão.

Essa parceria de seis meses com o padre Badacer será de suma importância, podendo conhecer as atividades da POPF na sua atuação em nosso Brasil, em nossos regionais e dioceses. Tem como finalidade, ainda, a continuidade, comunhão e diálogo junto à Animação Missionária da Igreja do Brasil. Também tem como finalidade a tomada de consciência na perspectiva da sinodalidade, na escuta e partilha das experiências dos leigos, jovens, famílias, grupos, bispos, colaborando com a consciência missionaria, não esquecendo que a missão é de Deus.

Que neste ano, refletindo o tema da campanha missionária no mês de outubro, com o tema “Jesus Cristo é missão”, possamos aprofundar e testemunhar aquilo que vimos e ouvimos d´Aquele que nos chamou, sendo sinal de comunhão e missão, escuta e compaixão em contexto de pandemia. Hoje como sempre, Ele nos chama a todos com mais ousadia, testemunhando seu amor infinito, cuidando de todos e da casa comum. Caminhar juntos na reciprocidade é a nossa missão.

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Comentários

27 respostas

  1. História linda que sempre vou admirar, Deus lhe abençoe Padre Genilson, como fico feliz em poder ter tido está convivência com o senhor, como paroquiana.

    1. Boa noite padre Genilson sua benção. Fico muito feliz em saber que o senhor abraçou essa missão com muita força e dedicação. Me sinto muito grato por ter convivido com o senhor. que Deus lhe abençoe sempre nessa sua Nova caminhada.

    2. Que histórias linda que sempre vou lê admira muito que Deus lê abençoe sempre Padre Genilson como fico feliz em poder ter tido está convivência com o senhor q continue sendo essa pessoa maravilhosa como o senhor é te desejo toda felicidade do mundo e que nossa senhora do desterro esteja sempre contigo

  2. Que história de vida e missão linda Padre Genilson que Deus lhe cubra de bênçãos sempre o senhor e um sacerdote ungido com o Espírito Santo por onde passa deixa marcas inesquecivel nas vidas das pessoas e nas paróquias por onde passou e tenho certeza que vai deixar muito mais nessa sua nova missão nós da paróquia Nossa senhora do Desterro estaremos sempre em oração pela sua vida e sua missão

    1. Padre Genilson Sousa, sacerdote de muita espiritualidade e vocação certa.
      Sua vida é doação na Missão para os irmãos, em especial os sedentos do amor misericórdioso de Deus.
      Com esse carisma conquista os corações para Jesus ❤️

  3. Um resumo da sua biografia já lhe renderia bastante páginas para um livro rsrsrs. Parabéns Pe Genilson e que Deus abençoe o senhor e os demais envolvidos nesta missão.

  4. Padre Genilson o senhor foi um exemplo de ensinamentos para nós. Temos orgulho em dizer que o senhor foi um e é o nosso Bom Pastor!! Que Deus lhe abençoe. Caminha q o caminho é caminhar!!! Um forte abraço!!

  5. Obrigado padre Genilson por ter compartilhado esta linda história de missão e bênção em sua vida para mim é um grande orgulho te tido a graça de o senhor ter sido o nosso padre e nosso grande amigo que Deus lhe abençoe sempre .

  6. Que trajetória de vida linda que o senhor tem, Pe. Genilson! Fico encantada com seu poder de decisão firme, sua vivacidade e amor às causas de Deus. Aqui fico torcendo por suas vitórias em Cristo.
    Meu abraço virtual. ALBA BARBOSA

  7. Parabéns padre Genilson! Sua história de vida é um exemplo de Deus presente em sua vocação desde pequeno, o senhor é um anjo enviado por Deus aquilo na terra para inspirar as pessoas no caminho do senhor, tenho orgulho de ter compartilhado momento maravilhoso na Paroquia nossa senhora do desterro , o senhor continuará sendo pra nós da paróquia um exemplo de bom pastor. Deus ilumine sua nova missão, estará sempre em minhas orações

  8. Boa noite padre Genilson!!Desejo que conserve em seu coração a felicidade de servir e que sua fé e confiança em Jesus, sejam renovadas diariamente! Que a Virgem Maria, derrame amorosamente, muitas bênçãos em sua vida! Que Deus te proteja, ilumine sua caminhada e conceda muita paz e serenidade, abraço saudades

  9. Que história linda, que vivencia linda. Só tenho orgulho e gratidão a Deus por ter tido o privilégio de conviver com o Sr. Pe. Genilson. Gratidão por tudo que fez e continua fazendo.

  10. A paróquia de nossa senhora do desterro sentirá sua falta, os itambeensses tiveram grande pároco, um grande administrador.
    A prova do seu dinamismo e de sua competência está as vistas.
    Deus te ilumine na sua nova missão, um afetuoso abraço.

  11. Meu irmão espiritual! Uma grande graça vivenciamos com o senhor na todos os cantos de Itambé PE, foram momento permanente em nossa vida familiar, meu muito obrigado a Deus por ter vivido esse momento espiritual inspiracao de Deus. Hoje você está ainda mais proximo ao fervor espiritual, de corpo e alma, estamos aqui ainda mais presente por sentir sua presença fervorosa, seu envolvimento fervor nas coisas celestial,. Benção padre! Eu creio!

  12. Parabéns Padre Genilsom, pela linda historia de vida e missão.Quantos desafios!! Agradeço a Deus pelo seu sim a Ele e pelo pastor zeloso que o Senhor foi aqui em Itambé e sempre será. Que as bençãos de Deus sejam derramadas sobre sua vida e todos desta missão.

  13. Padre. O Senhor é a realização do sonho que Deus sonhou pra sua vida.que ele continue lhe guiando e propocionando coisas boas em sua missão .nas dificuldades e tribulações nunca está sozinho Deus estará sempre presente.

  14. Pe Genilson, Deus abençõe essa sua nova missão na propagação da fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. Sentimo-nos, eu e sua tia Risoleide, gratificados em tê-lo como sacerdote e amigo, agrademos à Deus por isso. Eu, pessoalmente, tinha vontade de conhecer a história de sua vocação, a qual tomei conhecimento através dessa sua entrevista. Benção e abraços.João Aprigio e Risoleide.

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