Discípulos missionários da misericórdia

de Jaime C. Patias *

Com a solenidade litúrgica de Jesus Cristo Rei do Universo, no domingo, 20 de novembro, o papa Francisco encerrou o Ano Santo da Misericórdia na Basílica de São Pedro em Roma. Sabemos que a misericórdia de Deus não tem limites e não acaba com o fechamento das portas santas. Inaugurado no dia 8 de dezembro de 2015, este Jubileu Extraordinário quis ser um “tempo favorável para a Igreja, a fim de se tornar mais forte e eficaz o testemunho dos fiéis” (MV, 3). Esse tempo favorável foi marcado por muitas reflexões, celebrações, peregrinações, obras, iniciativas e gestos concretos de conversão que transformaram vidas e despertaram nos cristãos o ardor missionário. E não faltaram incentivos para uma Igreja misericordiosa em saída.

0-0-0-0-a-a-a-sem-teto_articolo4Misericórdia, como diz a própria palavra, do latim: miserere (ter compaixão), e cordis (coração): “ter compaixão do coração”, ter capacidade de sentir aquilo que a outra pessoa sente, ter um coração pelos miseráveis, estar atento aos outros, ao próximo. Ver onde eles sofrem, onde estão as suas feridas, as suas necessidades. Ter olhos abertos, não ficar indiferente e não fazer parte da globalização da indiferença denunciada pelo Papa Francisco em Lampedusa e em várias outras ocasiões.

É preciso lembrar também que a misericórdia não é apenas uma compaixão, mas uma atitude, uma virtude ativa. Quer combater a miséria, quer ir ao encontro. Não move só o coração, mas também as mãos e os pés.

Ao longo do ano, testemunhamos muitas práticas concretas de misericórdia. Mas não faltaram também, eventos que reduziram a misericórdia a sentimentos subjetivos e intimista de pena. Não podemos esquecer que misericórdia vai muito além. É também questão de justiça social conforme o sentido bíblico de Jubileu, apresentado no Levítico (25) que propõe a realização de quatro ações essenciais: o descanso da terra (Lv 25,1-7); a reintegração de posse da terra (Lv 25,8-34); a proibição da cobrança de juros (Lv 25, 35-38) e a libertação ou resgate de escravos (Lv 25,39-55).

A ideia era evitar a exploração e o empobrecimento do povo; o acúmulo e o esgotamento da terra, uma questão de justiça socioambiental.

O descanso da terra se assemelha ao descanso dos seres humanos no mesmo dia em que Deus descansou para contemplar sua criação, o sétimo dia, ou seja, o sábado. E a trombeta (yobel) era tocada para que todos se lembrassem de vivenciar com seriedade aquele ano.

Na Bula Misericordiae Vultus (MV) o papa Francisco cita a passagem de Lucas (4, 16-20) em que Jesus se apresenta na Sinagoga e anuncia que veio para “anunciar a Boa Notícia aos pobres… a libertação aos presos e a recuperação da vista aos cegos, para dar liberdade aos oprimidos, e para anunciar o ano da graça do Senhor”.

Jesus faz memória da proposta do Levítico 25 retomado por Isaías (61), o ano Jubilar, do perdão das dívidas, da libertação dos escravos, da devolução das terras aos seus donos originais. O que significaria essa profecia hoje? Aqui o próprio Jesus fala da sua missão, que é também a nossa. O missionário da misericórdia deve saber para qual direção o Espírito de Deus empurra Jesus, pois segui-lo é precisamente caminhar na mesma direção.

A “opção pelos pobres” é acima de tudo, uma opção do Espírito. Não é possível viver e anunciar Jesus se não é desde a defesa dos últimos e da solidariedade com os excluídos.

Se o que fazemos e proclamamos na Igreja de Jesus não é Boa Notícia para os que mais sofrem, que Evangelho estamos anunciando? Que Jesus estamos seguindo? Que importância têm os missionários?

Não podemos excluir do Ano Jubilar da Misericórdia, a questão da justiça social que conclama a um novo jeito de viver em vista da construção do Reino.

O princípio misericórdia

0-0-0-0-a-a-a-anomise3O princípio misericórdia é o mais importante na vida de Jesus e da Igreja. O discípulo missionário, como pessoa da misericórdia, encontra em Jesus sua inspiração. A Misericórdia de Deus não ilude, não é paternalista ou assistencialista, mas ação concreta para transformar e libertar.

Na história da Salvação, misericórdia é um substantivo que passa a ser um verbo para se personificar em Jesus, o rosto misericordioso de Deus.

A Misericórdia do Deus de Abraão, Isaac, Jacó, Moisés e dos profetas é Jesus Cristo. A Misericórdia é o Verbo que se fez carne, habitou entre nós e nos amou até a morte e morte de Cruz. Morreu, mas ressuscitou glorioso. Assim, para os cristãos a palavra misericórdia deixa de ser um substantivo abstrato e assume a condição de Verbo encarnado, bem concreto: Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

A primeira atitude do missionário da misericórdia é estar profundamente unido a Cristo: o rosto misericordioso do Pai. Isso deve transparecer em sua vida e missão.

O caminho missionário é um incentivo para que a Igreja e seus agentes se descentralizem, pela misericórdia. A Igreja autorreferencial não consegue atravessar o caminho, ir ao encontro nas periferias existencial e geográfica. Por isso, a misericórdia é o caminho para a conversão missionária.

A misericórdia está na raiz e norteia o caminho missionário da Igreja. Sem o princípio da misericórdia a missão se torna vazia, a Igreja uma empresa, o missionário um burocrata do culto, um assistencialista sem coração.

Itinerário da misericórdia

Um itinerário básico para trilhar o caminho do discipulado da misericórdia poderia ser o seguinte:

  1. Reconhecer os erros, os pecados e confiar na misericórdia de Deus. Isso se realiza celebrando o sacramento da Reconciliação.
  2. Passar pela Porta Santa assumindo o compromisso de uma vida nova. Quando decidimos começar de fato uma vida nova, não precisamos passar inúmeras vezes pela Porta. Basta uma vez.
  3. A Parta Santa nos conduz à mesa da Eucaristia, Pão da vida eterna, alimento na fraqueza, força para o caminho.
  4. A Porta Santa nos leva à mesa da Palavra, sabedoria de Deus para seguir a vida fazendo a sua vontade.
  5. Enfim, reconciliados, novas criaturas, alimentados pela Eucaristia e iluminados pela Palavra (Rosto misericordioso de Deus), partimos como discípulos missionários da misericórdia para anunciar a Boa Notícia que nós mesmo experimentamos. A exemplo de Jesus, somos enviados na força do Espírito Santo para restaurara vidas, cuidar, curar e salvar.

* Pe. Jaime Carlos Patias, IMC, secretário nacional da Pontifícia União Missionária. Publicado na Revista Missões, N. 09, novembro de 2016.

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