Um Sínodo vivido na sinodalidade

Um Sínodo vivido na sinodalidade

Vivenciando a fase pós-Sínodo para a Amazônia, queremos apresentar algumas reflexões sobre esse importante momento vivido pela Igreja. O primeiro artigo trata sobre a sinodalidade.

Por Agenor Brighenti*

Um evento, por mais exitosa que tenha sido sua realização, se não teve um “antes”, dificilmente terá um “depois”. O Sínodo da Amazônia por ter tido um longo e participativo processo de preparação, não defraudou em sua realização e, agora, certamente terá uma consequente implementação dos novos caminhos propostos. É do perfil do Papa Francisco privilegiar o processo aos resultados. “O tempo é superior ao espaço” (EG 236) – é um de seus quatro princípios de ação, indicados na Evangelii Gaudium. Neste particular, o Sínodo da Amazônia inova em relação aos anteriores, inaugurando um novo estilo de assembleia, que tende e precisa ser aprimorado no futuro, ainda que o Papa Francisco esteja muito sozinho, também neste particular.

Sinodal em sua preparação
Este Sínodo foi preparado sinodalmente, com ampla participação dos povos da Amazônia. A fase de escuta envolveu diretamente 87 mil pessoas, de 120 povos distintos, em 280 eventos levados a cabo no seio das Igrejas Locais dos nove países da região. A REPAM – Rede Eclesial Panamazônica, organismo adscrito ao Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), com sede em Quito e sucursais afiliadas às Conferências Episcopais de cada um dos países da Região, dinamizou e coordenou o processo. A caminhada começou em janeiro de 2018 por ocasião da visita do Papa Francisco a Puerto Maldonado (Peru), passou pela realização do Sínodo em Roma e, agora, entra no período de implementação de suas propostas. A fase escuta teve como documentos de referência – os Lineamenta (Documento de Consulta) e, a fase de preparação imediata – o Instrumentum Laboris (Documento de Trabalho), que recolheu as contribuições coletadas na escuta. Ao fazerem seus o clamor do povo da Amazônia, os participantes da região amazônica chegaram a Roma sabendo o que queriam dizer e sugerir ao Papa. E este, paciente e atentamente, os escutou… e aplaudiu. Atitude, entretanto, de nem todos os seus colaboradores de casa, que não hesitaram em deixar claro na assembleia.

Sinodal em sua realização
O Sínodo também foi sinodal em sua realização. Estiveram presentes, além dos bispos de todas as dioceses e prelazias dos nove países que integram a região, 55 auditores, 12 convidados especiais, 06 delegados fraternos de outras Igrejas, assim como 25 peritos das ciências humanas e teológicas. Como os desafios da região amazônica ultrapassam suas fronteiras, também estiveram presentes no evento, representantes da Igreja na Europa, África, América, Ásia e Oceania. Eram 186 padres sinodais, acompanhados de mais de uma centena de pessoas, em especial indígenas e mulheres, em uma harmônica sinfonia de Igrejas e povos preocupados com o evangelho da vida e o cuidado da “Casa Comum”. No plenário do auditório da Aula Paulo VI, nas chamadas Congregações Gerais, todos ouviram a todos. Nos grupos linguísticos, denominados Círculos Menores, se pôde aprofundar as questões levantadas no plenário, apresentando “contribuições” para uma primeira redação do documento conclusivo. Em seguira, o texto voltou a ser discutido e emendado através de modos nos Círculos Menores, em vista de uma segunda redação, submetida à votação dos padres sinodais na última Congregação Geral.

A primeira redação do documento, também por limite de tempo para os Secretários Especiais e a Comissão de Redação, saiu com muitos limites, provocando certo mal-estar generalizado, tanto que, de volta aos Círculos Menores, recebeu 831 modos, com a finalidade de serem integrados na segunda redação. Também acometida pela falta de tempo, a Comissão de Redação não pôde integrar todos os modos apresentados, sem por isso comprometer uma boa melhora do texto. Optou-se por uma redação mais consensual do conjunto da assembleia, tanto que o Documento contou com a aprovação unânime dos padres sinodais. Nenhum parágrafo foi rejeitado. Certamente o texto poderia ter tido uma maior inclusão de modos dos Círculos Menores, se os peritos não tivessem tido que se limitar a uma tarefa mais técnica que de reflexão e sistematização das proposições. Integrar melhor os peritos na Assembleia é um dos aspectos a melhorar. O modo de atuação dos teólogos no Concílio Vaticano II pode ser um bom referencial. Por outro lado, o documento não fecha nenhuma porta tocada pelas Igrejas e povos da região amazônica. Mas, também é verdade que ao lado daquelas portas que foram abertas, algumas outras ficaram apenas entreabertas, deixando todo o ônus de abri-las sobre os ombros da Papa Francisco.

A necessidade de um transbordamento
A prudência diante da urgência de avançar se deve, sobretudo, ao medo de inovar, quando o Sínodo se propunha a discernir e propor “novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Consciente disso, o Papa Francisco em um determinado momento dos trabalhos, falou da necessidade de um “transbordamento”, de soluções “englobantes e totais”, abrangentes, não de simples “remendos”. Mas, propostas corajosas, magnânimas, exigem capacidade de risco, implica inovar-se para poder inovar, o que é muito pedir para determinados colaboradores de sua casa, apegados a uma tradição, concebida mais como preservação do passado do que projeção para o futuro frente aos desafios do presente.

Felizmente, remaram com o Papa e com o Sínodo da Amazônia para “águas mais profundas”, diversas iniciativas que falaram e também deram o que falar. Uma delas foi a “Casa Comum”, uma espécie de tenda permanente montada na Igreja Santa Maria in Traspontina, em plena Via della Conciliazione, com atividades permanentes abertas ao público, durante todo o período do Sínodo. Celebrações, como a romaria dos mártires da Amazônia, exposições, apresentações de iniciativas de populações nativas, testemunhos, conferências e orações, congregaram grande número de pessoas, que acompanharam, sustentaram e influíram sobre o evento. Outra foi a presença da Amerindia, uma rede teólogos e teólogas da América Latina, alguns deles presentes em Roma e muitos outros em seus países, produzindo textos, segundo as necessidades e solicitações de padres sinodais.

Uma terceira iniciativa foi o Pacto das Catacumbas, assinado por mais de duas centenas de pessoas, metade delas padres sinodais. Numa madrugada de domingo, após uma celebração eucarística presidida por Dom Claudio Humes na Catacumba de Santa Domitila, o “Pacto das Catacumbas pela Casa Comum. Por uma Igreja com rosto amazônico, pobre e servidora, profética e samaritana”, quis ser continuidade do “Pacto das Catacumbas”, idealizado por Dom Hélder Câmara no final do Vaticano II e assinado por 40 padres conciliares no mesmo local. Na celebração de assinatura de novo pacto, usou-se uma estola de Dom Hélder e o cálice do Pe. Ezequiel Ramin, mártir da Amazônia. Tal como o antigo pacto fez a ponte entre a renovação conciliar e a gênese da tradição libertadora da Igreja na América Latina, o novo pacto quer expressão do urgente compromisso de todos pela salvaguarda da Amazônia e de um planeta enfermo, antes que seja tarde demais.

* Doutor em ciências teológicas e religiosas, especialista em pastoral social e planejamento pastoral

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