Ano XXXVI – nº 4 – outubro a dezembro de 2008
PUM
Atividades da Pontifícia União Missionária/Brasil em 2008

“A Igreja é ‘missionária por sua natureza’: é tarefa da Pontifícia União Missionária tornar esta realidade atual e operante, especialmente entre as pessoas chamadas, por vocação, ao serviço da Igreja nos ministérios ordenados e na consagração religiosa e laical e entre os missionários leigos diretamente empenhados na Missão universal” (Estatutos, 19).
Conscientes dessa tarefa, no ano de 2008 demos continuidade às atividades do Secretariado Nacional, conforme as demandas das bases e as nossas possibilidades.
1. As atividades
Estratégia: Todas as oportunidades que foram oferecidas foram acolhidas, na convicção de que a mensagem de que somos portadores é importante e urgente.
Janeiro
19 e 20: Belém – Simpósio Missionário – N 2
30 e 31: Comissão da Amazônia – CNBB
Fevereiro
13 a 16: Itaici (Indaiatuba, SP) – Encontro Nacional do Clero
23: Gama (Brasília, DF) Formação de agentes missionários paroquiais.
Abril
4 a 6: Campo Comprido (Curitiba, PR) – Espiritualidade Missionária p/formandos Franciscanos Conventuais
18 a 20: Montes Claros, MG – Efaiam de 1º Nível
26 e 27: Ipameri, GO – Efaiam de 1° Nível
Maio
1° a 4: Aparecida, SP – 2° Congresso Missionário Nacional
16 a 18: Caicó, RN – Efaim de 2° Nível
21: Fortaleza, CE – Encontro com a Coordenação do Comire NE 1
Junho
20 a 22: Brasília, DF – Retiro dos Seminaristas da Diocese de Porto Nacional, TO, em preparação ao diaconato
Julho
7 a 10: Fortaleza, CE – 2° Formise (Formação Missionária para Seminaristas)
12 e 13: Abaetetuba, PA – Juventude Missionária
Agosto
29 a 31: Bacabal, MA – Efaiam 2
Setembro
4 a 7: Coronel Fabriciano, MG – Congresso Missionário Diocesano
19 a 21: Xique-Xique, BA – Efaiam 2
26 a 28: Tocantinópolis, TO – Efaiam 2
Outubro
11: Seminaristas – Céu Azul (Luziânia, DF)
14 e 15: Campo Grande, MS – Formação Missionária para Redentoristas
19: CRB/DF – Meditação Missionária
25: Rádio Nova Aliança (Arquidiocese de Brasília) – Brasília, DF – Entrevista no Mês das Missões
26: Retiro Agentes de Pastoral dos Migrantes (DF)
31: Retiro para o Seminário Maior Arquidiocesano de Brasília, DF
Novembro
22: Seminário: Orientação sobre visitação missionária das famílias
27 a 30: Comina
2. Avaliação
Nota-se um aumento do interesse dos seminaristas pelas Missões. Em Fortaleza, CE (2° Formise), houve queixa de que muitos bispos não levam a sério a dimensão universal da Missão e dificultam o engajamento dos futuros sacerdotes “na outra margem”. Por isso foi enviado à CNBB um abaixo-assinado, pedindo que sejam estabelecidos procedimentos que facilitem a consagração de seminaristas e sacerdotes diocesanos à Missão universal da Igreja (cf. Encíclica Fidei Donum, de Pio XII).
A criação de espaços para a animação missionária continua difícil, e nós ficamos à mercê dos pedidos das comunidades locais, com a conseqüência de que temos certa presença onde há sensibilidade missionária, mas ficamos totalmente ausentes onde tal sensibilidade não existe e, portanto, a animação seria mais necessária.
A generalização do uso da palavra “missão” acaba fazendo esquecer a necessidade do trabalho “ad gentes”.
3. Os temas
O copeiro de Xerxes I
Lemos na história da Pérsia que o Rei Xerxes I, para manter vivo seu desejo de vingança contra os gregos que o tinham derrotado vergonhosamente, dera uma ordem a seu copeiro de segredar todas as noites aos seus ouvidos as palavras: “Lembra-te dos gregos!”
Deixado do lado o ódio e a vingança, permanece clara para Comissão Missionária da CNBB, do Comina e das POM a obrigação da lembrar à Igreja do Brasil que há “gregos” diante dos quais temos uma enorme dívida de fé.
Está acontecendo de modo cada vez mais “natural”, quase cínico, aquilo que o Papa João Paulo II queria que fosse evitado: que a “tarefa especificamente missionária, que Jesus confiou e continua quotidianamente a confiar à Sua Igreja”, se torne numa realidade diluída na Missão global de todo o Povo de Deus, ficando desse modo descurada ou esquecida (cf. Redemptoris Missio, 34).
Aparecida e sua preocupação com a Missão “ad gentes”
O Documento final da 5ª Conferência do Episcopado Latino-Americano e Caribenho (DAp) não pode ser considerado generoso com a Missão “ad gentes”. As referências a ela, à qual outros documentos da Igreja chamam “gravíssima obrigação”, são escassas e anêmicas. Mesmo assim, as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE) 2008-2010, aprovadas na última Assembléia dos Bispos do Brasil (Itaici, abril de 2008), praticamente ignoram até essas poucas referência do DA. E a gente fica se perguntando: o que há com nossa Igreja, com nossos bispos?
O DAp (99d) afirma:
“Os esforços pastorais orientados para o encontro com Jesus Cristo vivo têm dado e continuam dando frutos. Entre os outros destacamos...
d) Ressalta-se a abnegada entrega de tantos missionários e missionárias que, até o dia de hoje, têm desenvolvido valiosa obra evangelizadora e de promoção humana em todos os nossos povos, com multiplicidade de obras e serviços. Desse modo se reconhece o trabalho de numerosos sacerdotes, consagradas e consagrados, leigos e leigas que, a partir do nosso Continente, participam da missão ‘ad gentes’.”
Palavras como abnegada entrega nem aparecem nas DGAE 2008-2010.
O DAp (145) afirma:
“Quando cresce no cristão a consciência de pertencer a Cristo, em razão da gratuidade e alegria que produz, cresce também o ímpeto de comunicar a todos o dom desse encontro. A Missão não se limita a um programa ou projeto, mas é compartilhar a experiência do acontecimento do encontro com Cristo, testemunhá-lo e anunciá-lo de pessoa a pessoa, de comunidade a comunidade e da Igreja a todos os confins do mundo (cf. At 1,8).”
Palavras como todos os confins do mundo nem aparecem nas DGAE 2008-2010.
O DAp (376) afirma:
“Ao mesmo tempo, o mundo espera de nossa Igreja latino-americana e caribenha um compromisso mais significativo com a missão universal em todos os Continentes. Para não cairmos na armadilha de nos fechar em nós mesmos, devemos formar-nos como discípulos missionários sem fronteiras, dispostos a ir “à outra margem”, àquela onde Cristo ain não é reconhecido como Deus e Senhor, e a Igreja não está presente (cf. AG 6).”
Palavras como armadilha nem aparecem nas DGAE 2008-2010.
O DAp (377) afirma:
“Os discípulos, que por essência são também missionários em virtude do Batismo e da Confirmação, nos formamos com coração universal, aberto a todas as culturas e a todas as verdades, cultivando nossa capacidade de contato humano e diálogo. Estamos dispostos, com a coragem que o Espírito nos dá, a anunciar Cristo, onde não é aceito, com nossa vida, com nossa ação, com nossa profissão de fé e com sua Palavra. Os emigrantes são igualmente discípulos e missionários, e são chamados a ser nova semente de evangelização, a exemplo de tantos emigrantes e missionários que trouxeram a fé cristã à nossa América.”
Nas DGAE 2008-2010 temos o seguite parágrafo que poderia relacionar-se com o DAp, 377
“A fraternidade cristã é aberta e quer acolher todos os seres humanos, sem fazer discriminação. Aponta para a fraternidade universal como vocação de toda a humanidade e meta a ser perseverante e constantemente buscada. É por isso que, nas situações de individualismo, a fé cristã identifica a mesma resposta que, apresentada nas primeiras páginas da Bíblia, continua a gritar com voz forte e incisiva: “Por acaso, sou responsável por meu irmão?”. A responsabilidade pela união não se aplica somente aos cristãos. Todas as pessoas, indistintamente, são convocadas à vida de fraternidade e comunhão” (DGAE, 151).
O DAp (378) afirma:
“Queremos estimular as Igrejas locais a que apóiem e organizem os centros missionários nacionais e atuem em estreita colaboração com as Pontifícias Obras Missionárias e outras instâncias eclesiais cooperantes, cuja importância e dinamismo para a animação e a cooperação missionária reconhecemos e agradecemos de coração. Por ocasião dos cinqüenta anos da encíclica Fidei Donum, agradecemos a Deus os missionários e missionárias que vieram ao Continente e aqueles que hoje estão presentes nele, dando testemunho do espírito missionário de suas Igrejas locais ao serem enviados por elas.”.
Palavras como centros missionários, animação e cooperação missionária, “fidei donum” nem aparecem nas DGAE 2008-2010.
O DAp (379) afirma:
“Nosso desejo é que esta 5ª Conferência seja estímulo para que muitos discípulos de nossas Igrejas vão e evangelizem na “outra margem”. A fé se fortalece quando é transmitida e é preciso que em nosso continente entremos em nova primavera da Missão ‘ad gentes’. Somos Igrejas pobres, mas “devemos dar a partir de nossa pobreza e a partir da alegria de nossa fé”, e isso sem descarregar sobre alguns poucos enviados o compromisso que é de toda a comunidade cristã. Nossa capacidade de compartilhar nossos dons espirituais, humanos e materiais com outras Igrejas, confirmará a autenticidade de nossa nova abertura missionária. Por isso, estimulamos a participação na celebração dos congressos missionários.”
Palavras como a outra margem, “ad gentes”, dar a partir de nossa pobrezaI, sem descarregar sobre alguns poucos, abertura missionária nem aparecem nas DGAE 2008-2010.
O DAp (548) afirma:
“Esta 5ª Conferência, recordando o mandato de ir e fazer discípulos (cf. Mt 28,20), deseja despertar a Igreja na América Latina e no Caribe para um grande impulso missionário. Não podemos deixar de aproveitar esta hora de graça. Necessitamos de um novo Pentecostes! Necessitamos sair ao encontro das pessoas, das famílias, das comunidades e dos povos para lhes comunicar e compartilhar o dom do encontro com Cristo, que tem preenchido nossas vidas de “sentido”, de verdade e de amor, de alegria e de esperança! Não podemos ficar tranqüilos em espera passiva em nossos templos, mas é urgente ir em todas as direções para proclamar que o mal e a morte não têm a última palavra, que o amor é mais forte, que fomos libertos e salvos pela vitória pascal do Senhor da história, que Ele nos convoca em Igreja, e quer multiplicar o número de seus discípulos na construção do seu Reino em nosso Continente! Somos testemunhas e missionários: nas grandes cidades e nos campos, nas montanhas e florestas de nossa América, em todos os ambientes da convivência social, nos mais diversos “areópagos” da vida pública das nações, nas situações extremas da existência, assumindo ‘ad gentes’ nossa solicitude pela Missão universal da Igreja.”
Palavras como impulso missionário, espera passiva em nossos templos, solicitude pela missão universal da igreja nem aparecem nas DGAE 2008-2010.
4. As urgências
Olhando o trabalho feito e o que falta fazer, parece necessário dedicar um estudo sério e aprofundado aos seguintes assuntos:
Como atingir as lideranças institucionais (bispos, coordenadores de pastoral, formadores dos seminários...) e carismáticas (grupos eclesiais, movimentos, comunidades eclesiais de base...) da Igreja para que tenham uma compreensão correta da importância, urgência e gravidade da Missão “ad gentes”.
O conceito de Missão. Não é mais possível pensar a Missão como se fazia cem anos atrás. E não é aceitável o esvaziamento do compromisso da Igreja com os cinco bilhões de homens e mulheres que nunca ouviram falar de Cristo. Temas importantes e atuais como o diálogo inter-religioso, o ecumenismo, o valor salvífico das religiões devem ficar claros para os que trabalham na animação missionária da Igreja do Brasil, para ajudar também toda a comunidade a ficar esclarecida. Não é aceitável que lideranças de destaque da hierarquia ignorem, neguem ou confundam a atividade pastoral com a nova evangelização e o compromisso missionário “ad gentes”.
A Missão Continental deflagrada pelos bispos em Aparecida corre o risco de ocupar espaços que são da Missão universal. Os missionários e missionárias que levam em frente a Missão “ad gentes” quer partindo para a outra margem, quer dedicando-se à animação missionária, não podem deixar que paire a mínima dúvida sobre sua lealdade pastoral e sua preocupação com as comunidades de origem. Mas também não podem permitir que se continue abusando de linguagem ambígua, misturando Missão universal com atendimento de nossas comunidades.
“Os confins entre o cuidado pastoral dos fiéis, a nova evangelização e a atividade missionária específica não são facilmente identificáveis, e não se deve pensar em criar entre esses âmbitos barreiras ou compartimentos estanques. Não se pode, no entanto, perder a tensão para o anúncio e para a fundação de novas Igrejas entre povos ou grupos humanos, onde elas ainda não existem, porque esta é a tarefa primária da Igreja, que é enviada a todos os povos, até aos confins da terra. Sem a Missão ‘ad gentes’, a própria dimensão missionária da Igreja ficaria privada do seu significado fundamental e do seu exemplo de atuação” (Redemptoris Missio, 34).
Brasília, 20 de novembro de 2008
Pe. Sávio Corinaldesi, SX
Secretário Nacional da PUM