Ano XXXVII – nº 3 – julho a setembro de 2009
Aprofundando a Missão
Anunciar a Boa-Nova a Todos

Pe. Estêvão Raschietti, SX
Um filho da terra, recém-ordenado padre, de acordo com seu bispo decidiu ir à Missão com a qual tinha sempre sonhado: a África.
Na Igreja houve orações, discursos, cantos e muita empolgação. Terminada a celebração, já no pátio da Igreja, estouraram as divergências. “Como podemos aceitar isto? Aqui não temos padres, e este nosso conterrâneo vai trabalhar longe, no meio de um povo que nem conhecemos? Antes vamos atender às nossas necessidades, depois se poderá pensar nos outros.” Mas alguém respondeu: “Você fala de um jeito, que nem parece cristão. Se Deus chamou o nosso amigo para trabalhar na África, quem somos nós para nos opor? Afinal, não estamos tão abandonados assim. Temos irmãs que nos ajudam, leigos assumindo as várias tarefas de nossa comunidade. Deus vai olhar por nós que demos o único padre que tínhamos.”
Uma senhora acrescentou: “Nosso Brasil tem recebido muito dos padres vindos de fora... É bonito poder retribuir um pouco a Deus por esta grande dádiva, enviar um filho nosso para a África, onde talvez o povo precise mais do que aqui.”
Com Jesus aconteceu mais ou menos a mesma coisa. Lembra-se da cena de Nazaré (Lc 4,14-30)? Pois bem, Jesus foi acolhido inicialmente com muita simpatia e admiração pela sua comunidade; depois, de repente, o povo ficou enfurecido e tentou até matá-lo. Por que isto? O que ocasionou esta mudança de humor nas pessoas?
Naquela ocasião, Jesus fez algo muito “grave”, aos olhos dos nazarenos: pegou a Bíblia, leu o bonito passo de Isaías, 61,1-2, mas pulou as palavras dirigidas às nações pagãs: “O dia da vingança do nosso Deus.” Para piorar a situação, no seu comentário lembrou o profeta Elias que foi enviado não às viúvas necessitadas do seu povo, mas a uma de Sídon, no Líbano; e do profeta Eliseu que curou um leproso estrangeiro, e não os muitos que havia naquele tempo em Israel.
Javé não era o nosso Deus? Não era só para nós? O Messias não devia se vingar contra os nossos inimigos? Como é que agora vira a casaca, trai a luta de seu povo e se torna salvador dos outros?
Não tinham entendido – e custaram muito a entender também os próprios Apóstolos – que Jesus, o Filho de Deus, não veio só para Israel, mas para salvar a todos.
Pois bem, a Campanha Missionária deste ano tem como tema “Enviados para anunciar a Boa-Nova”, frase trazida do Evangelho de Lucas, 4,18. Dentro da cena de Jesus em Nazaré, lembra-nos exatamente desta dimensão universal da nossa fé: Deus não é só para nós, é para todos, particularmente para os pobres e para os outros. Este todos tem um valor fundamental em termos de compromisso e de vivência cristã: todos são nossos irmãos e irmãs, porque todos são filhos e filhas de Deus. Ninguém é excluído. Portanto não podemos restringir nossos horizontes aos limites de nossa família, comunidade, paróquia. Se nossa Missão for meramente geográfica, cultural, étnica, socialmente ou eclesialmente limitada e se dirigisse somente a uma pequena clientela de “eleitos”, ela se tornará excludente. João Paulo II, em sua encíclica missionária, afirma: “Sem a Missão ‘ad gentes’, a própria dimensão missionária da Igreja ficaria privada do seu significado fundamental e do seu exemplo de atuação” (RMi 34).
O amor de Deus que somos chamados a anunciar não tem fronteiras. Se tivesse, não seria mais aquele Amor.
Sacerdote: Homem de
Espiritualidade Missionária

Pe. Elmo Heck
Em 19 de junho, o Papa dará início a um Ano Sacerdotal. Na Assembléia Nacional dos Bispos do Brasil desde ano, os bispos trataram do assunto com mais empenho, tendo presentes os desafios que os sacerdotes enfrentam diariamente, e, com olhar mais realista, perceberam também os anseios, os medos, as inseguranças pessoais de cada padre. Não deixaram de contemplar a realidade da formação sacerdotal nos seminários e nas faculdades de Teologia. Há grande preocupação com a formação intelectual, humana, pastoral e afetiva do presbítero, que se consagra ao sacerdócio, para dedicar sua vida a favor de Cristo nos irmãos. O sacerdote é alguém que dá a vida a Cristo, servindo-O nos irmãos, porque, só assim, será irmão de Cristo e pai espiritual do Povo de Deus.
O Apóstolo Paulo escreve aos Coríntios, dizendo: “Encorajai-vos, tende o mesmo sentir e pensar, vivei em paz” (2Cor 13,11). A exortação de Paulo é uma palavra “sacramental” para a pastoral presbiteral.
É na missão sacerdotal que o sacerdote cumpre o mandato de Cristo: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa-Nova a toda criatura!” (Mc 16,15). A Igreja tem um grande desafio na formação do sacerdote missionário no século 21, diante dos problemas da globalização e da nova religião, o mercado. A religião virou mercado. Isto traz bastante dificuldade para a inserção do missionário neste mundo que privilegia o sucesso, os bens materiais, a fama e o hedonismo. Apresentar outro modo de vida trazido pelo Evangelho de Cristo nunca foi tão difícil. Karl Rahner dizia que o “sacerdote e o cristão no século 21 ou têm profunda espiritualidade ou não serão nada.”
A Igreja de Cristo tornou-se herdeira das promessas do antigo povo de Deus. Deus manifestava a sua Glória aos homens no tabernáculo e, mais tarde, no templo de Salomão. Agora a Igreja é o verdadeiro santuário de Deus! É nela, e por meio dela, que os homens devem ver a Glória de Deus. Tem a missão que antes era da nação de Israel: “Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Ex 19,6). E Pedro afirma: “Mas vós sois a povo escolhido, o sacerdócio régio, a nação santa, o povo que ele conquistou, a fim de que proclameis os grandes feitos daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa” (1Pd 2,9).
No seu solene mandato, Jesus ordena que sejamos missionários, ordena que a Igreja seja missionária. Também o sacerdote é chamado, seja qual for a sua congregação, mesmo o padre diocesano, a ser na Igreja pastor a serviço do projeto missionário de Cristo. É o caso de perguntar: como Igreja, como pastores, temos uma espiritualidade verdadeira em relação à Missão?
Muitas vezes, a miopia missionária tem-nos feito enxergar somente nossas próprias necessidades e problemas. Nossos sonhos são egoístas e não amamos suficientemente as pessoas perdidas em dilemas neste mundo sem valores. Se for assim, vivemos em crise, sem uma espiritualidade integralizadora e missionária. Mas é sempre tempo de conversão!
Somos pastores na Igreja, chamados a “representar”, de modo sacramental, Cristo-Mestre, Sacerdote, Cabeça e Pastor da Igreja, imitando sua atitude de serviço para com o Pai e com a humanidade (PDV 43). Somos chamados por Deus a dar frutos abundantes e que permanecem (15,1-10).