Ano XXXVII – nº 2 – abril a junho de 2009
Nossos Missionários
Um mês já se passou na Missão em nossa Igreja-irmã de Moçambique. (...) Das quarenta e duas, quinze estão sem padre, algumas há mais de dez anos...
Eu e o Pe. Fabiano atendemos duas paróquias, com 140 comunidades. Só na Paróquia de Micane, existem 14 mil católicos, o que representa seis por cento da população. Os demais são praticamente todos mulçumanos e de outras Igrejas evangélicas. O nome cristão aqui significa e se identifica com o Batismo e participação na comunidade por meio dos ministérios e partilha no dízimo. Todos os católicos são dizimistas e participam das celebrações. Aqui não há o termo católico não praticante, todos os católicos praticam a sua fé. Nesta paróquia, só nestes últimos oito meses, o Pe. Fabiano realizou mil batismos, 70 por cento dos quais, de adultos neoconvertidos, que participaram quatro anos da catequese de iniciação cristã. No Distrito de Moma, onde residimos, a média de católicos cai para dois e meio por cento. Há mesquitas em toda parte, com boa convivência entre as religiões.
Na sombra das mangueiras, celebramos os sacramentos e temos momentos de intensa convivência. São visitas preparadas e esperadas há longo tempo. Na chegada da equipe missionária, a comunidade entoa: “Chegou o dia prometido...” Preparam tudo em clima de festa. Oferecem o que têm de melhor. As famílias trazem seus alimentos para serem preparados e partilhados. É bonito ver a partilha acontecendo. Ao redor do mesmo prato de karacata, preparado à base de mandioca seca, estão crianças, jovens e adultos. A chegada dos missionários é sempre na véspera dos sacramentos. Há pouco tempo para conviver, contudo, é muito intenso. Quando saímos, não sabemos quando será a próxima visita. Talvez depois de um ano ou mais.
Nestas visitas me marcam de forma particular a maneira como somos esperados e visados. Todos os olhos, desde as crianças até os idosos, estão fixos em nós. É uma espécie de fato que se torna acontecimento. Qualquer gesto, palavra ou mesmo fotografia que registramos tornam-se evento único, que desperta naquela multidão um mistura de curiosidade e alegria pela visita tão diferente. Algumas crianças correm de medo e choram pela presença de um branco na comunidade, mucunha, como costumam chamar. Dedico muito tempo em inventar brincadeiras e tentar algum tipo de comunicação com eles, já que não falo a língua makua. Ao se verem nas fotos ficam perplexos. É algo inexplicável a repercussão de nossas visitas. Sentem-se reconhecidos pela nossa simples presença. Lá não chegam autoridades civis, enfermeiros ou médicos. Nas curtas estradas que cortam as roças só costuma passar o carro da equipe missionária.
Daqui de nossa pobre Igreja-irmã, dirijo meu apelo à Igreja do Rio Grande do Sul: que pense, neste tempo de despertar da consciência missionária, no envio de novos missionários e missionárias, leigos/as, religiosos/as, de modo particular presbíteros que ousem percorrer caminhos da radicalidade evangélica.