Ano XXXVII – nº 1 – janeiro a março de 2009
Especial

Quaresma
CF 2009
Objetivos da CF 2009
“Suscitar o debate sobre a segurança pública, e contribuir para a promoção da cultura de paz nas pessoas, na família, na comunidade e na sociedade, a fim de que todos se empenhem efetivamente na construção da justiça social, que seja garantia de segurança pública.”
Objetivos específicos:
A Espiritualidade da Quaresma
“A Quaresma tem de servir para sepultar o homem velho, a mulher velha, e fazer de nós pessoas novas na Páscoa, criaturas novas. Deve corrigir nossos pecados pessoais e sociais, e recuperar a dignidade pessoal e dos irmãos excluídos.”
A liturgia quaresmal deve levar a uma espiritualidade de renovação de vida e do modo de ser do cristão, conforme os compromissos batismais e a santidade do amor em comunidade. Na Quaresma, período de 40 dias, somos convocados a intensificar nossas orações, a fazer penitência e a praticar obras de caridade. Este é o momento de mudança: mudar de vida e reconciliar-nos com Deus e com nossos irmãos. Entregamo-nos por inteiro ao Senhor: “Eu me entrego, Senhor, em tuas mãos, e espero pela tua salvação.” E imploramos o perdão, a misericórdia: “Senhor, eis aqui teu povo, que vem implorar teu perdão. É grande o nosso pecado, porém é maior o teu coração.”
Celebrar a Quaresma é cantar a dor pelo pecado do mundo, o pecado que crucifica os filhos e filhas de Deus, num canto sem glória, sem aleluia, sem flores... Mas que não se traduz em desânimo. Pelo contrário, anima-nos a lutar contra as forças que produzem a morte. Inspira-nos a anima-nos a assumirmos a cruz do Senhor e, junto com ele, construir um mundo novo, realizado na nova aliança de amor e vida para todos.
Rev. Missões, jan./fev. de 2009, p. 21 e 11)
Conversão e Fraternidade
Com o tema “Fraternidade e segurança pública”, a Campanha da Fraternidade de 2009 quer promover uma cultura da paz nas pessoas, na família, na comunidade e na sociedade, a fim de que todos se empenhem efetivamente na construção da justiça social, que seja garantia de segurança para todos. Com esse intuito, o Texto-Base aprofunda a temática principal, abordando os diversos aspectos das relações humanas e sociais, do conflito, do medo, da violência, da pirâmide social, da criminalidade, das políticas públicas, da garantia dos direitos humanos.
A Igreja no Brasil está convencida de que a conquista da paz não vem pela força das armas, mas por novos relacionamentos baseados na justiça, na misericórdia e no perdão: “Somente a partir dos critérios do Evangelho, é que se torna possível pensar verdadeiramente em segurança” (Texto-Base, 207).
Urge, portanto, um compromisso de todos na luta contra as causas da insegurança, por meio de ações educativas, da superação da lógica da vingança, da busca de um novo modelo penal, da articulação de redes sociais populares, e, sobretudo, da responsabilidade pessoal diante do problema da violência e da promoção da cultura da paz. “Sem a mudança do comportamento pessoal, não há como mudar a sociedade”, decreta o Texto-Base (288).
Numa perspectiva missionária, podemos logo observar que este desafio de construir uma cultura da paz é de tamanho mundial. Inúmeros são os conflitos, de diversa e tremenda intensidade, em todos os continentes, que têm como causa a fome, a miséria, a intolerância religiosa, o preconceito cultural, étnico, racial, os interesses econômicos, o tráfico de droga, de armas e de seres humanos. Inseguranças de ordem alimentar, familiar, social, econômica, política, cultural, ecológica, midiática, transpassam a vida de toda a humanidade, influindo de maneira trágica no cotidiano de muitas populações, particularmente da África e do Oriente Médio.
É dever das comunidades cristãs entender que a busca pelo bem comum não pode apenas se restringir ao círculo de uma sociedade civil nacional, mas deve ser estendida ao mundo inteiro. O Concílio Vaticano II lembra-nos que “cada grupo considerar as necessidades e legítimas aspirações dos outros grupos, e mesmo o bem comum de toda a família humana” (GS 26). Ora, o bem comum concretiza-se, quando indivíduos, famílias, grupos e sociedades perseguem e alcançam seus fins específicos. Será por este caminho que cada um irá se sentir participante e responsável pela construção do bem comum universal. Ao mesmo tempo, porém, este último representa o bem maior, o horizonte final, a ser perseguido continuamente, resultado não apenas da simples soma dos bens comuns particulares, mas do envolvimento de cada um no bem de todos. Para a Igreja no Brasil é de fundamental importância lembrar este critério, sob a pena da perda de sua catolicidade.
Por este motivo, a promoção da cultura da paz vai sempre junto à educação para a mundialidade, também no que diz respeito ao debate sobre segurança pública. As causas da insegurança, da violência e do medo têm raízes na atual “desordem mundial”. Não conseguiremos criar ilhas de felicidade no meio da tempestade. Estamos diante de uma terrível e fascinante alternativa: a humanidade ou nada, a fraternidade universal ou a ruína universal. Pensar só em nível nacional é um bom começo, mas pode se tornar pequeno demais. Para os cristãos o compromisso com todos os povos é ainda mais fundamental e incisivo, por decreto estatutário do Evangelho: todos os homens e mulheres são nossos irmãos em Jesus, filhos e filhas do mesmo Pai.
Informar-se sobre as diversas situações no mundo e sobre a Missão das Igrejas nos outros continentes; estender os laços da caridade até os confins da terra, por meio de nossas orações, denúncias, campanhas, projetos de solidariedade; enviar missionários e missionárias para outros países; acompanhar os passos deles e delas, para alimentar o intercâmbio entre as Igrejas. Tudo isto contribui para criar uma cultura da paz, mediante de uma nova ordem mundial, que se fundamente no engajamento contra toda forma de domínio sobre o outro e na prática assídua da fraternidade, como expressão de uma nova lógica de convivência universal.
Pe. Stefano Raschietti, SX
Quaresma e Missão
Já estamos vivendo o Tempo da Quaresma, que tradicionalmente é um tempo forte de conversão.
Necessariamente, conversão não é sinônimo de mudança de religião, mas de vida. Deixar o meu modo de viver, para assumir o modo de viver de Cristo, até poder dizer como São Paulo: “Para mim viver é Cristo” (Fl 1,21) ou “Vivo, mas já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).
Por isto, a Quaresma é também um tempo missionariamente forte: só posso anunciar Jesus aos outros, se me esforço cada dia para ficar mais parecido com Ele, se me converto diariamente a Ele. João Paulo II já dizia que “o verdadeiro missionário é o santo” (RMi 90), isto é, aquele que é amigo de Jesus e se esforça para parecer-se com Ele. Como também é verdade o contrário: o cristão que não leva a sério sua fé é um antimissionário. Já dizia uma música de D. Carlos Alberto Navarro: “Quem não te aceita, quem te rejeita, pode não crer, por ver cristãos que vivem mal.”
São bilhões de pessoas os habitantes da terra que ainda nem sequer sabem quem é Jesus. Eles têm o direito de conhecê-lo, de ter a chance de se converter a Ele. E, se a cada direito corresponde um dever, somos nós que temos o dever de fazer que Ele seja conhecido por estes bilhões de pessoas. E o primeiro passo para que isto aconteça é que nós mesmos estejamos convertidos e convencidos de que “não há outro nome pelo qual alcancemos a salvação” (At 4,12). Só o verdadeiro discípulo de Jesus Cristo poderá ser seu missionário.
Que este tempo quaresmal possa ser útil para que cada um de nós aprofunde sua conversão, sua amizade, seu assemelhar-se a Jesus Cristo, para que possamos construir uma Igreja cada vez mais missionária, com discípulos alegres, por serem missionários de Jesus, aqui e além de nossas fronteiras.
Pe. Edson Assunção Santos Ribeiro
Secretário Nacional da IAM