Ano XXXVII – nº 1 – janeiro a março de 2009

Aprofundando a Missão

 

Abraão, o primeiro missionário

Vitor Gropelli - nasafa@sercomtel.com.br


“O Senhor disse a Abraão: ‘Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai, e vai para a terra que eu te mostrar. Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos” (Gn 12,1-2).

Igreja sempre viu nesta passagem um referencial para sustentar sua tensão missionária. Enquanto se canta “sai da tua terra e vai onde te mostrarei”, a ideia missionária toma corpo e se transforma em opções pastorais e em dimensões evangelizadoras. Abraão foi, após Noé, a primeira testemunha do Deus verdadeiro entre os povos pagãos. Adão e Eva puseram-se contra Deus, mas os seus descendentes, Noé e Abraão, mostraram-se à altura do pedido de Deus. Pedido mais difícil do que aquele de não comer do fruto da árvore do bem e do mal.

Este “deixa tua terra” é explicitado pelo Evangelho com o fundamental “ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a todas as criaturas” (Mc 16,15).

Abraão não conhecia a meta nem as etapas que devia percorrer para alcançá-la. Mas, confiando no Senhor, foi. A Bíblia só diz que Abraão obedeceu e partiu. Sua experiência de Deus deve ter sido impressionante. Senão, Abraão não teria como justificar sua brusca partida e sustentá-la com teimosia. A troco de que deixar a própria terra? Seu grande desejo era ser pai, ter um herdeiro, e agora Deus vem lhe oferecer a chance de uma descendência mais numerosa do que as estrelas do céu e a areia do mar. Bastaria isso, para convencer Abraão a seguir um anúncio misterioso? Entre os vários deuses do mundo pagão, nenhum deles saberia satisfazer o profundo desejo que Abraão carregava dentro de si, o de ser pai. Então, somente o Senhor podia ser o verdadeiro Deus. Por que não segui-lo?

Deixar a pátria por um ideal
Nunca é fácil deixar a pátria, mesmo quando se trata de seguir Deus. Até gente idealista, como o missionário, sofre muito por causa da separação da família e do abandono das tradições ligadas à terra de origem. Além do mais, o missionário, como o imigrante, não deixa de ser um estrangeiro, sobretudo quando no país onde ele mora os cristãos são minoria. A situação do imigrante é lastimável. Ser erradicado da própria terra é um trauma que incide profundamente na vida da pessoa. Porém, quando se te um ideal, a dor é suportável. Todo sacrifício é pouco, quando a meta a ser alcançada é importante.

Cristo, a pátria do missionário
Seguindo Deus, Abraão deixou uma terra, mas não negou o seu passado nem a sua cultura. Também, não era um fugitivo. Ele perseguia o futuro que alcançaria, gerando um filho prometido por Deus. Quando, porém, um missionário deixa a própria pátria, não o faz para ter um futuro ou para ganhar um herdeiro. Suas razões são outras: seu objetivo é fazer que Jesus Cristo seja conhecido e amado. Sua pátria é Cristo, no qual acredita, mesmo sem promessas estimulantes. Seu anseio é evangelizar para que todos tenham vida em Jesus (cf Jo 10,10). O que será que o missionário vê em Cristo?

Algo profundo deve ter convencido o patriarca a partir. Podemos imaginar as perguntas dos amigos, as resistências dos parentes, os comentários dos vizinhos: “Você é um louco. Aqui tem tanto pasto, suas tendas estão bem plantadas, seu rebanho é grande e bonito! Você corre o risco de perder tudo, atirando-se nesta aventura”.

Objeções que todos nós ouvimos, quando chegou a hora de imitarmos Abraão. “Por que ir tão longe, se aqui precisamos tanto de gente como você?” É uma pergunta perigosa, porque mexe com os sentimentos singelos de uma pessoa, sobretudo quando ela é feita por gente bem intencionada, até por bispos e sacerdotes amigos. Mas Abraão partiu, e nós também.

Responder ao chamado: ato de fé
Partir é um pouco morrer, mas o mundo está cheio de gente que vive, porque alguém soube partir. Após muitos anos de vida missionária, sabemos que valeu a pena partir e que alguém viveu ou vive melhor graças aos missionários. A geografia da Igreja deve tudo aos missionários. Mesmo assim, muitos insistem em nos perguntar: qual é a razão do seu partir? A resposta é a da Carta aos Hebreus: “Foi pela fé que Abraão, obedecendo ao apelo divino, partiu para uma terra que devia receber como herança. E partiu, não sabendo para onde ia. Foi pela fé que ele habitou na terra prometida, como em terra estrangeira” (Hb 11,8-9).

O fato é que, quando Deus chama, é necessário partir. Mesmo partindo sem dar explicações, nós damos as razões da esperança que está em nós (cf lPd 3,15). Quem segue Cristo não perde nada. Só pode ganhar o cêntuplo e a vida eterna (cf Mt 19,27). O missionário não evangeliza em seu próprio nome e poder. Também, ele não representa uma potência estrangeira. É um enviado de Deus, e representa toda a Igreja. Está aqui a beleza e o mistério da vocação.

Todos os escolhidos formam a bem diversificada geografia missionária da Igreja universal. As famílias podem até assustar-se, quando se dão conta da irreversibilidade da vocação missionária de um membro seu, mas acabam colaborando com a graça do Senhor que entra em suas casas por meio de um chamado vocacional tão especial. Sim, “é pela fé” que elas aceitam a nossa vocação e nos deixam partir. A pátria e a diocese não sofrem nada, não perdem nada, mas as famílias dos missionários, sim.

Não nos consta se, e como, Abraão tenha falado aos outros povos de sua extraordinária experiência de fé no único Deus. Mas seria triste, se um missionário, que se diz cristão, não se lembrasse que deixou sua pátria por causa destas palavras: “Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). Somente o chamado de Deus justifica a vida do missionário.

Como será que a Virgem Maria reagiu, quando o filho Jesus lhe comunicou que ele tinha de partir?

Revista Mundo e Missão, março de 2009, p. 36 e 37.

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