“Sereis minhas testemunhas até os confins da terra”

“Sereis minhas testemunhas até os confins da terra”

Na celebração de abertura do 3º Congresso Missionário Nacional de Seminaristas, Dom Jaime Spengler, vice-presidente da CNBB, refletiu sobre a passagem bíblica escolhida como lema do congresso.

Por Dom Jaime Spengler*

“Sereis minhas testemunhas até os confins da terra” (At 1,8)

O lema escolhido para esse 3º Congresso Missionário Nacional de Seminaristas, nesse ano em que o Santo Padre está solicitando a toda Igreja uma atenção particular ao tema das Missões, somos convocados a ser missionários da esperança; testemunhas de uma Igreja em saída; missionários da vida num mundo de famintos, rejeitados, ignorados, desempregados e descartados; anunciadores do Evangelho do Reino inaugurado por Jesus de Nazaré, “ele que passou por entre nós fazendo o bem”; instrumentos de comunhão; luzeiros no caminho da santidade. Sim, “a missão é intrínseca à fé cristã” (DGAE, n. 115).

Aderir ao mandato do Senhor – ‘sereis minhas testemunhas’ – não é opcional para nós; é uma necessidade. É testemunhando a fé que crescemos em nossa vocação. A missão nos renova, revigora a fé, resgata nossas originárias motivações vocacionais, favorece o constituir-se de nossa identidade, nos impele a anunciar e testemunhar o amor do Senhor pelo ser humano, especialmente os mais fragilizados, pois “a missão é intrínseca à fé cristã” (DGAE, n. 115).

É nossa missão levar o Evangelho àqueles que não estão conosco, que não conhecem Jesus Cristo, que são indiferentes ou estão afastados. Por isso, não podemos nos satisfazer com uma pastoral de conservação, satisfeitos com as coisas como estão.

No cultivo e promoção da sinodalidade, construindo espaços de encontro, de discernimento e de oração haveremos de encontrar caminhos adequados à evangelização do mundo atual. Isso implica rever com coragem costumes, estilos, horários, linguagem, estruturas, formas, ministérios, práticas de formação humana, teológica e espiritual.

“Sereis minhas testemunhas até os confins da terra”.

O testemunho se sustenta na experiência vigorosa de encontro com o Senhor e na descoberta da alegre novidade do Evangelho. É aqui que se sustenta a nossa vida.  O texto do Evangelho que ouvimos nos fala da escolha e do envio dos primeiros discípulos. Vocação e missão estão intimamente conectadas: os chamou e enviou. O Senhor chama os que ele quer, e esses continuam a sua obra de anunciar o Reino de paz e justiça por ele inaugurado. É esse aspecto que constitui a Igreja. Ela é apostólica não só porque fundada sobre os apóstolos, mas porque constituída de apóstolos, de enviados “até os confins da terra”. A catolicidade se expressa também na abertura aos bons e maus, com ideias e culturas diversas, isto é, todos são os destinatários do Evangelho.

O próprio Jesus descreve em que consiste a missão: ir ao encontro das ovelhas perdidas e anunciar o Reino. A missão possui as características da itinerância, mobilidade, generosidade, gratuidade e anúncio da Palavra.

“Sereis minhas testemunhas até os confins da terra”.

“No caminho, anunciai…” A casa do apóstolo, do missionário, do ministro ordenado, do seminarista é a rua, os caminhos do mundo.  “Anunciai” não uma ideologia, mas uma mensagem de alegria, de fé e de esperança. Anunciamos uma pessoa: o Senhor. Ele Caminho, Verdade e Vida. Ele salva de todas as angústias.

Caros amigos,  a eficácia do nosso “ir pelo mundo” anunciando o Evangelho da alegria, como algo inerente à nossa fé, pressupõe a santidade pessoal, a união sempre mais consistente com Cristo, o deixar-se atingir pela necessidade de anunciar a Boa Nova, amando e usando de misericórdia para com todos que se sabem peregrinos, o senso de pertença a um presbitério e de corresponsabilidade por toda a Igreja na sua missão de anunciar o Evangelho até os confins da terra. Quem se dispõe ao serviço do Evangelho não pode não ser uma pessoa do Evangelho.

Nesse caminho, nós somos os primeiros a ser evangelizados. Sim, precisamos nos deixar ser atingidos e moldados pelo Evangelho. Precisamos também nós, sempre e de novo, ser evangelizados, pois somos chamados a fazer nossos “os sentimentos de Cristo Jesus”. De nós é pedido que sejamos capazes de amar o povo com o coração novo, grande e puro, com um autêntico esquecimento de nós mesmos, com dedicação plena, contínua e fiel, vivendo de forma simples e casta.

Caríssimos, peçamos nesta celebração a graça necessária para nos deixar Evangelizar pelo próprio Senhor para podemos evangelizar; que sejamos, no mundo, testemunhas autênticas do Ressuscitado-Crucificado, anunciadores do seu Evangelho de vida, pois “conhecer Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (DAp, n.29). Sim, de fato, “a missão é intrínseca à fé cristã” (DGAE, n. 115).

* Bispo da Arquidiocese de Porto Alegre (RS) e vice-presidente da CNBB

Foto: Patryck Madeira

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