Roteiros homiléticos

 

 4º Domingo do Tempo Comum– 31/1/2010

 

1ª Leitura: Jr 1,4-5.17-19
Salmo: 71
2ª Leitura: 1Cor 13,4-13
Evangelho: Lc 4,21-30

 

Nossa homilia, hoje, inicia-se logo com a identificação do texto lido por Jesus na sinagoga de Cafarnaum. O trecho lido é do Profeta Isaías, (Is 61,1): “O Espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor me ungiu... para levar a Boa-Nova aos pobres, e proclamar o Ano da Graça do Senhor.” Jesus afirma: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir.” É afirmação corajosa e ousada. Este fato só se cumpriria quando o Messias viesse. Jesus, portanto, apresenta-se como o Messias. E o encanto de seu ensinamento dá testemunho de que ele é verdadeiro... Mas, infelizmente, os seus não creram nele, pois Jesus era conhecido de todos e humilde demais. E, assim, os nazarenos escandalizam-se com Jesus: “Não é este o filho de José?” Como pode alguém nosso, alguém tão do nosso meio, ser o Messias? Como pode Deus se manifestar por este, que cresceu e viveu entre nós? Santo de casa não faz milagre! Eles esperavam algo excepcional, alguma coisa fantástica, que impressionasse! Ainda não estavam preparados e abertos para discernir a Palavra e os sinais que O anunciavam entre eles. Como poderiam compreender que Deus não está longe, mas mais perto que poderiam imaginar.

O Profeta Jeremias faz a experiência de um Deus próximo e intimo. É o Senhor que ordena ao Profeta que anuncie e fale, que não tenha medo, ainda que seja rejeitado e incompreendido, principalmente pelos parentes: “Não tenhas medo, senão eu te farei tremer na presença deles. Eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze... Eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque estou contigo para defender-te!”

Nem sempre, apesar da confiança plena que o Senhor exige de seus enviados, a outra parte, os ouvintes têm essa confiança no Profeta, e rejeitam, não só a pessoa do enviado, mas principalmente a Palavra de Deus. Assim foi com Jeremias, e não poderia ser diferente com o Messias. Felizmente os estranhos creram no Senhor. Por mais rejeitado que se tenha sentido o Mestre, tanto mais foi escutado e aceito por quem não o conhecia desde a infância. Caso não sejamos abertos à Palavra, corremos o risco de perdê-la. É o que Jesus recorda aos nazarenos: a viúva pagã de Sarepta e o leproso Naamã, também ele pagão, foram mais abençoados que as viúvas e os leprosos de Israel, porque foram abertos... Os nazarenos sentiram-se ofendidos, porque Jesus insinuou que eles não tinham fé e não sabiam discernir nele Aquele que o Pai enviara... e terminam por expulsar Jesus de sua cidade. É dramático: a falta de fé fez os nazarenos expulsarem o Messias, o Enviado de Deus. A falta de fé e discernimento, a cegueira do coração, a dureza e o fechamento para as novidades de Deus, podem fazer o mesmo conosco: expulsar do coração e da vida aqueles que nos trazem a Palavra do Senhor e a sua vontade a nosso respeito.

“Mas, por sua vez, aqueles que são testemunhas do Senhor e ministros do Evangelho devem estar preparados para a possibilidade de serem rejeitados. Somente os falsos pregadores, os malditos vendedores do Evangelho, os missionários de televisão, é que pregam uma adesão a Jesus fácil e que resolve nossos problemas. Na verdade, seguir o Cristo amadurece-nos e faz-nos, muitas vezes, enfrentar problemas e contradições. Qualquer um que queira colocar-se a serviço do Senhor deve preparar-se para tal contradição: “Meu filho, se te ofereceres para servir o Senhor, prepara-te para a prova. Endireita teu coração e sê constante... Tudo o que te acontecer, aceita-o, e nas vicissitudes que te humilharem, sê paciente” (Eclo 2,1.4). Como Jesus e os profetas que vieram antes dele, o serviço e a fidelidade ao Evangelho colocam-nos em dificuldades e provações! É a dor do Reino de Deus!” (D. Henrique Soares).

A escuta da Palavra é o ensinamento que espera uma resposta. O ensinamento tem, portanto, uma estrutura dialogal, pela sua própria natureza. Pode-se aceitar, rechaçar ou discutir o ensinamento, mas é obrigatório dialogar com ele. Quando se trata do ensinamento evangélico e cristão, não cabe outra resposta que a acolhida. Uma acolhida que é primeiramente aceitação do ensinamento recebido, porque é ensinamento de Deus. Uma acolhida que leva a um pequeno estupor, porque se trata de ensinamento novo, que não se escuta dos outros mestres. Uma acolhida que comporta algo de temor reverencial, porque se trata de acolher o mistério de Deus em nossas vidas tão impregnadas de matéria e de pensamentos terrenos. Uma acolhida que, sem dúvida, leva a marca da vitória nas coisas importantes, o sentido da vida e da morte, a realidade do além, o amor a Deus e ao próximo como essência da existência. Uma acolhida, finalmente, que não pode calar-se, mas conduz à difusão do ensinamento apreendido, porque não podemos calar o que temos visto e ouvido.

O Apóstolo Paulo não fala de um amor-sentimento, amor-simpatia, amor-amizade, mas do amor-caridade (ágape), o amor solidariedade de Deus. Solidariedade, como aquela de Cristo, que nos amou primeiro e amou-nos até o fim! É este amor solidariedade que nasce da raiz do amor a Deus, da abertura para Deus, da intimidade com Deus, que dá sentido a todas as coisas. E o amor a Deus, que desabrocha no amor aos irmãos, é concreto, tem de ser concreto: pode ser visto na paciência, na benignidade, na generosidade, na humildade, na gratuidade, na mansidão, na retidão, na verdade...

No mercado das palavras hoje existente, não é fácil encontrar uma palavra viva e vivificadora. Quantas palavras, quantos ensinamentos chegam hoje ao ouvido das pessoas, dos cristãos? Milhões! Entre todos esses milhões de palavras, onde está a Palavra que dá vida e alimenta a alma nestes dias? O mestre cristão – sacerdote, pai de família, catequista... –, atualizando o ensinamento de Jesus Cristo, deve dizer palavras vivas, palavras com força de eternidade, que não passem, mas que perdurem e deem sentido e sirvam de crisol para todos os milhões de outras palavras escutadas. Diante desta realidade tão estupenda, sente-se a tentação de perguntar por que às vezes são tão inimigas as religiões, e as homilias falam tantas coisas, menos da Palavra viva? Por que, sendo viva, não consegue vivificar o coração do pregador cristão e do ouvinte? Algo está acontecendo que faz da Palavra viva e eficaz uma palavra estéril e morta; ou, pelo menos, sem garra ou impulso vital e transformador.

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