Roteiros homiléticos

 

 

9° Domingo do Tempo Comum – 30/5/2010

Solenidade da Santíssima Trindade

1°Leitura: PR 8,22-31
Salmo: Sl 8
2ª Leitura: Rm 5,1-5
Evangelho: Jo 16,12-15

O mistério da Santíssima Trindade é de difícil compreensão, justamente por ser um mistério. Sua presença se revela na criação, e, para percebê-la, basta meditar sobre algumas situações na qual ela se revela. Tudo nasce do coração da Trindade.

Na Trindade, cada uma das pessoas divinas, necessita das outras, para ser ela mesma. Se, por hipótese absurda, o Pai, deixasse, por um momento, de se dar ao Filho, não só não existiria o Filho, como deixaria de existir o Pai. A própria relação, que é o Espírito Santo, não subsistiria, separando as pessoas. Jesus definiu isto de modo simples, na sua oração ao Pai: “Tudo o que meu é Teu, e tudo o que é teu é meu” (Jo 17,10). Por outras palavras: ninguém vive só, nenhuma das pessoas vive para si mesmo.

Na Trindade, cada pessoa divina é quem é, precisamente no ato próprio de se dar às outras! O Pai é tanto mais Pai, quanto mais faz o Filho ser e crescer. O Filho é tanto mais Filho, quanto mais ama e “reconhece o Pai”. E o Pai e o Filho reconhecem-se precisamente no Amor, com o qual se nos dão, por meio do Espírito Santo. Quer dizer: na Trindade, cada pessoa divina vive das outras, com as outras, pelas outras e para as outras.

Entretanto, nenhum argumento é suficiente para explicar as “coisas de Deus”, se não tivermos fé. Nem mesmo grandes teólogos, com suas divagações sobre a Trindade, conseguiram dar clareza e entendimento ao assunto. Não podemos prescindir da fé, embora Einstein disse que “a ciência sem religião é manca, e a religião sem a ciência é coxa”. Mesmo com toda ciência, ainda não sabemos mais do que dez por cento em todas as áreas, inclusive no campo religioso e teológico. Esta afirmação quer nos mostrar que a fé não pode ultrapassar a razão, ou seja, deve possuir certa racionalidade. Caso contrário, erros, enganos e injustiças serão cometidos por conta de uma fé “cega”.

Mas o mistério transcende nossa compreensão lógica. Na passagem narrada pela primeira leitura, percebemos que, desde os primórdios da Criação, Deus se manifesta, deixando a sua marca, concebendo-nos conforme sua imagem e semelhança. Os traços que caracterizam esta semelhança não são de natureza física ou biológica, pois Deus imprimiu em nós o que Ele é: Amor.

Ainda, assim toda vez que conceituamos Deus, nós O limitamos, tratando-se apenas de atributo humano. Isto significa que o ser humano tem apenas uma vaga compreensão de Deus. Isaac Newton afirma: “O que conhecemos é uma gota, e o que não conhecemos é um oceano inteiro.” Como podemos então divagar sobre a Santíssima Trindade? É simplesmente impossível, incompreensível!

Ao contemplarmos as maravilhas criadas por Deus, vamos aos poucos descobrindo a presença, a marca, o carimbo da Trindade. Vejamos alguns exemplos:

A menor partícula existente no universo, o átomo, é formado por nêutron, próton e elétron. São três elementos distintos, cada qual tem sua função, porém, partes do mesmo átomo. Na falta de um deles, o todo não existe.

Considerando a menor parte de um ser vivo, a célula, constituída de membrana, citoplasma e núcleo, novamente observamos três partes fundamentais do seu funcionamento, e consequentemente do organismo todo.

Com relação ao psiquismo, podemos afirmar que todo ser humano normal vive orientado pela inteligência, vontade e memória. Sem um deles, o homem não vive consciente de si.

Sobre a própria Santíssima Trindade, Deus-Pai é quem pensa e cria; Deus filho é quem ama e redime; e Deus Espírito Santo é quem renova e vivifica. O sinal-da-cruz que o cristão católico faz traduz esta realidade.

Ainda podemos citar os elementos formadores da família: pai, mãe e filhos. Neste paralelo, incluímos as necessidades básicas para a sobrevivência do ser humano: alimentos, água e oxigênio. Nossa realidade temporal caracteriza-se pelo presente, passado e futuro, assim como a nossa vida passa por três fases: uterina, terrena e eterna.
Enfim, a presença da Trindade encontra-se estampada nos detalhes da Criação, desde o início dos tempos. Alguns teólogos defendem erroneamente a existência de três “eras” diferentes: o período do Antigo Testamento, que teria sido a “Era do Pai”; o Novo Testamento corresponderia à “Era do Filho”; e da morte de Jesus aos dias atuais viveríamos a “Era do Espírito Santo”. Contudo, temos três funções em cada Pessoa da Trindade, e não eras.

O Pai, o Filho e o Espírito Santo são três pessoas em um único Deus, cada qual, porém, com a sua função. Um exemplo clássico para ilustrar esta realidade é o de uma vela que contém três pavios. Cada pavio tem sua chama; todavia, todos eles são supridos pela mesma cera. Assim também, a Santíssima Trindade se alimenta de uma mesma substância, que mantém a inter-relação das três pessoas: o Amor.

A Trindade é amor comunhão, e não, amor dominação.

Sempre que nos colocamos em posição superior, de comando, de ordem, de dominação sobre os outros, estamos pecando contra a Trindade. Ao passo que, ao privilegiarmos o amor, a comunhão e o respeito conosco e com os outros, aí sim estaremos dignificando cada reflexo do Pai, Filho e Espírito Santo em nós e à nossa volta.


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