Roteiros homiléticos
17° Domingo do Tempo Comum – 25/7/2010
“Se o meu Senhor não levar a mal, falarei”
1ª Leitura: Gn 18,20-32
2ª Leitura: Col 2,12-14
Evangelho: Lc 11,1-13
O tema fundamental que a liturgia nos convida a refletir neste domingo é o tema da oração. Ao colocar diante dos nossos olhos os exemplos de Abraão e de Jesus, a Palavra de Deus mostra-nos a importância da oração, e ensina-nos a atitude que os crentes devem assumir no seu diálogo com Deus.
“Do povo da aliança, Deus espera a prática da justiça e do direito, que realizam o projeto de Deus. Esse projeto provoca a destruição da cidade injusta. A intercessão de Abraão mostra que o justo se compadece do povo da cidade. Mas o texto levanta perguntas: quantos justos são necessários, para que uma cidade não seja destruída pela injustiça? Até onde Deus está disposto a agir com misericórdia? O texto não responde. O Novo Testamento mostra que Deus, na sua misericórdia, está disposto a salvar não só uma cidade, mas a humanidade toda, e por causa de um só justo: Jesus Cristo” (Bíblia da Paulus).
Abraão, o servo de Deus preocupado com o povo. Ele insiste que os pecados não sejam causa da destruição de Sodoma e Gomorra, apesar de que eles clamem: “O clamor que chegou até Mim…” Trata-se dum antropomorfismo que empresta grande colorido e vivacidade ao relato. Esta maneira de falar de Deus à maneira humana põe aqui em evidência a justiça divina, que não pune sem o pleno conhecimento da causa.
“Cinquenta… quarenta e cinco… quarenta… trinta… vinte… dez”
Chamamos a atenção para a mentalidade de responsabilidade coletiva corrente em Israel, que está na base do episódio, segundo o qual também os inocentes têm de sofrer o castigo, juntamente com os culpados: para não haver castigo era questão de um número relativo de inocentes. O relato deixa ver que Deus não castiga o inocente junto com o pecador, como pensava Abraão; esta verdade da responsabilidade individual é bem apresentada nos Profetas (cf. Jr 31,29-30; Ez 18,1-32). De qualquer modo, não deixa de ser enternecedor este diálogo, esta oração de intercessão ao Senhor, toda repassada de confiança e santo temor, perseverança, humildade e audácia santa. Se Deus não precisa das nossas insistências para nos atender, nós precisamos de nos colocar no nosso lugar de pedintes, para nos dispormos, com a nossa impertinência, a receber os dons que Deus tem para nos dar (cf. a parábola do “amigo impertinente”, do Evangelho de hoje).
“Deus fez que, unidos a Cristo, voltásseis à vida
e perdoou todas as faltas”
“Paulo continua aplicando o hino à vida dos colossenses. Se Cristo é a Plenitude de Deus (1,19), nele se encontra tudo o que é preciso para nos relacionarmos com Deus. Cristo está acima de qualquer poder visível ou invisível. O Batismo, que substituiu a circuncisão, leva o cristão a participar da morte e ressurreição de Cristo, isto é, a passar da morte para vida em Cristo. Os vv. 13-15 retomam outro hino que celebra a vitória: pela morte de Cristo na cruz, Deus anulou o registro dos pecados, e venceu todas as potências que poderiam escravizar os homens. Portanto os cristãos agora são livres, e não devem se submeter a nada ou a ninguém que não seja Cristo” (Bíblia da Paulus).
O hino em questão é a solene liturgia do perdão dos pecados e a vida nova em Cristo. Porque fomos batizados, a morte já não tem poder sobre nós. O Batismo uniu-nos intrinsecamente a Cristo, ou seja, ele já morreu e ressuscitou; o mesmo ocorre com o batizado, que já morreu e vive em Cristo, ainda que invisivelmente. No Batismo e pela fé no poder de Deus ressuscitamos, porque estávamos mortos pelos pecados, mas Deus nos fez voltar à vida plena em Cristo. A dívida que tínhamos com Deus foi perdoada, e a duplicata foi rasgada na cruz por seu Filho Jesus Cristo.
Como é grande a alegria de quem recebe o perdão de uma dívida grande. Imagine então como deve ser a nossa alegria, pois todos os nossos pecados foram apagados.
“Pedi e dar-se-vos-á”
“Os mestres costumavam ensinar os discípulos a rezar, transmitindo o resumo da própria mensagem. O Pai-Nosso traz o espírito e o conteúdo fundamental de toda oração cristã. Esta oração deve ser feita na intimidade filial com Deus (Pai), apresentando-lhe os pedidos mais importantes: que o Pai seja reconhecido por todos (nome); que sua justiça e amor se manifestem (Reino); que, na vida de cada dia, ele nos dê vida plena (pão de amanhã); que ele nos perdoe como nós repartimos o perdão; que ele não nos deixe abandonar o caminho de Jesus (tentação). O Evangelho insiste na oração perseverante e confiante. Se os homens são capazes de atender ao pedido de amigos e filhos, quanto mais o Pai! Ele nada recusará. Pelo contrário, dará o Espírito Santo, isto é, a força de Deus que leva o homem a viver conforme a vida de Jesus Cristo” (Bíblia da Paulus).
Jesus disse estas palavras; no entanto, muitos pedem e não recebem, muitos buscam e não acham, e muitos batem e a eles não se abre. Por que será?
Muitos confundem o entendimento nesta área, que leva a frustrações e descrédito a muitos nas palavras de Cristo. Precisamos distinguir o que é pedido e o que é ordem. Certa vez ouvi um pastor dizer: “Eu te ordeno, Senhor.” Creio que ordens não são atendidas, mesmo em nome de Jesus Cristo.
Os pedidos não atendidos são por causa da nossa pouca fé; “pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: passa daqui para acolá, e ele há de passar; e nada vos será impossível” (Mt 17,20). É necessário agradecer primeiro, e depois pedir; mas terminar a prece, dizendo que seja feita a vontade de Deus: “Sempre dando graças por tudo a Deus, o Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef. 5,20); “e tudo o que fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus-Pai” (Cl 3,17).
O problema está em que pedimos mal, para apenas satisfazer os nossos próprios interesses egoístas: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites” (Tg 4,3). Temos de ter muita confiança em Deus, que, se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouvirá. Como eu posso saber a sua vontade, para que as minhas orações sejam atendidas? Devemos acrescentar após a petição: seja feito segundo a tua vontade. Jesus mesmo dá a nós a resposta sobre a questão: “Buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt. 6,33).
Portanto não nos inquietemos, trabalhemos pelo reino de Deus, e tudo virá como graça.
Vejamos nestas seguintes petições quais são centradas em nós e quais, em Deus, seu reino, sua justiça; quais os gentios procuram, quais se destinam ao nosso conforto pessoal, gasto e deleite. Proteção na viagem, sucesso nos negócios, sede por santificação, os melhores juros do mercado, saúde, oportunidades para confrontar alguém com o Evangelho, entendimento da Palavra de Deus, reconhecimento de pecados, uma boa temporada na praia, um tempo feliz com os visitantes, santificar o nome de Deus, evidenciar a verdade e a justiça, entender a Palavra de Deus, etc. Percebeu as diferenças?
Precisamos nos entregar totalmente à sua vontade, aos seus planos, e tudo o mais será graça. Como nos diz a jaculatória: “Indo e vindo, trevas e luz, tudo é graça, Deus nos conduz.”