Roteiros homiléticos
4º DOMINGO DA QUARESMA – 14/3/2010
Temos um Pai Misericordioso– 14/3/2010
1ª Leitura: Js 5,9a.10-12
Salmo 33
2ª Leitura: 2Cor 5,17-21
Evangelho: Lc 15,11-32
A parábola que Jesus conta à multidão é uma radiografia de todo o processo da conversão. Temos a paternidade divina e a fraternidade humana – “um homem tinha dois filhos” – no primeiro fato da estória contada por Jesus. Assim, entendemos que somos irmãos do mesmo Pai Eterno, e, portanto, o esquema familiar consiste na fraternidade humana, redimidos por Cristo. Até então a relação era perfeita.
Mas o filho menor, em nome do seu livre arbítrio, pediu sua herança ao pai. Isto significa ruptura com o pai e com os irmãos. Em outras palavras, poderíamos dizer que ele matou o pai, pois a herança geralmente só se recebe, quando o pai ou a mãe já faleceram. Isto se chama pecado, dizer não à fraternidade e à paternidade divina.
Interessante perceber que o pai repartiu os bens, sem dizer uma única palavra, e o texto não diz que ele ficou triste. Ele respeitou a liberdade de o filho o rejeitar e desprezar a sua autoridade. A conduta transigente do pai expressa de algum modo a lógica de liberdade com a qual Deus governa os homens; não quer escravos, mas sim filhos.
Em seguida se afasta e vai para um país distante. Traduzido, podemos dizer que a sua atitude de “matar o pai” é o pecado de afastamento de Deus e tornar-se o próprio deus. Aqui nós temos um duplo movimento, resultado do pecado: dar as costas a Deus e voltar-se para as criaturas, entregando-se ao desfrute desordenado das coisas de Deus, contra Deus mesmo. Porque Deus criou o ser humano para ser amado e as coisas para serem usadas, mas infelizmente nós invertemos essa ordem. Amamos as coisas e usamos as pessoas. Isto é próprio da economia que visa apenas o lucro.
Os valores ruíram todos por causa do pecado. Ele esbanjou tudo na devassidão, que hoje seria o hedonismo e a droga, para não falar do consumo. O pecado traz como triste consequência a quebra e a perda dos valores espirituais e humanos. O homem retrocede a atitudes de animalidade.
Em segundo momento, vem a angústia, a dor de coração. Quando abusamos da liberdade, criamos muitas carências e privações. É a herança dos filhos do pecado. Ele provoca estados negativos de vazio, e a penúria manifesta-se em reação aos valores perdidos, e só então as recordações do passado saudável retomam o desejo dos valores deixados pelo orgulho e autossuficiência.
A busca de alternativas, como trabalhar com os porcos – símbolo de imundície e desgraça –, significa alienação, porque não busca Deus. O estado de angústia produzido pelo pecado faz que a soberba das pessoas as leve a procurar outros deuses e soluções que as afundam cada vez mais no pecado e na dor. Também significa que ele quis acalmar sua fome nas drogas, isto é, deixou-se escravizar. O pecado escraviza: “Aquele que peca se torna escravo do pecado” (Jo 8,34).
“Mas ninguém as dava...” O pecado isola, traz o vazio e a solidão. A conseqüência disso é que a pessoa se sente nada, o vazio interior é a verdadeira fome que mata a graça divina. Por mais que queiramos procurar preenchimento interior com as coisas do mundo, haveremos de nos sentir vazios. Mesmo tendo o mundo sob nossos pés, ainda assim seremos insatisfeitos, se não tivermos valores divinos e humanos. A fome e sede interior só Deus pode matar.
Em terceiro lugar temos o arrependimento e a volta, como sinal de conversão: “Então caiu em si...” Da angústia à reflexão, e da reflexão a descobrir sua verdadeira identidade como filho de Deus. Por meio das experiências negativas derivadas do pecado, o Pai Misericordioso supera a situação, e extrai dela sempre um bem maior. Neste caso, foi preparando a volta do filho rebelde.
Jesus quer-nos dizer que a conversão de um só homem a Deus é algo muito grande e valioso. Podemos dizer em uma linguagem figurada que esta conversão implica “uma festa no céu”. Há regozijo espiritual por uma só conversão. Isto ilumina-nos como a bondade e o amor de Deus podem manifestar-se no modo humano de alegria, como a do pai do filho pródigo.
Há festa na terra, considerando que também nós nos alegramos pelo fato de uma pessoa recuperar a paz espiritual e voltar ao bom caminho.
Às vezes duvidamos dos bons propósitos de uma pessoa que queira iniciar seu caminho de retorno ao Senhor. Entretanto, embora nos custe acreditar, deveríamos nos alegrar e sentir o regozijo de quem recupera um amigo, de acrescentar mais um lugar à mesa, para compartilhar o pão. É o momento de animar o irmão, de comprometê-lo mais, de apoiá-lo e caminhar com ele.
Às vezes pensamos que esta parábola não é para nós, mas foi dita para todos. Cada um de nós deve se deixar encontrar pelo Bom Pastor, deixar-se recolher por ele, para que ele nos leve ao redil, e cada um de nós possa, com sua conversão a Deus, ser causa de festa no céu...