Roteiros homiléticos

 

 Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus – Ano Novo, Perspectivas Renovadas – 1°/1/2010

 

“Indo e vindo, trevas e luz, tudo é graça, Deus nos conduz...”

1ª Leitura: Nm 6,22-27
Salmo: 67
2ª Leitura: Gl 4,4-7
Evangelho: Lc 2,16-21

 

Todo início de ano, surgem propósitos novos e renovação da esperança, sem falar das perspectivas que anima todos, cristãos ou de quem não pratica nenhuma religião. Além das festas e desejos de feliz ano novo, poucos recordam a necessidade de avaliar o seu próprio comportamento, para viver melhor, não somente no aspecto profissional. Na realização econômica, geralmente adquirem um esforço renovado e, às vezes, desumano, para alcançar o patamar almejado exigido pela sociedade, que dita parâmetros nem sempre éticos. Mas é necessário investir também no fator humano, espiritual e social para ser feliz.

Para caminhar abençoado e no caminho da realização e da paz com os seus e consigo mesmo, é necessário olhar para trás, para frente, para dentro, para os lados, para baixo e para cima. Vamos refletir em cada uma delas.

Para trás
Muitas pessoas vivem o saudosismo, olhando o passado com desejo de voltar no tempo, ou com a tendência de elogiar o passado como a melhor época que existiu. Olhar para traz significa avaliar e analisar nossa conduta. Observar os acertos e corrigir os erros, para que o futuro seja mais susceptível ao sucesso humano, familiar e profissional. Pensar no passado é aprender com a mestra de nossa vida: a história de cada um.

É verdade que todos erramos e pecados cada dia que passa. Mas é preciso olhar para os nossos defeitos, não nos lamentando por termos errado, antes, para corrigi-los e não repeti-los. A sabedoria consiste em melhorar sempre: adquirindo-se virtudes cada ano, no progresso de sete anos se adquirirão sete virtudes. A perfeição ocorrerá, e não será de se estranhar.

Olhar o passado não nos deve preocupar nem amedrontar. Não devemos nos condenar e obstinar na lamentação. Se tivesse feito assim ou assado, quem sabe? Para crescer interiormente e sentir-se realizado consigo mesmo, urge fazer uma boa confissão e perdoar-se, acolher-se e amar-se muito, pois Deus nos ama tanto, que nos enviou o seu único Filho, para nascer entre nós. Ele nos revelou como somos amados e queridos por Deus. Não importa muito o nosso passado, porque Deus é um Deus do presente. Jesus pergunta à mulher adúltera: “Ninguém te condenou?” Ela respondeu que não. Jesus lhe diz: “Nem eu te condeno, vai e não peques mais” (Jo 8). Se o próprio Jesus veio não para condenar, mas para salvar, quem somos nós para não nos perdoar. Só somos capazes de acreditar no perdão de alguém ou do próprio Deus, se nos perdoamos a nós mesmos. Os erros e acertos do passado devem servir para viver melhor o presente e o futuro. (os sete hojes de Lucas)

Para frente
Muitas pessoas vivem em função do futuro, esquecendo-se de viver os momentos com todas as oportunidades e situações únicas. Pensar e olhar para frente significa basicamente pautar um objetivo a alcançar. Organizar-se e planejar é o meio para viver sem sobressaltos, seja consigo mesmo, com a família, ou profissionalmente. Olhar para frente conduz-nos na estrada da vida e leva-nos ao objetivo almejado, sem maiores problemas. Deus propõe-nos o caminho da perfeição e da salvação. Trilhemos o caminho da vida, planejando a conduta familiar, profissional, para que não tenhamos surpresas durante o ano. Tendo olhado para traz, feito a correção de rumo, agora podemos olhar para frente, com a certeza de estarmos no caminho certo que nos levará ao futuro, que não é apenas um sonho, mas é vivido e organizado no presente, é ele que nos dá a garantia de não sermos pegos de surpresa no futuro, mas também nos dá a tranquilidade de saber saborear bem o presente de Deus: o presente, só ele é de fato nosso. O passado pertence à história, o futuro pertence a Deus e o presente pertence a nós. Porém é no presente bem vivido que preparamos o futuro feliz, e então não haverá passado a lamentar.

Olhando para frente sabemos por onde andar. Sabemos que podemos chegar ao destino planejado, sem atropelos e sustos. Deus propõe-nos a segurança da caminhada com a sua presença, garantindo-nos sua Palavra, sua bênção, como ouvimos na 1ª Leitura: Javéfalou a Moisés: “Diga a Aarão e a seus filhos que vocês abençoarão os filhos de Israelassim: ‘Javé o abençoe e guarde! Javé lhe mostre seu rostobrilhante e tenhapiedade de você! Javé lhe mostre seu rosto e lhe conceda a paz!’Assim eles invocarão o meu nomesobre os filhos de Israel, e eu os abençoarei’” (Nm 6,22-27). Por isto convém olhar sempre para frente, na fé, na esperança e caridade. As pessoas que vivem a fé, a sua religião, certamente estão mais propensas a olhar para frente sem desviar-se da estrada que nos leva à felicidade conosco mesmos e com os irmãos.

Seguir em frente, não obstante as dificuldades e desafios, reforça na bênção de Deus, pois Ele nos concede a graça de sua face resplandecente e nos guarda sob seu olhar. Portanto não tenhamos medo. Somente os corajosos e destemidos superam os obstáculos e os problemas da vida, porque crêem na bênção prometida por Deus: “Não temas, estou contigo.”

Para dentro
Uma das maiores dificuldades que temos, é fazer o caminho mais curto, porém mais difícil, o da razão até o coração, ou seja, até a alma, vida interior. Santo Agostinho dizia: “Deus nos é mais íntimo que o nosso próprio íntimo.” No âmago de cada pessoa mora Deus. Somos templos do Espírito Santo, segundo a afirmação de São Paulo. Olhar para interior é descobrir que Deus nos revela a nós mesmos. Ao contrário do que muita gente afirma, conhecer-se não é só descobrir Deus dentro de si. Também o fato notável é que nos descobrimos a nós mesmos. Conhecemo-nos à medida que somos capazes de meditar, ler, pensar sobre nós mesmos. Ler nossas atitudes, observar reações negativas e positivas, estar atentos aos pensamentos e à imaginação, que pode ser “a louca da casa”, como afirma Santa Teresa d’Ávila. Bem pensar e imaginar, para bem viver.

Não seremos serenos e tranquilos como Maria, que guardava tudo no silêncio do coração, se nos faltam a reflexão e a oração. A oração abre-nos os canais das graças que Deus nos oferece e que já estão dentro de nós. Basta deixar florescer na alma as potencialidades que o Senhor já revelou pela fé e colocou no íntimo de cada pessoa. O silêncio é a pedra preciosa que a alma procura, e não descansa, enquanto não a encontra, para saciar a sede da beleza do encontro da criatura com o seu Criador. No silêncio ocorre o abraço da paz de Deus e com a humanidade. Quem vive uma vida interior é capaz de ter paz de espírito e, então, evitará muitos conflitos, e a guerra só existirá nos livros de história.

Entre nós encontramos gente que precisa de muita atenção e amor. Muitos estão sempre atentos e serviçais para com os outros, para que se sintam bem e feliz. Mas a pessoa que está em você? Como a tem tratado? (1Rs 19).

Para os lados
Cristo morreu de braços abertos e em sentido horizontal. A simbologia é bastante significativa. Deus amou tanto o mundo, que mesmo morrendo, ainda quer abraçar e acolher todos que nele confiam. Veio para servir, e não para ser servido (Mc 10,45). Olhar para os lados significa basicamente ser crucificado para o egoísmo e para o comodismo. Olhando para o irmão estamos enxergando a Deus. Para chegar a Deus é necessário passar pelo irmão que está próximo. E passar pelo humano, para chegar a Deus, isso é condição para ser cristão. Os braços abertos de Cristo na cruz fazem-nos abrir os nossos, para ajudar e considerar toda pessoa como irmão e irmã que poderá crescer na dignidade, na fé e na esperança, quando, de fato, somos movidos pela espiritualidade de uma vida avaliada (olhando para trás), projetada no caminho da salvação (olhando para frente) e uma vida interior equilibrada (olhando para dentro). Isto nos dá a sensação de que Cristo está em cada pessoa que nos circunda. Porque a bênção de Deus é oferecida a todos, sem distinção, e, olhando para os lados, podemos ser uma bênção para os irmãos.

A virtude teológica da caridade solidifica-se e torna-se visível na abertura do coração para servir e doar-se ao irmão instigado pela fé que arde no coração, brilha nos olhos e cintila pelas mãos. Nada é tão verdadeiro e real do que a satisfação da prática do bem. O que realiza as pessoas voluntárias são justamente a fé e a caridade tornadas visíveis nos sorrisos das pessoas. Todo cristão é chamado a ser caridade, pois é seguidor do maior voluntário da história, Jesus Cristo. Olhar para os lados, nada mais é que ser feliz, porque o seremos, amando e servindo, assim o Mestre já nos ensinou (1Jo 3,4), na solidariedade.

Para baixo
A humildade é uma virtude que abre todas as portas, sejam elas espirituais, humanas ou sociais. Olhar para baixo recorda os monges que andavam sempre cabisbaixos, em sinal de respeito e humildade diante de Deus e diante dos superiores. Isto não que dizer que devemos andar assim, apenas quer nos dizer que devemos observar por onde vamos andar, para não pisar em ninguém. Pisar no sentido de não prejudicar ou deixar alguém triste, chateado. Às vezes precisamos ter humildade, para sermos promotores da dignidade alheia, e sermos simples, para não ver só a nossa situação, mas considerarmos também as idéias e considerações dos outros, muitas vezes melhores do que a da gente.

Muita gente anda tão altiva, parecendo ser superior aos demais, porque tem curso superior, uma função ou um cargo de chefia. Usando muitas vezes tal condição para promover-se e humilhar as pessoas, como se fossem de segunda categoria ou como se não fossem gente. Aliás, às vezes tratam animais melhor do que as pessoas. Há aqueles que são de classes mais abastadas, que estão cheios de etiquetas e preconceitos e, olhando para as pessoas de classes menos abastadas, consideram-se no direito de tratá-las com desdém, usufruindo dos seus serviços, dos seus préstimos, como que fosse uma obrigação das classes menos abastadas.

Olhar para baixo, não é sinônimo de ser superior aos demais, mas é sinal de consideração pelos que têm funções diferentes ou de menos importância. Todos temos funções, profissões, classes, raças e religiões diferentes, mas somos todos humanos, filhos do mesmo Deus. Portanto somos todos iguais perante Deus, que não faz distinção de pessoas. Porque então nós fazemos distinção entre as pessoas? Não temos o direito de fazê-lo.

Olhar para cima
Olhar para cima é recordar que o limite da pessoa está na gravidade de sua finitude, que culmina sete palmos abaixo da terra. Buscar as coisas do alto é a proposta da vida infinita em plenitude daqueles que, como São Paulo, sabem da existência finita. Mas a sabedoria ensina que é em Deus, que habita as alturas, que encontramos vida em abundância (Jo 10,10).

Muita gente só se lembra da existência de Deus nos momentos difíceis da vida. Mas olhar para cima é sinônimo de confiança em Deus e reconhecimento de que tudo é graça e “tudo passa, só Deus basta”, como disse Santa Teresa d’Ávila. Para vivermos abençoados, necessariamente temos de, além da fé, ter capacidade de abrir-nos e deixar-nos amar por Deus, para que possa ser tudo em nós, como nos diz São Paulo: “Já não sou eu que vivo em mim, mas Cristo” (Gl 2,20).

Olhar para cima não nos tira os pés do chão, antes, os fixa mais ainda. Façamos como os Apóstolos: depois que Jesus subiu ao céu, desceram da montanha e começaram a sua Missão de levar o Evangelho da salvação, a todas as criaturas (Mc 16,15).

Indo e vindo, trevas e luz, tudo é graça, Deus conduz-nos, canta a jaculatória com sabedoria, pois é Deus que é o Senhor de nossa vida.

Portanto, neste ano, entreguemo-nos nas mãos de Deus, para que seja feita a sua vontade, pois estando em suas mãos, o que haveremos de temer? Confiança em Deus, humildade com os outros, fidelidade de consciência e empenho nos afazeres, eis a conduta de quem crê e age segundo a sua fé.

topo


© Site das Pontifícias Obras Missionárias do Brasil, todos os direitos reservados.