Roteiros homiléticos

 

 22º Domingo do Tempo Comum – 30/8/2009

 

1ª Leitura: Dt 4,1-2.6-8
2ª Leitura: Tg 1,17-18.21b-22.27
Evangelho: Mc 7,1-8.14-15.21-23

Antes de explorarmos a liturgia deste dia, precisamos refletir na situação em que nos encontramos atualmente. Estamos inseridos numa sociedade difusa, sendo assim, muitos se encontram perdidos no mundo em que vivem.
São infinitas as crenças religiosas, várias as concepções de modelos de família, inúmeras as mentalidades relacionadas ao prazer, ao ter, ao consumo. São muitas as teorias científicas, políticas e econômicas que dissertam sobre o mesmo tema, sem, no entanto, chegarem a um ponto comum. Na verdade, estamos mergulhados no caos, e, por que não dizer, o mundo aprecia a confusão. Ela está presente em tudo e em todos: na religião, na política, na educação, na sociedade, no trabalho, etc. Não que se condene o pluralismo; entretanto, é preciso saber aonde se quer chegar, que direção tomar, porque, para quem não sabe aonde ir, qualquer caminho serve.

A confusão interessa aos poderosos, porque, de certa forma, alienam a consciência, pois diante do caos podem manipular tranquilamente as pessoas. A opressão, a exploração, a enganação ocorre tanto no sentido econômico como no religioso.

E, se isto ocorre ainda hoje, no mundo moderno e “civilizado”, tanto mais ocorria em tempos passados. A 1ª Leitura narra a passagem da chegada do povo Judeu a Canaã, depois da saída do Egito e longa peregrinação pelo deserto. Josué, seu condutor, percebeu que seu povo estava confuso e, de certa forma, atraído pela religião dos cananeus, que não era nada exigente no sentido ético e moral. Praticavam a chamada “prostituição sagrada”. Nos templos, mulheres recebiam homens, que pagavam para adorar os deuses Baal e Astarte, por meio da prática de orgias sexuais. Em contrapartida, os deuses permitiam chuva em abundância para irrigação das terras cultivadas. Além das orgias, crianças especialmente os primogênitos, eram oferecidos em sacrifício ao deus Moloc.

Percebendo o interesse dos homens do seu povo pelas crenças cananéias, Josué promoveu uma assembléia, denominada Assembléia de Siguém. Lá comunicou a todos que ele e sua família continuariam adorando o Deus de Israel que os havia libertado da escravidão do Egito, que os havia acompanhado no deserto, que os amava e lhes concedia vida plena. Livre para fazer sua escolha, o povo decidiu pela mesma opção de seu líder, Josué.

Isto ocorre hoje, as opções de crenças são tentadoras, e a maioria das religiões não exige muito, nem ética nem moral de seus seguidores. Tudo é permitido, tudo é liberado, o que as torna mais atrativas e convenientes. A história repete-se, adorando-se deuses do ter, do poder e do prazer. Transforma-se a religião em mercado, e o mercado em religião. Prova disto é que basta sintonizar determinados canais de televisão, para nos depararmos com o “mercado da graça” Quanto mais se paga, supostamente mais graças se recebe. A pessoa vale pelo que possui, e não pelo que é.

Se Decartes vivesse hoje, certamente mudaria seu pensamento: de “penso, logo existo”, para “consumo, logo existo”.

Sem dúvida, José Saramago dá uma dimensão do deus mais adorado do mundo moderno: o mercado. As catedrais são os shoppings e os altares são as vitrines das lojas, diante das quais todos se detêm felizes, como num ato de contemplação. O céu é poder pagar à vista, o purgatório é pagar em crediário, e o inferno é não poder comprar. As agências publicitárias desempenham o papel dos missionários do deus “mercado”, confundindo a cabeça da população, inegavelmente, cada vez mais consumista.

Infelizmente esta é a realidade que se vive hoje. O questionamento que devemos fazer é: qual é o Deus que você quer verdadeiramente adorar?

No Evangelho, Jesus deixa seus Apóstolos livres para abandoná-lo, uma vez que percebeu a desistência e rejeição de muitos diante da Palavra de Deus, que é dura e exigente para os que os desejam assumir o verdadeiro sentido da existência humana. Ela nos mostra quão efêmeras são nossas vidas neste mundo; nada levaremos, ao partir, pelo contrario, só o amor e a essência de nossas almas seguirão conosco. A colocação de Pedro traduz nossa única opção: “A quem iremos Senhor, se só tu tens palavras de Espírito e Vida?” Podemos escolher andar pelos caminhos tortuosos do mundo, que nos faz perder-nos: mas o que realmente sobra no final?

A 2ª Leitura merece reflexão. O texto em que São Paulo fala aos Efésios, e também a nós, dá importância ao fato de os casais manterem uma relação sempre no temor de Cristo. O temor e o amor devem existir entre marido e mulher, porém, com reciprocidade e sem dominação.

Paulo, ao contrário do que parece, não adota postura machista ao dizer: “mulheres, sejam submissas aos seus maridos.” Para melhor entendimento, é necessário explicar o fundamento de uma filosofia da época criada por Plutarco, que escreveu A Mesa dos Deveres Familiares, em que algumas das obrigações eram: a mulher seria submissa em tudo ao marido, deveria ser somente fonte de procriação, não tendo direito de demonstrar nenhum tipo de prazer na relação conjugal; o homem deveria amar e satisfazer-se com as concubinas e prostitutas. Ao tomar conhecimento desta teoria, Paulo revolta-se e coloca-se radicalmente contra, tanto que nesta passagem escreve várias vezes aos homens: “amai vossas esposas.” Afirma que, realmente, a mulher será submissa, à medida que o marido se entregar a ela, amando-a e respeitando-a verdadeiramente.

O texto traça em paralelo belíssimo e de profundo significado: A Igreja hoje é submissa a Cristo, porque, muito antes disto, Ele entregou a própria vida por ela. Nós somos a Igreja, a esposa de Cristo; e Ele é o marido fiel, que primeiro amou incondicionalmente, a ponto do sacrifício supremo de si, a morte.

Como poderia alguém não amar a si próprio, uma vez que, depois de casados, homem e mulher transformam-se numa só pessoa, ou numa só carne?

Assim, São Paulo apresenta uma nova ética familiar, não mais a de Plutarco, e sim uma filosofia baseada em princípios cristãos. O amor não é submissão, mas quem ama sempre se submete.

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