Roteiros homiléticos

 

12º Domingo Comum – 21/6/2009

 

1ª Leitura: Jó 38,1.8-11
Salmo: Sl 106
2ª Leitura: 2Cor 5,14-17
Evangelho: Mc 4,35-41

No entardecer de nossas vidas, passaremos pela tempestade,
só nos resta confiar

O ensinamento presente na liturgia deste domingo é a confiança que devemos depositar em Jesus, diferentemente dos apóstolos que, durante uma tempestade no mar, mesmo com o Mestre presente, se comportaram como homens medrosos, de pouca fé.

Para melhor entendimento dos textos, é necessário conhecer um pouco da realidade dos anos 300 a.C. Grandes filósofos gregos como Platão, Sócrates e Aristóteles acreditavam que Deus se limitou a dar início à Criação, deixando que o mundo se desenvolvesse por si mesmo. Seria como se Deus estivesse “dormindo”. No Evangelho, Marcos traduz esta mesma ideia, dizendo que Jesus dormia diante dos apóstolos. Da mesma forma nós, hoje, achamos que Deus está alheio aos conhecimentos do mundo, tanto que, não raro, O questionamos: “Porque isto acontece comigo?” A verdade é que, nos momentos difíceis da vida, nas tempestades da nossa existência, nós cobramos respostas do Criador, e queremos saber o porquê disto ou daquilo.

Na primeira leitura podemos observar que Jó se comporta da mesma maneira. Homem justo e piedoso, de repente perde tudo o que possui: família, bens, amigos e até a própria saúde. Inconformado, procura confrontar-se com Deus, para saber a razão de tanto sofrimento, uma vez que vivia dignamente e longe do pecado. Deus, por sua vez, lembra ao pobre mortal que Ele é o Criador de tudo o que existe no universo, das grandes coisas aos microscópicos seres, com toda riqueza de pormenores e perfeição. Deus conclui o diálogo, chamando Jó de arrogante, por querer questionar os desígnios que só o Todo-Poderoso conhece.

Nosso comportamento comumente é semelhante ao de Jó. Nos momentos de sucesso, a vanglória é nossa. Nos fracassos, a culpa é dos outros ou de Deus. Frequentemente estamos nos eximindo da responsabilidade, e é por esta razão que se acredita facilmente no diabo. Atribuindo a culpa às tentações oferecidas pelo maligno, fica fácil de escapar da própria responsabilidade. O diabo só existe para os irresponsáveis. Devemos atribuir nossos sucessos e alegrias à fé e na confiança que temos em Deus, porque Ele habita no mais íntimo.

A verdadeira fé é demonstrada com as mãos, com a realização de ações concretas. Na passagem da tempestade, os apóstolos ficaram parados, acomodados, esperando que Jesus tomasse providências para salvá-los, mas eles próprios permaneceram de braços cruzados. Falta de imaginação e iniciativa, nenhuma atitude que pudesse salvá-los do perigo, somente o apelo desesperado àquele que tudo podia, Jesus Cristo.

Geograficamente falando, o Mar da Galiléia, na verdade, é um grande lago rodeado de montanhas. As tempestades agitam as águas, formando grandes ondas, atingindo as embarcações que por ali navegam. Entretanto, os pescadores e barqueiros, conhecedores deste fenômeno, já sabem que diante das tormentas não se deve navegar no sentido transversal do lago, mas no sentido contrário ao vento, até que o mau tempo passe. Na verdade, era isto que Jesus queria que os discípulos fizessem: que acreditassem e confiassem em si mesmos, na sua capacidade de enfrentar e vencer a dificuldade.

Como podemos ter fé em Deus, se não temos fé em nós mesmos, em nossos potenciais, na inteligência que recebemos? Não podemos ficar de braços cruzados, esperando que a solução de nossos problemas caia do céu.

Confiança, isto é o que Jesus quer de nós. Confiança em Deus que está em nós, e nos possibilita agir concretamente, pois uma fé vazia, que vive nas nuvens, de nada nos vale.

O Pai guia-nos para onde nos deixamos guiar. Mas, para tanto, é necessário abandonarmo-nos confiantes nas mãos d’Ele. No entardecer da vida, na hora da morte, todos passarão pela “tempestade”. O que nos resta é confiar, confiar e confiar. Não há outro jeito.

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