Roteiros homiléticos

 

 4º Domingo do Advento – 20/12/2009

 

“Como pode o Criador depender da criatura?”

1ª Leitura: Mq 5,1-4a
Salmo: 79
2ª Leitura: Hb 10,5-10
Evangelho: Lc 1,39-45

Estamos no último domingo do Advento, e a Palavra de Deus, na ânsia de bem nos preparar para o Santo Natal, apresenta-nos o Mistério de modo estupendo.

As narrativas de infância de Jesus, em Mateus, giram em torno da figura de José, enquanto em Lucas dizem respeito a Maria. Em Mateus, José, e, por ele, Jesus, é associado à linhagem davídica (filho de Davi). Em Lucas, onde a genealogia de Jesus remonta a Adão e Eva, Jesus é associado a toda a humanidade (filho do homem), sem exclusividades raciais.

As narrativas da infância realçam tanto a realidade da condição humana de Jesus como a sua origem divina. Pela encarnação Deus revela que homens e mulheres foram criados para participar de sua vida divina e eterna.

Iniciamos nossa reflexão com a Carta aos Hebreus, que nos revela os sentimentos do Filho eterno do Pai apresentado no momento da sua Encarnação: Pai, “Tu não quiseste vítima nem oferenda”, as do Templo, as vítimas simplesmente rituais, “mas formaste-me um corpo”, tu me fizeste humano, deste-me uma natureza humana! Não foram do teu agrado os sacrifícios de animais irracionais, os ritos meramente formais, “por isso eu disse: ‘Eis que eu venho! Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade’”. “Aquele que abarca o universo foi abarcado pelo útero de uma Virgem; Aquele que é a Palavra eterna do Pai passou nove meses no silêncio da gestação!” (D. Henrique). Como pode ser? E tudo isso por nós, para nossa salvação, para nos elevar! Ele veio viver em tudo nossa natureza humana, menos o pecado; em tudo, nossas angústias; em tudo, nossas procuras; em tudo, nosso sonho de ser felizes! “É graças a essa vontade que somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas!”. O Filho eterno, fazendo-se um de nós, assumindo nosso corpo, isto é, nossa humanidade, nossa história, nossas limitações; foi homem perfeito, perfeitamente dedicado ao Pai, perfeitamente obediente, perfeitamente abandonado nas mãos do Pai, e assim nos salvou, mereceu-nos o perdão, para possuirmos o Reino Eterno.

Mas há mais no Mistério deste 4° Domingo! Além do “sim” eterno e divino do Filho que disse “ó Pai, eis que eu venho para fazer tua vontade”, nas montanhas da Galiléia, em Nazaré, outro “sim” ecoou: o de Maria, a pobre e frágil serva do Senhor, o sim apaixonado e total à proposta inaudita de Deus: “Gabriel, vai dizer Àquele que te enviou que eu sou a Serva, que se faça conforme a tua palavra!” “Que mistério tão impenetrável, que inteligência alguma humana poderá compreender plenamente! O sim do Filho eterno somente realizou-se no nosso mundo graças ao sim de uma pobre Virgem de Nazaré! Como pode o Criador depender da criatura? Que mistério tão grande o plano eterno de Deus depender de nós! A Virgem disse sim: sim total, sim sem condições, sim absoluto, sim sem reservas, sim de corpo e alma! E, depois do sim, ela corre para a região montanhosa de Judá, para ver o sinal que o anjo havia dado: a parenta idosa e estéril havia concebido! Como a Arca da Aliança, contendo as Tábuas da Lei, foi transportada para a região montanhosa de Judá (cf. 2Sm 6,1-8), também Maria, contendo em si Aquele que é a Nova Lei, vai para a região de Judá; como Davi, admira-se e exclama: “Donde me vem que a arca do meu Senhor fique em minha casa?” (2Sm 6,9) Isabel também derrama-se em júbilo admirado: “Donde me vem que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” Como a arca ficou três meses na casa de Obed-Edom (cf. 2Sm 6,11), a Virgem ficou três meses na casa de Isabel! Que projeto admirável de Deus, que sim tão bonito da Virgem! Quanta generosidade, quanta fé, quanta entrega, quanto abandono!” (D. Henrique Soares).

É que Maria é a representante da humanidade que recebe a vida de Deus, em sua virgindade concebe a vida de Jesus de modo inteiramente inesperado. É o Espírito de Deus que nela, e em nós, produz a vida. Assim o nascimento de Jesus, resposta de Deus aos anseios da humanidade, começa a ensinar que a Vida é fruto da iniciativa de Deus em contato com a nossa atitude aberta e receptiva, como a atitude de Maria.

Jesus, porém, é o Emanuel, o Deus-conosco, e vai nos ensinar o projeto de Deus, para que estejamos todos livres e vivos, a fim de nos tornarmos o que Deus deseja.

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