Roteiros homiléticos

 

 25º Domingo do Tempo Comum – 20/9/2009

 

1ª Leitura: Nm 11,25-29
2ª Leitura: Tg 5,1-6
Evangelho: Mc 9,38-43.45.47-48

“Sabedoria divina leva-nos à humildade do serviço e da generosidade.”

A Palavra deste domingo coloca-nos diante de duas realidades em permanente antagonismo, correspondentes a dois tipos de atitudes que tomamos diante de nós mesmos, dos outros e da vida: a “sabedoria do mundo” e a “sabedoria de Deus”.

A perseguição do “justo” é o tema da 1ª Leitura de hoje. O justo é alvo de perseguição, porque a sua conduta é a contestação mais radical da ação do “ímpio”, seja qual for a sua forma de atuação. Por este motivo, o ímpio não suporia o justo, julgando-o um enfadonho e incorrigível “desmancha-prazeres”.

A primeira “sabedoria”, caracteriza-se pelo fechamento da pessoa a Deus e pela sua complacência no orgulho e na autossuficiência. Esta sabedoria conduz ao vazio e à frustração, dissimulados em triunfo e felicidade efêmera, e, por isto, não nos pode dar realização plena. A segunda, a “sabedoria de Deus”, caracteriza-se pela entrega da nossas vidas a Deus, atentos à sua vontade, e tomando como modelo a vida de Jesus Cristo. Compromete-nos na construção de um mundo mais fraterno e na luta pela paz e pela justiça.

O cristão e a cristã que optam por viver segundo a “sabedoria de Deus” não têm vida fácil. Mas, se por um lado, estão sujeitos à crítica, à perseguição, à incompreensão, ao fracasso, por parte dos ambiciosos, por outro, encontram neste caminho a verdadeira felicidade e plena realização. O seu saldo é francamente positivo.

Na 1ª Leitura, extraída do Livro da Sabedoria, os sábios deste mundo armam ciladas ao justo que vive segundo a “sabedoria divina”, porque, dizem: “(Ele) nos incomoda e se opõe às nossas obras, censura-nos as transgressões à lei e repreende-nos as faltas de educação. Condenemo-lo à morte infame, porque, segundo diz, Alguém virá socorrê-lo.” Na 2ª Leitura, Tiago, depois de convidar os cristãos à autenticidade e coerência da fé, enumera alguns aspectos que carecem de atenção por parte dos crentes. Estes aspectos prendem-se, exatamente, aos dois tipos de sabedorias acima enunciamos. O cristão e a cristã, pelo seu Batismo, optaram por Jesus Cristo e pelo seu seguimento, isto é, escolheram viver segundo a “sabedoria de Deus”. Porém muitos continuam a orientar suas vidas pela “sabedoria do mundo”, com todas as suas consequências: “inveja, rivalidade, desordem, guerra e toda espécie de más-ações.” A comunidade cristã divide-se e corre o risco de ser destruída. O apóstolo põe o dedo na chaga de sua comunidade e interpela-a a uma profunda mudança de mentalidade e de vida. Na mesma perspectiva, Jesus, ao aperceber-se das conversas mantidas ao longo do caminho pelos seus discípulos sobre qual deles seria o maior, senta-se com eles e explica-lhes: “Quem quiser ser o primeiro será o último de todos, como servo de todos.” Nos seus ensinamentos, Jesus insiste na lógica da oposição entre a “sabedoria do mundo” e a “sabedoria de Deus”.

A Palavra deste domingo e, nomeadamente o Evangelho, convida-nos a refletir seriamente no tipo de sabedoria que forma a nossa vida. Convida-nos a pensar no modo como nos sentimos na comunidade cristã e na sociedade. Jesus denuncia “os jogos de poder, as tentativas de domínio sobre os outros, os sonhos de grandeza, as manobras para conquistar honras e privilégios, a busca desenfreada de títulos, a caça às posições de prestígio”, que revelam uma orientação de vida segundo a “sabedoria do mundo”. Por outro lado, Ele nos convida à opção pela “sabedoria de Deus”, que se manifesta num coração simples e humilde, aberto ao acolhimento dos mais pobres e dos mais fracos da comunidade, sem pretensão de reconhecimento público e de retribuição. Jesus é claro e exigente: quem quiser segui-lo tem de se abrir à “sabedoria de Deus”, à sua vontade, às suas propostas, aos seus desafios. Não é possível fazer parte da comunidade de Jesus, se não estivermos dispostos a realizar este processo. A Igreja de Jesus só se pode efetivar a partir da “sabedoria de Deus”. Qual é a sabedoria que nos conduz?

A mensagem que Jesus transmite aos Apóstolos no Evangelho é uma contestação da concepção de reino baseada no poder, nas honras, nos primeiros lugares. Mas a contestação mais radical é a sua própria vida e sua maneira de atuar. Jesus aceita a sua missão de “servo”, manso e humilde de coração, que anuncia a salvação aos pobres. Ele vive no meio dos Apóstolos como “aquele que serve”, e, embora sendo o seu “Senhor e Mestre”, chega a afirmar que o serviço é a outra face do amor, e que o maior amor é o daquele que é capaz de dar a vida pelos amigos (cf. Jo 15,13).

A pregação e a ação de Jesus colocam-se, ao contrário, num outra direção. O seu anúncio é claramente um “anúncio de salvação radical”, do pecado, e não a restauração duma dominação política.

A palavra e o exemplo de Jesus resolvem o problema das “precedências” em sentido cristão: Jesus recusa categoricamente toda a ambição de domínio. A única autoridade da Igreja e dentro dela é (ou, pelo menos, deve ser) a autoridade do último lugar, a autoridade do serviço humilde...

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