Roteiros homiléticos

 

6 º Domingo de Páscoa – 17/5/2009

 

1° Leitura: At 10,25-26.34-35.44-48
Salmo: Sl 97

2ª Leitura: 1Jo 4,7-10

Evangelho: Jo 15,9-17

 O tema central dos ensinamentos deste domingo é o amor daquele que suportou os pecados e quebrou os preconceitos.

Primeiramente é preciso compreender algumas definições sobre o amor. Esta é, com toda certeza, uma das palavras que mais aparecem na Bíblia. Só na liturgia de hoje, repete-se 16 vezes. Entretanto, sabe-se que toda obra literária traduzida corre o risco de não ser fiel aos textos originais.

Ao contrário do grego, que se vale de quatro diferentes denominações para conceituar o amor, a língua portuguesa é “pobre”, e traduz simplesmente as quatro formas gregas numa única palavra: amor.

Os quatro diferentes tipos de amor são: ágape, filia, stergo e eros. Cada um tem a forma diferente de amar, e, portanto, deve ser traduzido corretamente, para não causar distorções e desvios de interpretação.

A mensagem central da 1ª Leitura diz-nos que Deus não discrimina. Deus é amor, e, de fato, não discrimina. O preconceito é o inimigo do amor. O amor do Pai une todos em torno do essencial, e não do acidental, pois, independente de tudo, o que interessa é o valor do outro como ser humano. Este valor não deve ser medido pela escolaridade, profissão, classe social, bens, status ou qualquer outro critério puramente acidental. Antes de ser doutor ou pedreiro, é uma pessoa. Quando amamos de fato, acolhemos a pessoa do irmão, seja ele quem for e como for.

Portanto, sempre que fazemos discriminação, por mais involuntária que seja, não estamos amando. A própria Igreja, por ser semente do Reino, não deveria discriminar, mas infelizmente ainda o faz, mediante normas e preceitos que parecem impossíveis de serem quebrados.

Voltando às quatro formas de amar, vejamos a diferença entre elas:

Ágape, do grego significa solidariedade, fraternidade, doação, entrega, promoção humana, justiça, honestidade.

Filia é o amor entre amigos ou entre partes que tem afinidade, por exemplo: em filosofia; filo significa amigo, e sofia significa sabedoria: portanto, amizade da sabedoria.

Stergo é um sentimento de amor familiar entre pais e filhos, irmãos entre si, bem como entre parentes.

Eros é o amor entre homem e mulher, que envolve afetividade, carinho, atração e sensualidade.

Agora, conhecendo o significado e a diferença entre os quatro tipos de amor, fica ainda mais evidente que a tradução resumida numa única palavra – amor – prejudica muito o entendimento do contexto.

Em determinada passagem bíblica, mais precisamente no Sermão da Montanha, Jesus disse: “Amai vossos inimigos.” Mas será que é possível amar os inimigos, já que isto vai contra a própria natureza humana? Sim, é possível, se tivermos a correta interpretação da palavra amor. Aqui não se trata de um amor afetivo, mas, sim, de um amor efetivo. Este é o amor ágape, que significa ser solidário, não querer o mal, ajudar o inimigo, quando necessário. Certamente cada um já sofreu diante deste pedido de Jesus, vivendo um conflito interior, por não conseguir amar os inimigos.

No Evangelho de hoje Jesus pergunta três vezes: “Pedro, tu me amas?” Pedro responde: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo.” Entretanto, o amor a que Jesus se refere é o ágape. É como se Ele perguntasse assim: “Pedro, tu és solidário comigo? És capaz de entregar-te pela minha causa?” Apesar da resposta positiva – “sim, Senhor, sou teu amigo” –, Pedro não compreendeu o sentido da pergunta, e respondeu com outro tipo de amor, o filia. Jesus, porém insistiu e perguntou pela segunda vez: “Pedro, agapaz-me?” E Pedro respondeu: “Sim, filo-te”. Novamente errado. Na terceira vez, Jesus modifica a pergunta: “Você é meu amigo?” Aí, então, Pedro se entristece, porque compreende o que realmente Jesus queria ouvir de sua boca. Percebe imediatamente que ainda não está preparado para assumir a causa de Cristo.

Os vários tipos de amor podem também ser classificados em duas categorias: o afetivo e o efetivo. O afetivo compreende tudo aquilo que envolve afeto, sentimento, carinho e emoção. Nesta categoria enquadram-se a filia, o stergo e o eros. O efetivo é aquele que Cristo quer dos seus discípulos; o ágape, que se traduz em solidariedade, promoção humana, justiça, caridade, respeito, honestidade, etc.

Portanto, o amor que aparece 16 vezes nos textos de hoje é o efetivo, é o ágape, é o que Jesus quis de Pedro e continua querendo de nós hoje. Poderíamos atualizar o mandamento: “Amai-vos uns aos outros da seguinte forma: sede solidários, justos, carinhosos, honestos e respeitosos uns com os outros.”

A grande e mais importante diferença entre o amor afetivo e o efetivo é que o afetivo faz distinção de pessoas, enquanto que o efetivo, o ágape, o amor que Deus quer de nós, não distingue.

Sabiamente, dizia Santo Agostinho: “Ama, e faz o que queres.”

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