Roteiros homiléticos

 

 33º Domingo do Tempo Comum – 15/11/2009

 

O Futuro É Construído no Presente

1ª Leitura: Dn 12,1-3
2ª Leitura: Hb 10,11-14.18
Evangelho: Mc 13,24-32

Diante da dificuldade dos textos apresentados neste dia, é fundamental que sejam interpretados dentro de um contexto; do contrário, corre-se o risco de serem distorcidos pelo mau entendimento. Trata-se de passagens escritas em gênero apocalíptico, o qual aparece em vários livros da Bíblia, como nos escritos dos profetas Daniel e Ezequiel, do evangelista Marcos e no Apocalipse, propriamente dito, de João. Este gênero surge principalmente nos momentos de grandes dificuldades, sofrimentos, guerras e revoltas.

O texto da 1ª Leitura foi escrito pelo profeta Daniel, na época da Revolução Macabaica, no ano 164 a.C. Esta foi a luta dos judeus, liderados por Judas Macabeu, contra o domínio do general estrangeiro Antíoco IV, que quis banir a cultura judaica, para introduzir em Israel a língua, os costumes e a religião grega. As classes mais abastadas toleravam as imposições, visando manter seus privilégios. Entretanto, o povo mais ortodoxo, rebelou-se veementemente contra tal situação. Até mesmo o respeitoso Templo foi violado, quando depositaram no local sagrado uma gigantesca imagem do deus grego, Zeus, o deus dos deuses. Esta foi a gota d'água para o início da Revolução Macabaica, a qual foi um verdadeiro massacre, uma vez que, a força e o poder, estavam nas mãos do exército do general Antíoco. Judeus, morrendo em batalha, numa luta desigual, em certo momento começaram a questionar até que ponto tudo aquilo valeria a pena. É neste momento que se manifesta o gênero apocalíptico, lançando mão de uma linguagem para animar na esperança. Seria uma espécie de motivação para aqueles que lutavam por uma causa justa, neste caso, o restabelecimento do Templo, da Casa de Deus. Todo aquele que, em batalha, viesse a perder a própria vida, receberia a recompensa da vida eterna.

O evangelista Marcos retrata a mesma situação, porém, em épocas diferentes. Trata da perseguição ferrenha dos cristãos pelos imperadores romanos Nero e Domiciano, Décio e Diocleciano, entre outros. Diante de tamanha opressão, os cristãos acabavam renegando a fé e abandonando a religião.

Marcos traz de volta as palavras do Mestre, que diz: “Não tenham medo, pois, mesmo que o mundo se acabe, todo aquele que permanecer firme na fé alcançará a vida eterna.” Aqui, cabe ressaltar que houve muitos erros de interpretação sobre a volta de Jesus. Tanto é que, no entendimento do povo judeu, assim como Cristo partiu sob as vistas deles, tão logo aconteceria a sua volta e, voltando, levaria consigo todos que tivessem permanecido firmes e fortes na fé. Porém, com o passar do tempo, e a compreensível frustração dessa expectativa, não houve outra alternativa, senão adotar uma compreensão diferente do fato. Desde então, o mundo gira em torno desta confusão. A própria ciência prevê o fim dos tempos, devido ao esfriamento do Sol e, por consequência, o congelamento da Terra. Esta é uma teoria que, mesmo que se concretize, só aconteceria daqui há bilhões de anos, e nós, certamente, não estaremos mais aqui para presenciá-la.

Outra corrente, que acredita na volta de Jesus destruindo tudo, ou permitindo grandes catástrofes e salvando apenas os já eleitos, os escolhidos, é completamente contraditória. Como poderia, o mesmo autor da Criação, voltar para destruir o que ele próprio criou? Se assim fosse, estaria agindo contra sua natureza de amor à Criação. Nesta, definitivamente, não podemos crer!

Este texto, deve nos fazer refletir sobre quão efémera é nossa vida e, por conta disto, devemos viver intensamente cada momento do tempo presente, nas pequenas atitudes do dia-a-dia. A comparação com a figueira de ramos e brotos verdes, indicando a chegada do verão, é interessante e se aplica à nossa realidade. Dentre as quatro estações do ano, a mais esperada e apreciada por todos é o verão. Ele é sinônimo de festa, de alegria, de férias. Passamos o ano todo trabalhando, estudando, batalhando, para, no verão, desfrutar de momentos prazerosos. Assim também acontece em nossa vida cristã, isto é, precisamos nos preparar, aqui e agora, vivendo bem, demonstrando sinais de justiça, fraternidade, esperança e paz, para, mais tarde, alcançarmos o “verão da eternidade”.

O futuro é construído no presente. Viver bem hoje é o segredo da felicidade, sem preocupações descabidas sobre o dia e a hora do final dos tempos. Além disso, cada um de nós terá o seu fim particular, no momento em que partir desta vida. Este dia, ninguém o pode prever e, mesmo assim, o término é da existência, e não da vida, pois de ninguém a vida é tirada, mas transformada.

Quantas tentativas frustradas de prever o dia do fim do mundo já presenciamos? Todas fracassadas, e sempre com justificativas nada convincentes. São bobagens que, infelizmente, ainda amedrontam grande parte das pessoas, gerando conflitos, dúvidas, e até doenças, como por exemplo, a síndrome do pânico.

Portanto, o ensinamento que traz o género apocalíptico é que, não obstante momentos de dificuldades, sofrimento e tristeza, procuremos viver com esperança renovada, buscando força, coragem e ânimo, porque: “Tudo passa, só Deus basta” (Santa Teresa de Jesus).

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