Roteiros homiléticos

 

3° Domingo da Quaresma – 15/03/2009

 

1ª Leitura: Ex 20,1-7
Salmo: 18
2ª Leitura: 1Cor 1,22-25

Evangelho: Jo 2,13-25

Continuando nossa preparação para a Páscoa do Senhor, celebramos hoje o 3° Domingo da Quaresma, que nos apresenta reflexões profundas e questionadoras.

A primeira leitura apresenta-nos o Decálogo, ou os Dez Mandamentos, enfatizando o valor da vida, dom precioso concedido gratuitamente por Deus.

Primeiro Mandamento: “Amar a Deus sobre todas as coisas.” Durante o tempo comum em que viveram no Egito, o povo de Israel era obrigado a adorar o faraó, que na época era chamado de filho de deus. Contudo, esta imposição trouxe-lhes a compreensão de que adorar imagens, como adorar o faraó, significa adorar a morte. O faraó era aquele que condenava muitas pessoas à morte, enquanto que as imagens dos deuses refletiam a violência da época. A condição de escravos não lhes permitia ter vida plena. Para os hebreus era vetado ter outros deuses se não Yahweh. Cada ser humano traz em si uma “fagulha de Deus”, que deve ser adorado na pessoa de nosso semelhante. À medida que amamos nosso irmão, dignificando sua vida, estamos amando um único Deus. Por outro lado, não dignificar, não promover a vida, é idolatria. A ignorância aparece como causa principal da adoração aos falsos deuses de hoje: dinheiro, poder, sucesso, dominação e tantos outros. Deus criou-nos por amor e para o amor. Comunhão em duplo sentido: com Deus e com o próximo. O pecado é fonte de violência, porque nega a ordem querida por Deus.

Segundo Mandamento: “Não tomar o santo nome de Deus em vão.” Todas as vezes em que usamos o nome de Deus e, ainda assim, cometemos injustiças, corrupções, violências, maldades, fofocas, estamos pecando contra Deus.

Terceiro Mandamento: “Guardar o dia de Sábado.” No Egito, o povo Hebreu não tinha direito a um dia de descanso, tampouco um dia para adorar a Deus, porque tamanha era a opressão, que nem sequer percebiam que tinham direitos de seres humanos. Hoje temos reservado o dia de Domingo para nosso descanso merecido. Esta é uma forma de nos sentirmos vivos e libertos da escravidão da rotina da vida moderna, que se resume em trabalho, trabalho e trabalho. É momento sagrado e que deve ser dedicado a adorar o nosso criador, Deus e Senhor.

Quarto Mandamento: “Honrar pai mãe.” Para impedir que o povo hebreu se multiplicasse e crescesse, os egípcios tomavam seus filhos, sacrificando-os, para não permitir que vivessem e crescessem honrando pai e mãe. Com este mandamento, o Senhor mostra a nós que a fonte da vida são os pais, que devem ser honrados e respeitados, especialmente na idade avançada: “Que vivam envelhecendo, e não envelheçam vivendo.”

Quinto Mandamento: “Não matar.” Este é o eixo do Décalogo, isto é, encontra-se no meio dos Dez Mandamentos, deixando muito claro que ninguém tem o direito de tirar a vida humana. Jesus Cristo entregou sua própria vida em beneficio de todos, para que nenhuma vida fosse eliminada. Infelizmente a insegurança pública revela que a vida é negligenciada com muita facilidade.

Sexto Mandamento: “Não pecar contra a castidade.” Aqui pode ser dito: “Não cometerás adultério.” Aqui o foco principal é a preservação da família, o que não acontecia no Egito. O povo hebreu era desrespeitado por sua condição de escravos e, por isto, eram usadas as mulheres de forma imoral, conforme as necessidades dos egípcios. Hoje, a desintegração moral é evidente e notória.

Sétimo Mandamento: “Não roubar.” Este mandamento não se refere apenas a não praticar roubo de coisas materiais, mas principalmente a não roubar a dignidade humana, a liberdade humana, a esperança humana. Num mundo violento e inseguro, a esperança e a liberdade estão sendo roubadas todos os dias.

Oitavo Mandamento: “Não levantar falso testemunho.” Assim como no Egito, hoje vivemos em um mundo no qual prevalece a “lei do mais forte”. Se os pobres e fracos não encontram quem lhes faça justiça, a sociedade torna-se um novo Egito.

À medida que o ser humano vem crescendo nos conhecimentos tecnológicos e científicos, vem ao mesmo tempo decrescendo, regredindo, em sua capacidade de perceber que a pessoa é muito mais que simples existência física, e que é o próprio Deus que está no ser humano. “Deus colocou as coisas a serviço da humanidade, e não os homens a serviço das coisas.” Deus criou as pessoas, para serem amadas, e as coisas, para serem usadas. Infelizmente, invertemos a situação: amamos as coisas e usamos as pessoas.

Precisamos, enfim, redescobrir e reexaminar nossa conduta a partir dos Dez Mandamentos.

Refletindo no Evangelho, ouvimos a passagem na qual Jesus expulsa os vendilhões do tempo, deixando claro que religião não é comércio.

Na época de Jesus, os animais a serem oferecidos em sacrifício no templo só eram aceitos, se comprados dos vendilhões. Os sacerdotes, por sua vez, determinaram que nenhuma moeda pagã poderia ser usada nas dependências do templo. Entendia-se por pagã a moeda que circulava entre os judeus da época. Os próprios sacerdotes mandaram cunhar na cidade de Tiro a moeda chamada “tíria”, cujo valor era quatro vezes maior que a moeda circulante. Desta forma, a exploração era inevitável, já que a oferta no templo fazia parte da cultura e das obrigações da época.

Hoje, mais do que nunca, cresce a quantidade de religiões que exploram a ignorância e o desespero das pessoas, que depois se tornam seguidores fanáticos e féis. Cobra-se pela graça. Quanto mais se dá, mais se recebe de Deus. São os vendilhões modernos.

Jesus mostrou que a verdadeira religião é aquela que valoriza a vida, independente de suas posses. Se Deus está em cada pessoa, então devemos dignificar a vida de todos. Consequentemente, toda vez que vamos contra a vida, seja de que forma for, estamos adorando ídolos. Só Deus é merecedor de nossa adoração, e, qualquer coisa diferente disto é idolatria.

 

topo


© Site das Pontifícias Obras Missionárias do Brasil, todos os direitos reservados.