Roteiros homiléticos

 

 24º Domingo do Tempo Comum – 13/9/2009

 

Jesus Cristo É o Antídoto para os Nossos Pecados

1ª Leitura: Nm 21,4b-9
2ª Leitura: Fl 2,6-11
Evangelho: Jo 3,13-17

Encontramos alento e segurança, ao refletir na última frase do Evangelho narrado por João: “Eu não vim ao mundo para condená-lo, mas sim para salvá-lo.” Se esta é a promessa do próprio Jesus Cristo, porque será que existem tantas religiões que insistem em apresentar um Deus que castiga e condena? Pessoas que se acham no direito de julgar e até mesmo prever a condenação dos que seguem esta ou aquela religião? A interpretação dos textos bíblicos é comumente praticada de forma equivocada e precipitada, isto é, literalmente. Entretanto, os fundamentalistas assim o fazem, somente quando lhes é conveniente.

Frequentemente, nós católicos somos acusados, por seguidores de outras crenças, por admirar e adorar a cruz, símbolo de morte. Neste dia em que celebramos a festa da Exaltação da Santa Cruz, é importante lembrar que não se trata de simplesmente concentrarmos a atenção na cruz, instrumento de condenação daquela época. A cruz em si não salva, porém, tem muito a nos ensinar. Como qualquer outro instrumento de violência, pode ser um exemplo de vida, e, justamente olhando para ela, lembra-nos seu precioso valor, pois Cristo fez deste instrumento de morte para os condenados símbolo de vida.

Cristo, ao morrer na cruz, estendeu os braços para atrair, abraçar e acolher a todos. Deus tornou-se humano, para elevar o humano à divindade; este é o real significado da cruz.

Para melhor entendimento, podemos traçar um paralelo entre a cruz de Cristo e a serpente áspide que era adorada como deusa pelos cananeus. O povo judeu, recém-libertado do Egito, ao entrar em Canaã se queixava a Moisés do grande sofrimento que tinha, enquanto Deus lhe prometera vida plena, livre da opressão. Compreendia equivocadamente o processo de libertação como morte, e via a escravidão no Egito como vida. Perfeitamente compreensível, considerando que todo e qualquer processo de mudança exige muito do ser humano. Passar de uma vida de pecado para uma vida de graça é difícil, exige sacrifícios e renúncias que trazem sofrimento. Descrentes e dominados pelo desespero, muitas famílias apartavam-se do grupo, isolando-se e buscando, à sua maneira, um caminho mais curto para chegar à Terra Prometida. A grande ameaça presente no deserto era a áspide, serpente com veneno mortal, cujos ataques se tornavam mais fáceis e frequentes aos pequenos grupos. Ao perceber a divisão e o egoísmo instalados no meio deles, Moisés confeccionou uma serpente de bronze para ser adorada e, desta forma, iria aglutina-los novamente. A união de todos iria proteg-los do perigo de serem envenenados pelas serpentes, preservando suas vidas.

Também nós, quando nos isolamos e não vivemos em comunidade e, principalmente, se não tivermos Deus como centro de nossas vidas, tornamo-nos presas fáceis do sistema em que vivemos. A serpente de bronze trata-se de uma pré-figuração de Cristo crucificado e da salvação trazida por Ele. Ninguém se salva sozinho, pois a salvação tem como premissa a comunhão.

Deus tira da morte a vida, e ordena que todo o que for envenenado, ao olhar para a peça de bronze será curado. Podemos encarar esta passagem como uma profecia, pois hoje bem sabemos que é da própria cobra que se extrai o soro para neutralizar o efeito venenoso da picada. Por isto, sempre que o homem se deixa levar pelo pecado, é contaminado pelo próprio veneno.

No Evangelho, Jesus fala a Nicodemos que Ele deveria tal qual a serpente no deserto, ser elevado na cruz, tornando-se o antídoto dos pecados da humanidade. Todo aquele que o contemplar na cruz e se deixar guiar por Ele, terá o perdão de suas faltas. Os que confiarem e pautarem suas vidas n’Ele terão vida plena e ficarão imunes ao veneno mortal do pecado. Em consequência disto, um novo rumo de vida acontece, e, mesmo que seja novamente atingido pelo veneno, recorre ao antídoto, Jesus Cristo, que perdoa sempre e incondicionalmente.

São Paulo ressalta que Jesus veio ao mundo, tinha condição divina, mas não se apegou a ela: ao voltar para o Pai, levou-nos consigo, tirando-nos da miséria do pecado. Estas verdades podem ratificar-se, ao recitarmos a oração do Pai-Nosso, em cuja primeira parte glorificamos Deus que veio ao nosso encontro, e, na segunda parte, oramos subindo ao encontro d’Ele.

Hoje é muito comum utilizar-se do que é bom, para fazer o mal. Podemos citar alguns exemplos: um veículo, bem de consumo que teria por finalidade transportar-nos de forma ágil e confortável, torna-se instrumento de morte, quando conduzido de forma perigosa e irresponsável; as drogas, ao mesmo tempo em que servem para aliviar as dores humanas, podem aniquilar o homem que se torna seu dependente; a medicina, cujo princípio consiste em salvar vidas, transforma-se numa ameaça, quando praticada de forma ilegal e sem ética.

Deus provê-nos de recursos e, principalmente, de inteligência, para que possamos discernir entre o bem e o mal, entre a vida e a morte. A lição que nos traz a cruz é que, ao olharmos para ela, sejamos capazes de valorizar o que é bom e desprezar o que é veneno, ou seja, pecado. Que possamos ver nela o elo entre o céu e a terra, sinal de vitória, pelo qual Jesus assumiu e transformou nossos pecados em graça.

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