Roteiros homiléticos
15º Domingo Comum – 12/7/2009
1ª Leitura: Am 7,12-15
Salmo: Sl 84
2ª Leitura: Ef 1,3-14
Evangelho: Mc 6,7-13
Esperar no Senhor é nossa fortaleza
Depois de ter sido rejeitado pelos seus familiares, parentes e amigos, Jesus enviou os apóstolos em missão, os quais experimentaram a mesma realidade de rejeição do “Mestre”. Antes de subir aos céus, Cristo advertiu-os sobre as dificuldades e resistências que encontrariam e que não desanimassem. Enviou-os dois a dois, para que um desse apoio ao outro.
Na primeira leitura, ouvimos as palavras de um profeta, figura quase sempre mal vista, que não encontra acolhida, porque geralmente é pessoa que incomoda. É aquele que anuncia, mas, principalmente denuncia o que não está certo. O desconforto aparece, porque a mentalidade das pessoas tende sempre à conservação, à resistência à mudança, deixando tudo como está. O ser humano, na sua essência, é conservador.
O profeta Amós deixou sua terra natal, no centro-sul do país, e foi pregar na região norte. Para melhor entender este fato, precisamos nos situar na realidade geográfica, política e econômica da época.
Davi, durante o seu reinado, conseguiu unificar o país formado por doze tribos. Entretanto, havia um general descontente, e, por esta razão, exilado no Egito. Ele se chama Jeroboão. Era muito conhecido por sua coragem e valentia.
Salomão, filho e sucessor de Davi, manteve durante seu reinado a unificação das tribos do Norte e do Sul, tal qual seu pai havia deixado. Sua grandiosa obra foi a construção do primeiro Templo, além de seus palácios particulares, para os quais importava todo material necessário de outros países, como: ouro de ofir, ouro da Etiópia, cedro do Líbano, etc. Esta prática acabou por endividar o país de tal forma, que o povo não suportava mais a carga pesada de impostos que deviam pagar, para custear a ostentação do seu Rei.
Após a morte de Salomão, assumiu seu filho, Roboão, que imediatamente foi procurado pelo povo, a fim de que se reduzisse tamanha cobrança. Rebelando-se contra o rei, que ignorava seus protestos, o povo do Norte trouxe de volta do exílio Jeroboão, o qual deflagrou guerra contra Judá, originando assim a separação do país em dois reinos: dez tribos ao Norte, como o reino de Israel, e duas tribos ao Sul, como reino de Judá.
Jeroboão trouxe desenvolvimento ao Reino do Norte. Contudo, o Templo da religião judaica situava-se em Jerusalém, numa das tribos do Sul, em Judá. O costume mandava que se oferecessem sacrifícios somente no Templo em Jerusalém, em Judá. E ainda era necessário pagar para fazê-lo, o que certamente levava o povo do Norte a deixar suas riquezas no Templo, em Judá, no Sul. Para impedir que isto acontecesse, Jeroboão ordenou a construção de dois templos na região do Norte, um em Betel e outro em Dã. Desta forma, não seria mais necessário dirigir-se a Judá para cumprir com as obrigações religiosas.
Junto com a construção dos novos templos, Jeroboão instituiu uma religião oficial, na qual os sacerdotes e profetas eram pagos pelo rei, para pregar e profetizar somente aquilo que ele próprio queria que fosse anunciado. Mais tarde assumiu o poder Jeroboão II, que privilegiava ainda mais os ricos e desprezava sem dó o povo pobre.
Foi neste momento que Deus enviou o profeta Amós, para dizer a verdade aos dirigentes do Norte e abrir-lhes os olhos sobre a falsa religião. Era um sistema opressor, cuja única finalidade era manter os privilégios de poucos. Entretanto, Amazias, o sumo sacerdote de Betel, expulsou o profeta Amós, mandando-o de volta à sua terra natal.
Assim, também hoje, cada dia surge uma nova religião, falsas crenças, de onde podemos realmente afirmar, como Marx: “A religião pode ser o ópio do povo.” É o oportunista que, se aproveitando da ignorância e desespero das pessoas, impõe-lhes obrigações criadas puramente pela vontade humana. É a indústria da graça, na qual quem paga mais recebe mais. Falsas religiões que só trazem conflitos e opressão para os que se deixam envolver e dominar. A verdadeira religião é aquela que liberta, que dá consciência crítica e que não manipula a vontade das pessoas. Assim como na época de Amós, a Igreja hoje deve se pronunciar e denunciar as falsas religiões, caso contrário, manteremos a situação como está, achando que está tudo bem.
No evangelho vimos que Jesus enviou seus discípulos para libertar o povo doente. Ao contrário do que se pensa, demônio não é sinônimo de diabo. A palavra endemoniados significa pessoas que possuíam doenças desconhecidas da época.
De fato, quando uma pessoa está doente pode ter suas sanidades afetadas, dependendo da gravidade da doença. Jesus enviou e ordenou aos apóstolos que libertassem essas pessoas da discriminação religiosa e social que oprimia e excluía os pobres e os doentes, considerados impuros. No projeto de Deus a religião deve assumir o papel libertador, trazer esperança e reintegrar os desgarrados.
Não se pode ter medo de Deus, uma vez que deu seu próprio Filho para morrer por nós, para que recebêssemos graças sobre graças, para que fôssemos glorificados e elevados à glória eterna.
Por que se acovardar e acreditar que possam “espíritos maus” se apoderar de nossos corpos, fato conhecido por “encosto”? Obviamente que isto não existe, e não faz o mínimo sentido, porque, se somos templos do Espírito e se Deus habita em cada um de nós, então teria um “encosto” mais força e poder que o nosso próprio Criador? Este é um subterfúgio, uma forma muito cômoda de cruzar os braços diante das dificuldades, considerando-as coisas vindas de fora. Isto significa omitir-se de responsabilidades exclusivamente pessoais.
Jesus veio justamente, para que fôssemos felizes. Renovou-nos na esperança, para que despertemos a consciência crítica sobre tudo o que faz mal ao nosso semelhante. O verdadeiro cristão no mundo de hoje deve ter duas visões, além da ocular: visão da fé e visão crítica.
Se tudo continuar como está, é sinal de que nos está faltando a visão crítica. Desta forma, seremos reprodutores do sistema, e não libertadores, como foram os apóstolos e o próprio Jesus Cristo.
Nada desencorajou Jesus de seguir o seu projeto. Ele veio para anunciar a todos o amor de Deus e para oferecer a todos a salvação. Por isto é expulso de Nazaré, mas prega em outros lugares a divina misericórdia e associa a si alguns homens, os doze, e os manda a pregar sem condições materiais, mas plenos do poder divino até para curar doenças. Maravilhosa aventura á qual todos, com responsabilidades diferentes, somos chamados.
Neste domingo até é fácil harmonizar as três leituras bíblicas propostas pela liturgia da palavra entorno de um único tema: a Missão. O Evangelho, de fato, propõe a Missão que os discípulos receberam de Jesus. Depois que escolheu os doze, Ele os manda “dois a dois”, quase como que a degustar aquela que seria depois a Missão universal de toda Igreja depois da Páscoa do Senhor. A iniciativa de Jesus representa na vida dos Apóstolos a iniciativa de Deus que encontramos em Amós: “O Senhor me mandou.”
Cristo é o centro da história. Ainda mais radicalmente, a segunda leitura anuncia a vocação eterna que Deus-Pai quer para cada pessoa e o fim em si mesmo deste chamado: a recapitulação de todas as coisas em Cristo.
A Gaudium et Spes, no número 22 diz que Cristo é Aquele que revela o desígnio de Deus existente em toda a Criação, em particular, na humanidade. Cristo mostra-nos nossa altíssima vocação.
Cristo manda os discípulos dois a dois, para evitar subjetivismos. Pois o testemunho missionário não pode ser feito por achismo, mas pela solidariedade missionária. Os discípulos são mandados juntos, dois a dois, para que possam demonstrar melhor que o Reino é solidariedade e a plenitude de uma vida partilhada. A vocação cristã é vocação comunitária, e esta solidariedade põe-nos a serviço do Reino.
Há um elemento singular no mandato de Jesus aos seus discípulos: não devem ter coisas materiais consigo. Somente o que serve para caminhar: sandálias e um bastão. Esta pobreza quer ser sinal da gratuidade do Reino: os dons de Deus não se podem jamais comprar ou vender. Tudo é graça. Inclusive a força da Palavra divina que salva.