Roteiros homiléticos

 

2º Domingo da Quaresma – 8/03/2009

 

1ª Leitura: Gn 22,1-2.9ª10-13.15-18

Salmo: 115
2ª Leitura: Rm 8,31b-34
Evangelho: Mc 9,2-10
           
“Só ressuscita com Cristo aquele que caminha com Cristo”. A Igreja convoca-nos, com a liturgia de hoje, a reforçarmos a vigilância e a atenção, para não deixarmos passar este Tempo da Quaresma, sem ter, no mínimo, nos convertido um pouco mais.

Percebe-se que o comportamento dos que se denominam “cristãos” está muito longe daquele que Jesus gostaria que fosse. Deus tem um projeto para a humanidade, que se traduz em vida plena, paz, justiça e fraternidade. Entretanto, os cristãos insistem em fugir deste projeto. A bem da verdade, ainda estamos na “infância” do Cristianismo, como um bebê que ensaia os primeiros passos. Assim, os cristãos estão apreendendo a prática dos ensinamentos de Cristo.

A primeira leitura descreve-nos a passagem em que Abraão foi chamado a deixar o passado, um passado de idolatria, de adoração aos deuses da terra. Portador de uma fé incomensurável, Abraão é também chamado “o pai da fé”, aquele que se entregou confiante ao chamado e à proposta do verdadeiro e único Deus, Yahweh: “Sai de tua terra, vai para onde eu te mostrar.” Em determinado momento de sua caminhada, Abraão chega à terra dos cananeus, hoje Israel e a Palestina. Este era um povo que adorava vários deuses, dentre eles, Baal e Astarte, que exigiam sacrifícios humanos como prova de fidelidade. Cada primogênito deveria ser entregue em holocausto aos deuses da terra. Este fato trouxe perturbação a Abraão, que se afligia por não oferecer provas concretas de sua fé a seu Deus como faziam aos cananeus.

Decidido, Abraão também quis provar sua fé. Contudo, de forma diferente, para assim mostrar que Deus não exige o sacrifício humano. A intervenção de Deus dá-se dizendo: “No Monte Moriá não será oferecida uma pessoa.” O Monte Moriá e o Monte Calvário são o mesmo lugar. No lugar de Isaac, Abraão sacrificou um cordeiro. No lugar da humanidade, Deus sacrificou o Cordeiro”, Jesus Cristo.

O Deus verdadeiro não quer sacrifícios humanos, diferentemente dos deuses dos cananeus, que não se importavam com o valor da vida humana. Abraão sofria muito, enquanto percorria o caminho para o holocausto de seu filho. Ao chamá-lo de sua terra e ao pedir-lhe seu único filho como prova de fé, Deus o tirou do passado, estabeleceu-o num presente novo, e queria tirar-lhe a segurança do futuro. Neste caso, o futuro: trata-se de Isaac, que seria responsável pela continuidade da descendência numerosa de Abraão, conforme a promessa divina. A confiança do “pai da fé” era maior que sua insegurança, e Deus o coloca nesta situação, para que ele não se acomode no presente, mas, ao contrário, para que lute e vá confiante para o futuro certo no qual Yahweh, o Deus vivo, único e verdadeiro, não permitirá que a vida humana se perca.

Refletindo um pouco na passagem da transfiguração narrada no Evangelho, Jesus dá a nós a certeza de que todos aqueles que subirem a montanha com Ele, que assumirem a cruz, participando do seu projeto, verão já aqui na terra a transfiguração da própria vida, e ainda ouvirão a voz de Deus dizendo: “Vós sois os meus filhos bem-amados. Ouçam o que eles vos ensina.” Não pelas palavras, mas pelo testemunho, porque o Evangelho que todos nós devemos manifestar aos irmãos não é aquele com palavras ou teorias, mas de sermos evangelhos vivos com nossas próprias vidas. Se vivermos mal, transmitiremos um Evangelho contraditório. Não esqueçamos as palavras de São Francisco de Assis: “Evangelize sempre; se for necessário, use palavras.”

Acompanhando Jesus no Monte da Transfiguração, estavam Pedro, Tiago e João, Apóstolos escolhidos pela sua importância no futuro do Cristianismo: Pedro, chefe estabelecido da comunidade; João, aquele que captou a mensagem do projeto de Deus numa teologia extraordinária; e Tiago, foi o primeiro a dar vida por Cristo. Pedro, João e Tiago nos dias de hoje somos nós, que devemos seguir Jesus, subir a montanha, e assim participar da experiência da transfiguração de nossas vidas, já aqui no tempo presente, fortalecendo a certeza do que ainda não temos, mas que está à nossa espera – a vida eterna.

Estar com Jesus transfigurado, acompanhado de Moisés e Elias, foi um momento supremo para Pedro, João e Tiago, tanto que não queriam que aquele êxtase terminasse, propondo construir uma tenda e permanecer lá. Da mesma forma nós, quando estamos intimamente ligados a Deus, embarcados na Graça, vivemos em paz e felizes. Entretanto, existem momentos em que nos sentimos tal qual Abraão a caminho do Monte Moriá: sozinhos, abandonados e desprotegidos. Mas, ao contrário do que nossa inteligência alcança, o Pai está sempre presente, caminhando conosco, atento para que nada nos aconteça de contrário à vontade divina.

São Paulo exorta os romanos, e hoje a nós; Cristo é por nós, chamou-nos a caminhar com Ele, deu-nos vida plena e, a partir do momento em que Jesus morreu no lugar de Isaac, revela que nenhum ser humano deve ser sacrificado para Deus ou deuses, seja qual for o nome deles. Se parássemos para refletir neste fato, certamente a pergunta que surgiria seria: “Quem sou eu, para que Deus morra por mim? Quem sou eu, para que Deus se sacrifique, para que eu não seja sacrificado?”

A realidade é que o mundo está dominado por poderosos governantes e líderes político-religiosos que insistem em sacrificar vidas humanas, esquecendo-se de que o próprio Deus entregou-se em sacrifício, para que tivéssemos vida plena, vida em abundância.

Portanto, o que há com os cristãos? Certamente não compreenderam ainda que somos continuadores do projeto de Cristo, e que devemos proporcionar vida digna a todos. Esta é a lição que temos de aprender com a transfiguração. Subir a montanha, experimentar a graça, e depois descer, para dar a vida, como fizeram os Apóstolos.

            Nosso papel é sermos transformadores da realidade em que vivemos, não deixando que nenhuma vida se perca pelo sacrifício do egoísmo, da ambição e da ganância. A violência e a insegurança pública continuam a exigir sacrifícios humanos de pessoas simples e, na maioria das vezes, indefesas, diante dos deuses dos traficantes e do poder do tráfico de armas. Ganhar dinheiro fácil sacrifica humanos aos deuses da ambição do mercado.            

 

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