Roteiros homiléticos

 

 2º Domingo do Advento – 6/12/2009

 

“Da religião do consumo, não escapa nem o consumo da religião...”
“A ilusão das coisas passageiras deve ceder lugar à verdade do Natal permanente...”

1ª Leitura: Br 5,1-9
Salmo: 125 (126),1-2ab.2cd-3.4-5.6 (R.3)
2ª Leitura: Fl 1,4-6.8-11
Evangelho: Lc 3,1-6

O Tempo do Advento é a antecipação das alegrias que ainda estão por vir. Pois é o modo do qual podemos vislumbrar realidades ainda distantes. Assim dizia o Pequeno Príncipe: “Quando você chegar às três horas da tarde, desde as duas estarei feliz.” O Advento é a felicidade da preparação para o Santo Natal, porque estaremos juntos na fé e no amor ao Senhor da História, Jesus Menino.

Nos rádios e televisões ouvimos constantemente votos de Feliz Natal. Mas sabemos que esse feliz Natal se dá somente em vista das vendas de coisas materiais. Todos correm nos shoppings e lojas. São muito mais frequentados que as igrejas. Aliás, são os templos modernos. Quem não tem dinheiro não é convidado a entrar, a não ser que queira sofrer no inferno da privação forçada das coisas propaladas, como aqueles nichos que ostentam a salvação da depressão e da tristeza, porque são tais objetos “religiosos” que trazem a verdadeira felicidade aos corações vazios de valores espirituais e humanos. Gostaríamos de acreditar na sinceridade desses votos, mas infelizmente são apenas campanhas publicitárias. É a tal “felicidade”, de consumir, de gastar, tão efêmera e tão superficial, que já mandou muita gente ao purgatório do desencanto, em vez da satisfação gratificante... Mas quem tem dinheiro pra gastar está no céu, ao menos enquanto compra; depois vem a necessidade de novas aquisições, para tentar preencher o permanente vazio interior.

“O que faria um Descartes neoliberal declarar: “Consumo, logo existo.” Fora do mercado, não há salvação, alertam os novos sacerdotes da idolatria consumista. Essa apropriação religiosa do mercado é evidente nos shopping centers, tão bem criticados por José Saramago em “A Caverna”. Quase todos possuem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas. São os templos do deus mercado. Neles não se entra com qualquer traje, e sim com roupa de missa de domingo. Percorrem-se os seus claustros marmorizados ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Ali dentro tudo evoca o paraíso: não há mendigos nem pivetes, pobreza ou miséria. Com olhar devoto, o consumidor contempla as capelas que ostentam, em ricos nichos, os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode pagar à vista sente-se no céu; quem recorre ao crediário, no purgatório; quem não dispõe de recurso, no inferno. Na saída, entretanto, todos se irmanam na mesa “eucarística” do McDonald´s” (Frei Betto).

Encontraremos nas leituras deste 2° Domingo do Advento algumas pistas capazes de nos conduzirem a um Natal de autêntica e perene felicidade: Antes de mais, é preciso esperar a felicidade, e acreditar nela. É de entusiasmar a perspectiva que o profeta Baruc nos apresenta na 1.ª Leitura: “Levanta-te, Jerusalém, vê os teus filhos”, reunidos de toda a parte, “felizes por Deus se ter lembrado deles... Tinham-te deixado caminhando a pé, levados pelos inimigos. Mas agora é Deus que os reconduz a ti, trazidos em triunfo, como filhos de reis.”

É a alegria do reencontro, o regresso de alguém muito amado. Diante de muita mobilidade humana, o regresso ao lar de origem traz grande alegria, como o maior dos presentes para os familiares.

Na 2ª Leitura, tirada da Carta de São Paulo aos Filipenses, poderemos ver que esta felicidade só se consegue com a colaboração de todos. Paulo lembra, “com saudades”, diz ele, aquela comunidade de Filipos, onde reinava a caridade e era constante a ajuda dada à causa do Evangelho. E o Apóstolo reza para que – diz ele – “a vossa caridade cresça cada vez em ciência e discernimento” com um perfeito sentido das realidades. São assim as comunidades, as famílias nas quais é palpável a ajuda de todos, em que todos contribuem para o bem-estar geral. Não há dúvida de que famílias assim, comunidades assim, têm necessariamente de deixar saudades... Viver nelas, eis a verdadeira felicidade!

No evangelho, João Baptista vem preparar a comunidade de Israel para o encontro jubiloso com o Senhor, para a alegria da libertação há tanto tempo esperada. A Felicidade da vida, é o arrependimento do passado, é deixar os caminhos tortuosos, e tomar o caminho direito, o rumo certo…

O Advento é conversão, mudança do mal para o bem. É preciso preencher as lacunas de nossas deficiências, da falta de solidez da nossa fé... Como condição fundamental para celebrar o Natal de Jesus com dignidade, temos que abater o orgulho que nos cega, a vaidade que nos enaltece, a nossa teimosia que nos mantém no erro e o nosso egoísmo que nos impede de partilhar qualquer coisa. O evangelho de hoje convida-nos todos para este trabalho de transformação interior, que se tornará exterior pelas obras.

João põe ao alcance de todos a água simbólica que exprime o desejo e a promessa “de remissão dos pecados.” Não haverá Natal Feliz, se tudo continuar na mesma, se nos mantivermos teimosamente agarrados às nossas posições, se não encontrarmos caminhos novos de compreensão e entendimento: Vamos! Coragem! Mãos à obra! Está na hora! O Senhor está perto!

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