Roteiros homiléticos

 

 23º Domingo do Tempo Comum – 6/9/2009

 

A Vingança de Deus É o Amor

1ª Leitura: Is 35,4-7a
2ª Leitura: Tg 2,1-5
Evangelho: Mc 7,31-37

O ponto central desta liturgia traz para nós o milagre da cura do surdomudo. Jesus coloca-se ao lado de uma pessoa que sofria toda discriminação e exclusão na sociedade da época. Completamente marginalizado, o deficiente auditivo era visto como possuído pelo demônio e amaldiçoado por Deus, tendo assim de ser afastado e isolado do convívio social, para não contaminar outras pessoas. A força desta discriminação chegava a convencer os próprios doentes a acreditarem que eram culpados e merecedores do sofrimento em suas vidas.

Jesus, antes de realizar o milagre da cura, retirou o surdo do meio da multidão, levou-o para um lugar à parte, e certamente o acolheu como ser humana. Com este gesto, Ele quis mostrar que a sociedade, principalmente os fiéis cristãos, também tem o poder da cura. Entretanto, não nos referimos aqui ao simples gesto de impor as mãos sobre o doente, orar e dizer: agora está curado. Mas a inclusão e o convívio social renovam a pessoa, que assim recobra a dignidade e a auto-estima.

Estudos realizados por uma terapeuta americana, Virgínia Satir, mostram o grande potencial do contato físico. Ele tem um poder psicológico muito grande e transcende ao simples toque epidérmico. Suas pesquisas demonstram o bem que o contato físico faz às pessoas. A pele é o nosso mais amplo órgão de sentidos e é o que mais cedo se desenvolve. Um adulto necessita receber, no mínimo, quatro abraços por dia, para sobreviver; oito, para se manter; e doze, para crescer. Esta teoria foi confirmada na prática em alguns hospitais da Colômbia, nos quais 60% das crianças nascidas prematuramente morriam. A implantação do novo método, baseado no conceito “canguru”, reduziu esta taxa de mortalidade para apenas 5%. O método consiste em promover a proximidade entre as crianças e os pais, possibilitando assim que sejam transmitidos o amor, o calor humano, a presença e o carinho familiar na UTI neonatal.

O toque afetivo é fundamental, faz parte da essência humana, e Jesus, ao curar o surdomudo, valoriza o toque. Ele toca sem preconceito, sem medo de se contaminar, de se tornar impuro ou de ser julgado pelos outros. Jesus simplesmente ama, porque o amor tem o poder da cura, e é justamente isto que falta na sociedade de hoje. Quantos surdos e cegos existem no mundo, ao nosso redor, e que precisam ser curados. Muitas vezes, nós próprios, somos surdos e mudos para a realidade em que vivemos, quando nos fechamos egoisticamente e negamos carinho, afeto, acolhida ou um simples sorriso ao nosso semelhante. Quem sabe, não estamos precisando fazer como aquele surdo: retirar-nos, encontrar-nos com Jesus, voltar curados e estender a cura aos irmãos...

Por outro lado, encontramos em toda parte da sociedade os que clamam por justiça, direito, paz e atenção, sem, contudo, serem ouvidos pelos que se fazem propositadamente de surdos. Quantos políticos, empresários abastados e outros poderosos deveriam ser retirados do seu mundo de alienação, poder e fartura, para que fizessem a experiência com Jesus, e assim tocados por Ele, voltassem, trazendo alegria ao povo, concedendo-lhes “vez e voz”!

Deus será a vingança, diz Isaías na 1ª Leitura, porém, a vingança de Deus é o amor. A profecia de que seu povo seria atendido em tudo o que lhe faltasse cumpriu-se. “Águas do deserto brotarão e torrentes do ermo jorrarão...” Basta ver Israel, um país praticamente árido, hoje dotado dos mais modernos sistemas de irrigação, com terras produtivas, até então, improdutivas. Outra afirmação do profeta: “Os cochos andarão...” Neste sentido vale citar que, com a vacina descoberta pelo cientista Albert Sabin, a poliomielite ou paralisia infantil é doença praticamente erradicada no mundo todo.

Deus dá ao ser humano a inteligência, para que se avance em conhecimento e tecnologia. Porém, é mediante o amor pelo semelhante que se põe em prática o recurso descoberto, comprovando-se novamente que o amor cura. O que de fato acontece é que não enxergamos “além de nossos narizes”, e, por consequência, não somos capazes de expressar e anunciar as maravilhas que o mundo precisa para ser curado, transformando-se, e possa evitar tanta morte e miséria.

A 2ª Leitura alerta-nos para o perigo do comodismo. Insistimos em ver as coisas neste mundo tal qual foram planejadas e concebidas, ignorando que podem ser diferentes, melhores e mais justas. Como está, está bom, está certo, está confortável... É isto que nos torna surdos à voz dos que clamam por direito e justiça.

Esta reflexão faz-nos acreditar que realmente o mundo poderia ser melhor. A verdadeira religião, a verdadeira fé, faz-nos compreender que temos uma contribuição a dar para melhorar o mundo. A prática da justiça pode e deve começar com nossas atitudes. O simples propósito de não discriminar o outro é o primeiro e grande passo. A acepção de pessoas é prática que acontece desde os tempos de Cristo. Conforme narra São Tiago, os escravos eram obrigados a sentarem-se no chão ao participar das primeiras comunidades cristãs. Atualmente não é diferente: quando celebrações solenes são realizadas, os políticos e os mais importantes e privilegiados ocupam os primeiros lugares. Infelizmente, nós conservamos este péssimo costume, tanto na Igreja quanto na sociedade, e o mais triste é que achamos isto normal, pois o fazemos naturalmente todos os dias. Trata-se da famosa “etiqueta”. Todavia, ser ético é amar, e não segregar pessoas conforme sua posição social, cor, sexo, idade ou raça.

O ato verdadeiro de curar consiste em livrar-nos da cegueira e surdez espiritual, bem como do comodismo que nos impede de anunciar a verdade, a justiça e o amor. E, depois de curar a nós próprios, o desfio deve ser maior: levar Jesus aos que estão cegos e surdos, os governantes, políticos, industriais, empresários, e tantos outros.
Um mundo mais justo, fraterno e humano deve deixar de ser um sonho. Depende de cada um de nós para a sua realização.

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