Roteiros homiléticos

 

 14º Domingo Comum – 5/7/2009

 

1ª Leitura: Ez 2,2-5
Salmo: Sl 122
2ª Leitura: 2Cor 12,7-10
Evangelho: Mc 6,1-6

Do fracasso da cruz, Jesus extraiu a vitória da Ressurreição

O ponto central destas leituras está na humanização de Deus. Assim como os profetas foram rejeitados pelos dirigentes do povo, da mesma forma Jesus é rejeitado pelos seus.

O evangelho apresenta duas admirações: primeiramente o povo se admira com a simplicidade de Deus, na pessoa de Jesus Cristo; depois é o próprio Jesus que se admira com a falta de fé das pessoas.

A primeira leitura narra o envio do profeta Ezequiel ao povo hebreu, que já sofria no exílio há quase 50 anos. A imagem profética, recurso literário usado pelo profeta, advertia o povo, dizendo que o sofrimento que ora passavam não era culpa de Deus, mas deles, visto que há muito tempo conheciam a vontade d’Ele por meio dos mandamentos e profecias. Não obstante a presença e o acompanhamento permanente de Deus, o povo rebelde e de “cabeça dura” não O acolheu, preferindo seguir seus próprios caprichos e caminhos, enveredando para a maldade, injustiça, violência e corrupção. O final da dinastia davídica é triste, pois acaba em 586, quando Israel foi tirado do mapa político e geográfico da região e os sobreviventes foram levados para um longo exílio na Babilônia.

Entretanto, mesmo no exílio, o profeta Ezequiel transmite a mensagem de Deus desejando resgatar seus filhos amados. A única condição para isto era que eles reconhecessem que o sofrimento presente era fruto do pecado por eles cometido. Isto acontece também conosco, pois Deus não deseja que pequemos, porque sabe que as conseqüências do pecado é o sofrimento. O Pai aponta-nos o caminho da felicidade, mas nem sempre seguimos por ele. Se soubermos aonde queremos ir, tomamos o caminho mais fácil para chegar lá. Caso contrário, qualquer caminho serve. É aí que se erra, tomando caminhos desastrosos, rumos que nos afastam do Senhor.

São Paulo, na segunda leitura, apresenta-nos um ensinamento rico e profundo. Nos momentos de dificuldade, quando se abate sobre nós a fraqueza, é aí que somos fortes. Existem muitas pessoas que se acham fortes, porque estão felizes e tudo está indo bem, e acham que estão no caminho de Deus, achando-se no direito de julgar os que não estão na mesma situação. São Paulo diz exatamente o contrário, que é na fraqueza que Deus está presente, convidando-nos a voltar para Ele. A força se manifesta no fraco que se deixa conduzir pelo Senhor. Paulo jamais imaginava que ao pregar o anúncio da salvação receberia honras e glórias, quando na verdade recebeu um “espinho na carne”, perigos constantes nas peregrinações, injúrias, calúnias, torturas, prisões, etc. Nesses momentos é que se sentia forte, porque sabia que Cristo estava com ele. Quando estamos fracos, a quem recorreremos, senão a Jesus Cristo? Cabe aqui refletirmos nos nossos fracassos, porque até do fracasso Deus extraiu a fortaleza. Não foi, então, um fracasso Jesus ter morrido na cruz? Sim, contudo deste fracasso Ele tirou a vitória da ressurreição.

Diante das dificuldades da vida, podemos aprender muito, e diz um sábio ditado popular: “Não existe melhor escola para o caráter que o sofrimento.” Para tanto, devemos encarar estas situações como oportunidades de crescer, amadurecer e adquirir experiência. Obviamente que não se procura pelo sofrimento e nem pelo fracasso, mas, quando acontecem, precisamos encará-los como um momento de rever e reestruturar o interior; então sim Deus está presente, incentivando-nos, renovando-nos, abençoando-nos, para reerguer-nos, e podemos retomar o caminho da felicidade. Quando estamos fracos, tornamo-nos fortes, à medida que acreditamos não ter mais forças humanas. É na graça de Deus que nos fortalecemos, com a força divina. Em contrapartida, quando nos sentimos fortes, orgulhosos de nossas conquistas e achamos que tudo o que temos deva-se unicamente ao próprio esforço, então somos fracos, esquecendo-nos da ação de Deus em nossas vidas. Esperar no Senhor é sempre nossa fortaleza. Assim teremos a graça da ação de Jesus em nós.

Como vimos no Evangelho, Cristo só fazia milagres diante de pessoas que tinham fé. Por este motivo nada fez ante parentes e amigos que não acreditavam na sua condição divina. Desprezando-o, colocaram-se em posição superior, e, por esta razão, considerados “nada” perante Deus. Por outro lado, todo aquele que se coloca em posição de humildade, simplicidade, são os “fortes”, porque Deus sempre está com eles, fortalecendo-os em sua fraqueza.

Outro ponto importante na reflexão do Evangelho é o fato de que Jesus, ao pregar na Sinagoga de Nazaré, seja o espanto e admiração ao povo, que faz três perguntas: “De onde lhe vem esta sabedoria?” Sabendo que Ele nada mais era que um carpinteiro, sem recurso e sem estudo, naturalmente não podia falar com tanta propriedade e sabedoria. “Como pode realizar tantos milagres?” Embora não tivessem presenciado nenhum milagre, já conheciam seus feitos em outros lugares. Para o povo nazareno era incompreensível e inaceitável que alguém do meio deles pudesse ser verdadeiramente Messias, o único que poderia operar milagres.

“Não é este o filho de Maria?” Segundo os costumes da época, referir-se a alguém citando o nome da mãe era sinal de profundo desprezo pela pessoa, visto que a figura da mulher era exatamente ignorada e depreciada. Neste caso, nada podia se esperar do filho de Maria.

Nós, não poucas vezes nos comportamos da mesma maneira quando julgamos as pessoas por preconceito, considerando só as aparências e principalmente a opinião alheia. Cristo foi rejeitado pelos seus próprios familiares, amigos e pessoas próximas, amadas por Ele. Esta falta de fé lhe causa grande admiração.

 As pessoas hoje continuam se admirando ao ouvirem falar de Jesus. E certamente também Cristo frequentemente se admire com a nossa incredulidade.

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