Roteiros homiléticos
Domingo de Ramos – 05/03/2009
1ª Leitura: Is 50,4-7
Salmo: 21
2ª Leitura: Fl 2,6-11
Evangelho: Mc 14,1-15,47
Domingo de Ramos, início da Semana Santa, tempo propício para nos sensibilizarmos, nos aproximarmos mais de Deus e nos tornarmos mais dignos do sofrimento e morte de Nosso Senhor.
O Evangelho de hoje narra a entrada de Jesus em Jerusalém montado num jumentinho, e este é um sinal clássico de que Ele não era aquele Messias esperado pelos Judeus. Os judeus esperavam um Messias que assumiria o trono de Pilatos e de Herodes, e a partir de então seria o rei, banindo o domínio romano e instaurando o poder em Israel.
Tradicionalmente os reis e seus exércitos, ao invadirem as cidades e dominá-las, entravam montados em cavalos de forma majestosa e triunfantes. Jesus, ao contrário, entra montado num jumento, acompanhado de poucas pessoas, sem um exército armado com lanças e espadas, mas seguidores esperançosos de um mundo melhor. E única arma que tinham era o amor. Este gesto tem um significado interessante: quando os primeiros reis – Saul, Davi e Salomão – peregrinavam por Israel, para solidificar o reino, carregavam a Arca da Aliança transportada sobre um jumento. Agora Jesus é a Nova e Eterna Arca da Aliança. Ele é a própria lei. O Salvador, Deus presente que caminha conosco. Montado sobre um jumentinho, mostrando que é humilde, simples e acessível a todos.
Na primeira leitura, o profeta Isaías descreve Jesus como servo sofredor, que foi flagelado e humilhado, permanecendo impassível, porque como Deus e homem, quis sofrer, para conhecer o íntimo do ser humano, com toda sua fraqueza, sofrimentos, tristezas, angústias, aflições e dores. Só assim, conhecendo e experimentando a miséria da humanidade, poderia então resgatá-la.
São Paulo escreve, na 2ª Leitura, que Jesus foi tão humano, que não se apegou à condição divina. Principalmente na hora da cruz, quando poderia ter se aliviado de tanto sofrimento. Porém, se não morresse na cruz, não teria experimentado nossa condição. Prova de que Cristo, na hora da cruz, ficou só na condição humana, são as palavras pronunciadas por Ele: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” A condição divina não morre, porque, se morresse não seria eterna nem perfeita. Jesus morre como homem, e depois ressuscita como divino.
Todos os anos ouvimos a mesma história, relembramos as passagens mais trágicas e sofridas da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, e parece que nos comovemos sempre. Porém depois presenciamos irmãos nossos sendo condenados por uma justiça indecente, que inocenta culpados e culpa inocentes. Quando isto acontece, não nos comovemos. O problema é que não conseguimos perceber que, ao concordamos com esta situação, estamos repetindo exatamente o mesmo gesto da multidão que mais de 2.009 anos atrás condenou Jesus, gritando: “Crucifica-o!”
Continuamos hoje crucificando Jesus que vive na pessoa dos nossos irmãos oprimidos, explorados, injustiçados, sofridos. O curioso é que esta situação, que é real a nossa volta, não nos comove. Estamos tão acostumados com a violência e a insegurança pública, que o sofrimento dos outros não nos atinge e não nos sensibiliza, a não ser quando acontece conosco ou em nosso meio, e então reagimos e fazemos passeatas a favor da paz, contra a insegurança ou mesmo contra a impunidade galopante feita por uma justiça que enxerga muito bem a cor do dinheiro.
Será que Jesus não morreu por eles tanto quanto por mim ou por você? O mundo de hoje está cheio de Pilatos e Herodes, que impunemente julgam e decidem quem deve morrer e quem deve viver. Poderosos articulam matanças em massa e permanecem livres, intocados, protegidos e até amparados, enquanto o pobre não tem o mínimo direito de defesa.
Não é por acaso que celebramos a Páscoa todos os anos, revivendo a paixão e morte de Jesus. Todos os anos, todos os dias, a história se repete, e são milhares os Cristos crucificados, por uma sociedade desigual e injusta.
Outro ponto que favoreceu a condenação de Jesus foi a ameaça aos privilégios dos sacerdotes e poderosos da época, pois qualquer outra religião diferente do Judaísmo afastaria os frequentadores do templo, e, consequentemente, a oferta de riquezas e tesouros.
Jesus foi um revolucionário do modo religioso daquela época, e o é de hoje também. Nós devemos nos deixar revolucionar por Ele. Muitas vezes, se somos a favor da morte, aprovando a guerra, o aborto, a pena de morte, é porque ainda não conhecemos Jesus. Deus ofereceu-se para morrer numa cruz por todos, para que mais nenhum ser humano fosse condenado à morte. Infelizmente, em pleno século 21, preferimos ignorá-lo, e continuamos gritando: “Crucifica-o!”
As celebrações da Páscoa comovem-nos. Entretanto, não nos emocionam as imagens de violência contra a vida a que diariamente assistimos pela televisão.
Para poder conhecer Jesus, precisamos fazer uma experiência íntima, pois só ama quem realmente se conhece, e Ele está presente na pessoa de cada irmão.
Se O conhecemos, gritamos: “Hosana hei! Salva-nos!”