Reflexões sobre a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate

Reflexões sobre a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate

Por Pe. Maurício da Silva Jardim

A vocação à santidade pode parecer distante de nossa vida e atuação missionária. O papa Francisco responde a essa questão ao nos presentear, em abril de 2018, com a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (Alegrai-vos e Exultai), recordando que o chamado à santidade no mundo atual é para todos e todas. Não é um privilégio para poucos, mas ela é o encontro da nossa fragilidade com a força da graça divina dada no batismo.

O objetivo do Papa nessa Exortação Apostólica é “fazer ressoar mais uma vez o chamado à santidade, procurando encarná-la no contexto atual, com os seus riscos, desafios e oportunidades” (GE,2). A Exortação oferece uma visão realista do que é ser santo. Vemos ao longo da história e nos seus diferentes contextos, que o acento no modelo de santidade foi diverso. Contudo, são perceptíveis alguns critérios em comum, tais como, “nos processos de beatificação e canonização, tomam-se em consideração os sinais de heroicidade na prática das virtudes, o sacrifício da vida no martírio e também os casos em que se verificou um oferecimento da própria vida pelos outros, mantido até a morte” (Cfe. GE,5).

A santidade não é privilégio de um grupo, de uma elite eclesial. Ser santo não significa revirar os olhos em êxtase ou fugir dos problemas reais do cotidiano. “Cada pessoa responde essa vocação batismal fazendo seu próprio caminho inspirado por Deus. O importante é que cada pessoa entenda o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo” (Cfe.GE,11). Esse percurso não é realizado de forma isolada, mas comunitária, pois Deus quer salvar a todos.

“Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso” (GE,14) “Para um cristão, não é possível imaginar a própria missão na terra, sem a conceber como um caminho à santidade, porque a ‘vontade de Deus é que sejais santos’ (1Ts4,3)”. Cada santo é uma missão (GE, 19). Essa missão só adquire pleno sentido e só pode ser compreendida em Cristo.

A santidade não pode ser confundida como afastamento do mundo. “Não é saudável amar o silêncio e esquivar-se do encontro com o outro, desejar o repouso e rejeitar a atividade, buscar a oração e menosprezar o serviço” (GE,26). O santo e a santa vivem de forma integrada. É um contemplativo no meio do mundo. Reza e trabalha. Busca vida intensa de oração, sem menosprezar o serviço. Às vezes somos tentados a abandonar o serviço pastoral como se fosse uma distração no caminho da santificação. Esquecemo-nos disto: “não é que a vida tenha uma missão, mas a vida é uma missão”(GE,27). Somos uma missão de Deus no mundo.

A Exortação Apostólica aponta dois inimigos da santidade: o gnosticismo e pelagianismo. São duas formas de segurança doutrinária ou disciplinar, que dão origem a um elitismo narcisista e autoritário. No gnosticismo a pessoa fica amarrada à própria razão ou sentimentos. Graças a Deus, ao longo da história da Igreja, ficou bem claro que aquilo que mede a perfeição das pessoas é o seu grau de caridade, e não a quantidade de dados e conhecimentos que possam acumular (Cfe.GE,35-37). No pelagianismo se enaltecem, no lugar do mistério e da graça, a vontade humana e o esforço pessoal. É uma ideologia sutil que nos rouba a abertura para a ação discreta e contínua da graça divina.

Infelizmente muitos cristãos deixaram-se seduzir pelo gnosticismo e o pelagianismo, duas heresias enganadoras nas quais Jesus Cristo e povo de Deus não os interessam verdadeiramente. Uma saída para essas tentações é o acolhimento livre e humilde da graça em nós. A primeira coisa é pertencer a Deus. Trata-se de se oferecer a Ele cada dia, a Ele que nos antecipa com sua graça. Somos cooperadores de sua missão.

“É um erro suspeitar do compromisso social dos outros, considerando-o algo de superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista. (…) A defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada. Mas igualmente sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura, e em todas as formas de descarte. Não podemos propor um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem a sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo em que outros se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente” (GE,101). Considerar estes temas como secundários não é ser cristão.

O Papa Francisco insiste na necessidade da santidade em todos os âmbitos, inclusive nas redes: “Pode acontecer que os cristãos façam parte de redes de violência verbal da internet e vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital. Mesmo na mídia católica é possível ultrapassar os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia, excluindo a ética e respeito da reputação alheia” (GE,115). Procura-se compensar as insatisfações descarregando furiosamente os desejos de vingança. Ao ignorar o oitavo mandamento: ‘Não levantar falsos testemunhos’, destrói-se sem piedade a imagem alheia.

Não tenhamos medo de um estilo de vida que aponte para o alto e que caminhe na contramão da cultura dominante. Deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo nesta aventura de, a cada dia, estarmos à disposição de Deus e colaborarmos com sua obra de salvação.

*Diretor Nacional das POM

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