Missão – Evangelização
Pe. Elmo Heck
Missão1. Os Fundamentos da Missão
O Antigo Testamento está fundamentado na escolha de Deus de um povo como nação e propriedade sua: “Vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Ex 19,6). Neste contexto, santidade significa separação. Numerosas leis em Israel têm por objetivo impedir a contaminação do povo eleito com as influências das nações pagãs. Também a fé javista conhece essa situação e apóia a santidade, tornando os hassidins, os separados, uma instituição conhecida como fariseus.
Israel nunca foi dado à ação missionária, porque dentro do Antigo Testamento a questão era radical, e não havia lugar dentro do Judaísmo para os nascidos fora de Judá. Depois do exílio, muitos estrangeiros, principalmente mulheres, foram expulsas da religião e do país. Nos textos bíblicos mais antigos, como no Pentateuco, há alguns indícios de incluir todas as famílias na bênção de Abraão, muito vagamente, não como Missão. Já os profetas revelam um messianismo expansivo a outras nações, porém sem uma ordem clara para tal.
Foi necessário esperar o terceiro século antes de Cristo, para se ter as primeiras noções de Missão, mas ainda de modo vago, porque é o proselitismo que prevalece no Judaísmo. Os judeus de língua grega aderiram ao Judaísmo, abrindo as porta aos tementes de Deus e aos propriamente chamados prosélitos. Quando veio a tradução da Bíblia do hebraico para o grego (a dos Setenta), permite-se de fato aos pagãos procurar maior proximidade espiritual e apreciar mais os valores do monoteísmo moral de Israel.
Jesus é apresentado pelos evangelhos como enviado apenas para os judeus: “Eu fui mandado somente para as ovelhas perdidas do povo de Israel” (Mt 15,24). Em linhas gerais, Ele não limitou o seu ministério apenas aos nascidos judeus, não impedia os pagãos de se aproximar, e até mesmo se admirou pela fé do oficial romano, superior à dos filhos de Israel (Mt 8,10-12). Quando escolheu os doze Apóstolos, prefigurou o novo Israel, o novo povo escolhido. A primeira Missão dos Apóstolos teve como palco os vilarejos da Galileia (Mc 6,6-13). Durante a vida terrena de Jesus, não faltaram sinais da universalidade do seu anúncio e de sua Missão, porém foi necessário esperar os primeiros anos da vida eclesial, quando os helenizados ousaram anunciar o evangelho aos não judeus (At 11,20). Paulo empreendeu uma luta árdua, para que os pagãos tivessem acesso ao Evangelho sem passar pela circuncisão.
Como explicar esta resistência à Missão, ou esta lentidão de tomada de consciência da urgência do anúncio? A última ordem dada por Cristo aos Apóstolos depois da ressurreição, em Mt 28,16-20, deixa claro o mandado permanente dos seguidores de então e de hoje. No início Jesus mesmo apresentou-se como o enviado do Pai e revelou o amor ilimitado de Deus pelos pecadores. Ressuscitado, ele mandou os seus Apóstolos como ele mesmo foi mandado (Jo 20,21). Mas esta ordem de Missão não resolveu o problema da respectiva posição de Israel e da Igreja. A Paulo coube a Missão não só de levar aos pagãos o impulso decisivo, mas de fundamentar teologicamente a inclusão deles no seio da Igreja, o novo Israel. Ao contrário dos judaizantes, que consideravam a Lei hebraica válida para sempre, Paulo afirma que a bênção de Abraão passava a ser válida para as nações por meio de Cristo, verdadeira herança dos patriarcas (Gl 3, 6-16); pois a ressurreição assinala a profunda transformação da “nova criação”. Já não existe um muro de separação entre judeus e gentios (Ef 2,14). A Missão deriva, portanto, unicamente de Cristo, na História da Salvação: “Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem que se entregou para resgatar a todos. Esse é o testemunho dado nos tempos estabelecidos por Deus” (1Tm 2,5-6). Afinal, o que torna urgente a Missão é a superabundância do amor de Cristo (2Cor 5,14). “Anunciar o Evangelho não é título de glória para mim; pelo contrário, é uma necessidade que me foi imposta. Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16).
2. A Missão e a Igreja
A Missão toca a todos, e é compromisso de toda Igreja: ensinamentos, culto, sacramentos; direção espiritual, também as ditas “pastorais”, tudo é processo missionário, mas não no seu sentido amplo do mandado pleno de Cristo: “Ide pelo mundo todo, e pregai o Evangelho.” O imperativo está no sentido de nunca parar, e achar que todos estão convertidos e na Igreja. A primeira entre todas as funções da Igreja é anunciar a fé a todos que ainda não ouviram a Boa-Nova, o próprio Cristo.
O que é preciso para que o primeiro mandado e anúncio sejam cumpridos? É uma pergunta difícil, que a Missão tem diante de si. Cabe à Teologia missionária o desafio de tentar dar respostas, mesmo que ainda não plena e satisfatória em nenhum tempo; porém, em cada época cabe sempre o mandado de Cristo. Talvez a culpa não seja de ninguém, porque muitos o ouviram, sem o escutar; outros, o receberam, sem o reter no coração; outros, ainda, o estudaram, sem o entender...
Todavia, nos primeiros dezesseis séculos, não se usava o termo missão para designar especificamente este primeiro anúncio e o seu conteúdo. Falava-se de “promulgação do Evangelho” ou de “Evangelho” (no sentido em que no grego significa também evangelização: Gl 2,7; Rm 15,19; Fl 4,15), de “ministério da Palavra”, “pregação”, “iluminação dos gentios”, “procurar a salvação para as nações”, “propagação da fé”, etc. A Missão da Igreja compreendia toda a função que essa tinha herdado de Cristo e dos Apóstolos. De que modo a palavra missão chegou ao significado específico de primeiro anúncio do Evangelho aos países que ainda não o receberam? A resposta será dada pela história da Igreja.
Nos primeiros séculos, o fervor dos cristãos era comunicado. O Evangelho difundiu-se pelo contágio espiritual, sem um “projeto” preliminar: a Missão nestoriana exigiu que Gregório Magno Santo Agostinho de Canterbury e São Bonifácio fossem enviados pela Santa Sé aos saxões da Inglaterra e aos povos germânicos, respectivamente.
Mas foi a partir do século 13, com as assim chamadas “missões” francesas e dominicanas em Khan, na Mongólia, que a evangelização se desenvolveu de modo mais orgânico e sistemático, surgindo as primeiras congregações com carisma específico da Missão “ad gentes”. No entanto, não se separavam dos outros encargos e funções da Igreja, e a Missão não tinha uma condição autônoma.
A situação muda radicalmente depois de 1493. A Índia, as Américas e a bases portuguesas em Goa, Malaca e Macau são conquistadas, e com essas conquistas chegou também a evangelização, e ela se torna uma ação especializada, autônoma, que foi confiada aos reis católicos pelo Papa Alessandro VI; é o privilégio do patronato. As ordens religiosas constituem os arautos escolhidos para essa aventura missionária: entre elas, franciscanos, dominicanos, agostinianos... Mais tarde, os jesuítas, os mais numerosos.
Naquela época, paralelamente à evangelização em terras distantes, esboça-se uma espécie de mística da obediência, ou, como se começou a dizer, da Missão. A palavra, depois de dois séculos (no ano 1622, a atual Congregação para Evangelização dos Povos, fundada por Gregório XV, ainda se chamava Congregação da Propagação da Fé, e não das Missões), adquirirá o significado específico do envio aos países distantes ainda pagãos. Isso ocorre nos séculos 16 e 17, com os conquistadores e exploradores. O termo missão é então retomado pela hierarquia eclesiástica do sentido corrente, que se encontrava nas expressões: missão diplomática, militar ou cultural. Nada de mistério, no sentido paulino deste termo. É a Europa que organiza esses envios, e não manda “ao mundo” (no sentido joanino de 1Jo 2,15-17), mas aos países dos outros continentes, que serão chamados “de Missão”. No âmbito da função eclesial, a evangelização nos territórios ainda pouco penetrados, chamada “missão”, sobretudo a partir do fim do século 18, tornou-se um compromisso separado dos outros pontos da Santa Sé, a qual a retoma, tirando-a dos reis católicos, e a reserva para si. Os bispos não devem se ocupar disto (CIC de 1917, Cân. 1350, § 2). O próprio Dicastério da Missão irá se ocupar de mandar os missionários, em nome dos sucessores dos Apóstolos (o Papa). A Missão mais tarde será uma de estudo disciplina específica: Missiologia, Missionografia, etc.
Os acontecimentos, todavia, levam a uma série de tomadas de consciência, que no final encontram expressão no Decreto do Concilio Vaticano II sobre a atividade missionária da Igreja, Ad Gentes (1965). O Concílio Vaticano II oficializa os laços entre Missão divina e aquela evangelização iniciada na aurora do século 16. É bom lembra que não é a Europa que manda missionários, mas Deus mesmo (e a Igreja de seu Filho), que está em todos os lugares. No Sínodo sobre a Evangelização, de 1974, a Europa, convocada como os outros continentes, paradoxalmente sente mais que os outros a urgência de uma Nova Evangelização dentro dela mesma. A “Missão”, reinventada depois do Concílio Vaticano II, é compromisso do colegiado de bispos, reintegra conjuntamente as funções confiadas a Cristo e à sua Igreja. A “Missão da Igreja” está seja na catequese, nos sacramentos, no cuidado pastoral, seja no primeiro anúncio da mensagem da Salvação... Deve estar em todas as funções, gestos e palavras da Igreja.
Evangelização
Este termo deriva do Novo Testamento, evangelho e evangelizar, uma palavra relativamente recente, que não expressa uma ação única e exclusiva. Vejamos.
1. Evangelho
1.1. Os diversos termos gregos
O substantivo grego euaggelion significa remuneração para quem traz uma boa notícia, como também a própria boa notícia. Nesse sentido encontram-se algumas vezes nos LXX (2Rs 4,10; 18,22,25); onde não tem sentido religioso. Isso já não se pode dizer do verbo euaggelizein (euaggelizesqai; hebr. basser), que, sobretudo em Is 40-66, significa a mensagem da salvação escatológica (40,9;52,7; 60,6; 61,1; cf. Sl 96,2).
Devido o uso repetido, faz que a palavra evangelho tenha perdido um pouco o verdadeiro significado. O Evangelho é a base, o centro, o fundamento do Novo Testamento.
a) A palavra hebraica Bassar tem o significado levar uma boa e alegre notícia, a vitória sobre o inimigo.
b) Mabasser chama-se a pessoa do bassar. Cf. 2Sm 4,10.
c) Bessorah significa notícias – notícia boa (2Rs 7,9) –, recompensa do trabalho feito, que o mabasser fez (2Rs 4,10).
Na Bíblia grega (Septuaginta), usa-se o termo euaggelion, tomando o prefixo eu, que significa bom, bem e boa. Portando euaggelion significa boa-nova, boa-notícia, bom-anúncio, etc., lembrando que este substantivo sempre era usado para anunciar a vitória sobre o inimigo.
A partir do Dêutero-Isaías 40-66, euaggelion significa a salvação futura, isto é, tem um significado religioso, escatológico. Primeiramente tinha o valor de anunciar uma vitória nos combates guerreiros. Em Isaías toma um novo sentido, o ato de proclamar a Boa-Nova da Salvação, mas uma salvação futura, Salvação Messiânica.
No Judaísmo tardio, surge no povo de Israel a consciência de que, onde reina a soberania de Deus, não há mais lugar para os outros deuses. Portanto, a fidelidade trará a boa-nova, que é prometida como salvação messiânica para o futuro.
Deus é proclamado o Senhor, e o seu programa é a justiça, a verdade, os prodígios, a boa novidade para os injustiçados, marginalizados e doentes.
No Antigo Testamento, os profetas ocupam um espaço considerável, foram eles que anunciaram a obra da Salvação de Deus no meio do povo. São os profetas que anunciaram a boa-notícia da futura instalação, de forma definitiva, da Salvação messiânica na história da humanidade.
1.2. O significado do Evangelho em grego
Na Igreja primitiva, evangelho não designava um livro, mas a boa-nova da Salvação messiânica, ou seja, a mensagem da Salvação.
No Antigo Testamento, esta boa-nova é a salvação futura, segundo Isaías. Mas no Novo Testamento esta salvação já é uma constatação, ou seja, já está consumada, já é concreta.
O verbo evangelizar e o termo evangelho:
Mt: 1 vezes;
Mc: 8 vezes;
Lc: 10 vezes;
Mt: 4 vezes;
At: 15 vezes;
Lc: 2 vezes;
Cartas Paulinas: 1 vez;
Paulo: 52 vezes;
Hb: 3 vezes;
1Pd: 1 vez;
2Pd: 1 vez;
Ap: 3 vezes.
Nos escritos joaninos não aparecem os termos acima citados. Mas são substituídos por outras palavras: testemunhar e testemunho.
No início se usava muito evangelizar e evangelho, mas aos poucos foram sendo substituídos pelos termos joaninos.
Para São Paulo, o Evangelho é algo vital e dinâmico. O Evangelho vai além da notícia, é a força que salva:
Força que salva (Rm).
O Evangelho gera nova vida: recebido, torna-se uma força operante na pessoa (1Cor 4,15).
Para Paulo, receber o Evangelho não é a mesma coisa que receber uma notícia, mas é aderir à ação de Deus que atua na história. Por isto o Evangelho se difunde não só por palavras, mas por testemunho (Rm 1,18).
Em Gálatas 1,6, Paulo afirma a existência de um só Evangelho.
O Evangelho não é palavra humana: é Palavra de Deus (1Pd 1,12).
Resumindo, podemos dizer que o Evangelho é um ato de pregar que tem nesta pregação Deus como princípio e fim. O conteúdo desta pregação está em 1Cor 15,1ss.
Somente Marcos usa o termo Evangelho como título. O Evangelho não é uma criação do Cristianismo, foi no contexto da Era Apostólica que a palavra evangelho adquiriu significado religioso.
No Novo Testamento, evangelho é antes de tudo a própria pregação de Cristo. O Evangelho é a vida de Cristo vivida e pregada. O Evangelho primeiro foi vivido, e depois escrito. São Justino dá-nos esta compreensão, ou seja, o Evangelho, antes de ser um livro, foi palavra; antes de ser escrito, ele foi pregado; antes de ser lido, ele foi ouvido.
O uso recente de evangelização fala também de apostolado, de Missão, de propagação da fé, do ministério da Palavra. No ano de 1967, a Sagrada Congregação de Propaganda Fide, fundada no ano 1622, recebe o novo nome de Congregação para a Evangelização dos Povos. Na linguagem corrente, a evangelização é o anúncio do Evangelho e os seus efeitos. Falando em evangelização dos eslavos por parte dos santos Cirilo e Metódio, entende-se – juntamente com a mensagem, os pregadores, os destinatários – um processo complexo de palavras e de exemplos, de influência e de convicção, de relacionamento humano e da graça divina e, por fim, os resultados.
Na linguagem teológica moderna, o termo pôde ser reservado ao primeiro anúncio do Evangelho a quem ainda não o tenha ouvido: seria, portanto, a proclamação (o querigma) de Jesus Cristo de modo global e existencial, um modo de interpelar que provoca no ouvinte uma convicção interior, uma primeira etapa, que normalmente deve ser continuada, para que o convertido possa receber, mediante uma pregação mais aprofundada, assimilando cada vez mais, a fé.
Será a catequese com a iniciação sacramental, que tornará membro em plenitude da comunidade eclesial, para que seja inserido plenamente na atividade da comunidade, particularmente como testemunha da Palavra, tornando-se sujeito e objeto da evangelização. Há a tendência de falar de evangelização como primeira etapa, como momento histórico que tem princípio e fim. Contudo se constata que a comunicação e a recepção do Evangelho jamais se concluem plenamente para a pessoa, para as instituições, para a sociedade. Assim, Paulo VI pôde dizer que a evangelização é “a graça e a vocação da própria Igreja, a sua identidade mais profunda. Ela existe para evangelizar, para pregar e ensinar, ser o canal do dom da graça, reconciliar os pecadores com Deus, perpetuar o sacrifício do Cristo na Eucaristia, que é memorial da sua morte e da sua gloriosa ressurreição” (Paulo VI, Evangelii Nuntiandi, 1975, n° 14).
A evangelização tem aspectos bem diferentes segundo a época e o lugar sociológico onde ela acontece. Distinguimos diferentes fases.
O primeiro evangelizador é o próprio Jesus de Nazaré, profeta potente em obras e palavras (Lc 24,19). Ele passava fazendo o bem (At 10,38) e “pregando o Evangelho de Deus, dizia: “O tempo completou-se e o Reino de Deus está próximo; convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). O Evangelho anuncia um acontecimento: o Reino de Deus está próximo. Mas Jesus insere a sua palavra na tradição dos Profetas, volta-se para o povo, sustentado por um grande esperança (Is 40,3; 52,7), do qual João Batista é a testemunha mais próxima. A Boa-Nova anunciada por Jesus tem como seus primeiros destinatários os pobres: “Voltem e contem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa-Notícia” (Mt 11,4-5). Esta primeira evangelização leva Jesus à morte, e os discípulos ficam desorientados, até quando Jesus ressuscita e aparece aos Apóstolos e lhes diz: “Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa-Notícia a toda a humanidade” (Mc 16,15).
Começa então, na ausência de Cristo visível, uma segunda fase, por meio do testemunho do Ressuscitado. Mudados pela infusão do Espírito, os Apóstolos proclamam diante dos judeus: “Deus ressuscitou este Jesus. E nós todos somos testemunhas disto. Ele foi exaltado à direita de Deus, recebeu do Pai o Espírito prometido e o derramou: é o que vocês estão vendo e ouvindo.” Pedro respondeu: “Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo, para o perdão dos pecados; depois vocês receberão do Pai o dom do Espírito Santo” (At 2,32-33.38). Jesus anunciador tornou-se Jesus anunciado. A Boa-Nova não é somente Jesus em si mesmo; o evento é Jesus crucificado, Senhor, Filho de Deus-Salvador. Então a assembléia de fiéis é constituída, no fervor do Espírito, na retidão dos corações, na esperança da Parusia iminente, sob a orientação dos Apóstolos e seus colaboradores. São Paulo escreve a Timóteo: “Proclame a Palavra, insista no tempo oportuno e inoportuno... Faça o trabalho de um anunciador do Evangelho, realize plenamente o seu ministério” (2Tm 4,2.5).
Os fiéis aumentam em número, em extensão, e assim se colocaram os pontos doutrinais, éticos, disciplinares e sacramentais. Com a mortes das testemunhas diretas, passamos à terceira fase da evangelização. Começa a perseguição sangrenta e as lutas pela “custódia do depósito”, do Evangelho e da Igreja que se desenvolvem em todo mundo. Por obra de leigos, monges, clérigos e outros, mais tarde evangelizam toda a Europa, a Ásia Menor, a África do Norte, o mundo mediterrâneo e muitos bárbaros.
Essa fase de expansão leva à fase da cristandade (quarta fase). Surge uma aérea geográfica unificada pelo Batismo, ratificando-se uma única civilização. A fé não foi conquistando tanto pela proclamação específica do Evangelho, quanto pela educação familiar e a infusão no ambiente cultural e social das benesses do Cristianismo. “A Igreja, inspirada por Deus”, diz Bossuet, “e instruída pelos santos Apóstolos, organizou-se de modo tal, que junto com a vida, o verdadeiro fruto de todas estas coisas reside nas virtudes dos seus maravilhosos servidores e nos exemplos dos seus santos”.
Muitos traumas foram produzidos na Igreja quando os pastores se acomodaram e diante dos muitos golpes, de diferentes fatores (o grande cisma, guerras religiosas, racionalismo, cientificismo, laicismo, industrialização, secularização...). Não só muitos batizados não são instruídos, mas não são sequer convertidos. Pode-se falar de uma quinta fase, a pós-cristã, quando aqueles que pouco tempo antes eram os “fiéis” se afastam da Igreja e do Evangelho que é a porta. A grande preocupação hoje é: como anunciar o Evangelho de Jesus Cristo? A resposta significativa para isto quem dá é o Concílio Vaticano II, o Sínodo dos Bispos de 1974 e a Exortação de Paulo VI sobre a evangelização do mundo moderno (Evangelii Nuntiandi, 1975).
Mas devemos observar que, neste tempo, a fase de expansão (uma vez que o Cristianismo se instalou na Europa) continua em franca expansão nos outros continentes, fora da esfera cultural greco-romana. A evangelização encontra, portanto, novos desafios e problemas, coincidindo com a expansão colonial do Ocidente (séculos 15 ao 20). Neste período a evangelização se encontra travada pela interferência política dominadora. Encontra religiões milenares, como o Budismo, o Hinduísmo, o Islamismo, o Confucionismo, e outras que se desenvolveram em determinadas áreas político-culturais e apresentam as mesmas características absolutistas do Cristianismo. Encontram também inúmeras etnias e sociedades de diferentes tipos e graus sociais, que são agredidas e desestruturadas pela irrupção dos europeus, enquanto as Missões as forçam a sair de suas particularidades culturais, para entrar na Igreja.
2. A Evangelização atual
A Evangelização como compromisso eclesial reflete a consciência, a angústia e a esperança, tanto dos fiéis quanto dos pastores. Em primeiro lugar, os pais têm dificuldade de transmitir aos seus filhos o que receberam; em segundo lugar, constata-se que a prática religiosa diminuiu, isso é percebido pela falta de vocações sacerdotais e religiosas no mundo mais secularizado. Por isto a Igreja é “impelida com todo esforço em direção da difusão do Evangelho a todos os homens” (Evangellii Nuntiandi, n° 2).
Teologicamente a Igreja é consciente de que isto é o seu dever e sua razão de ser: “Ide... e ensinai todas as nações” (Mt 28,19). A Igreja sabe que a evangelização é essencial. Ela deseja e reclama a liberdade de evangelizar e protege esse dever até o fim de sua existência. Ao mesmo tempo, evangeliza a si mesmo, porque o contratestemunho do poder, da riqueza, da convivência com os grandes deste mundo é um perigo sempre presente. Tendo fé em Jesus, Filho de Deus, único Salvador dos homens e do cosmo, a Igreja sabe que Deus cumpre a sua obra de Salvação mediante a evangelização e que o Espírito Santo opera em cada pessoa, para abrir o coração á Palavra de Deus. Mas o que se deve dizer para que tenha sentido Jesus Cristo e Jesus crucificado nos dias de hoje? O que se deve dizer para conservar o santo depósito da Fé e andar ao encontro da atual esperança dos povos? Hoje a evangelização encontra a sua modalidade própria, ligando o Evangelho à busca da justiça, da paz, à exigência da libertação e promoção humana, sustentando o direito da pessoa contra a corrupção, defendendo os oprimidos e todos os sem-voz e sem-vez.
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1Verbete Evangelho – Dicionário Enciclopédico da Bíblia.