Sacerdote: Homem de Espiritualidade Missionária
Pe. Elmo Heck
Em 19 de junho, o Papa dará início um Ano Sacerdotal. Na Assembléia Nacional dos Bispos do Brasil desde ano, os bispos trataram do assunto com mais empenho, tendo presentes os desafios que os sacerdotes enfrentam diariamente, e, com olhar mais realista, perceberam também os anseios, os medos, as inseguranças pessoais de cada padre. Não deixaram de contemplar a realidade da formação sacerdotal nos seminários e nas faculdades teológicas. Há grande preocupação com a formação intelectual, humana, pastoral e afetiva do presbítero, que se consagra ao sacerdócio, para dedicar sua vida a favor de Cristo nos irmãos. O sacerdote é alguém que dá a vida a Cristo, servindo-O nos irmãos, porque, só assim, será irmão de Cristo e pai espiritual do Povo de Deus.
O Apóstolo Paulo escreve aos Coríntios, dizendo: “Encorajai-vos, tende o mesmo sentir e pensar, vivei em paz” (2Cor 13,11). A exortação de Paulo é uma palavra “sacramental” para a pastoral presbiteral.
É na missão sacerdotal que o sacerdote cumpre o mandato de Cristo: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa-Nova a toda criatura!” (Mc 16,15). A Igreja tem um grande desafio na formação do sacerdote missionário no século 21, diante dos problemas da globalização e da nova religião, o mercado. A religião virou mercado. Isto traz bastante dificuldade para a inserção do missionário neste mundo que privilegia o sucesso, os bens materiais, a fama e o hedonismo. Apresentar outro modo de vida trazido pelo Evangelho de Cristo nunca foi tão difícil. Karl Rahner dizia que o “sacerdote e o cristão no século 21 ou têm profunda espiritualidade ou não serão nada”.
A Igreja de Cristo tornou-se herdeira das promessas do antigo povo de Deus. Deus manifestava a sua Glória aos homens no tabernáculo e, mais tarde, no templo de Salomão. Agora, a Igreja é o verdadeiro santuário de Deus! É nela, e por meio dela, que os homens devem ver a Glória de Deus. Tem a missão que antes era da nação de Israel: “Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Ex 19,6). E Pedro afirma: “Mas vós sois a povo escolhido, o sacerdócio régio, a nação santa, o povo que ele conquistou, a fim de que proclameis os grandes feitos daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa” (1Pd 2,9).
No seu solene mandato, Jesus ordena que sejamos missionários, ordena que a Igreja seja missionária. Também o sacerdote é chamado, seja qual for a sua congregação, mesmo o padre diocesano, a ser na Igreja pastor a serviço do projeto missionário de Cristo. É o caso de perguntar: como Igreja, como pastores, temos uma espiritualidade verdadeira em relação à Missão?
Muitas vezes, a miopia missionária tem-nos feito enxergar somente nossas próprias necessidades e problemas. Nossos sonhos são egoístas e não amamos suficientemente as pessoas perdidas em dilemas neste mundo sem valores. Se for assim, vivemos em crise, sem uma espiritualidade integralizadora e missionária. Mas é sempre tempo de conversão!
Somos pastores na Igreja, chamados a “representar”, em modo sacramental, Cristo Mestre, Sacerdote, Cabeça e Pastor da Igreja, imitando sua atitude de serviço para o Pai e para a humanidade (PDV 43). Somos chamados por Deus para dar furtos abundantes e que permanecem (15,1-10).
Espiritualidade Missionária
A primeira carta de São Pedro, 2,6-10, afirma aos sacerdotes e aos cristãos:
“Aproximem-se do Senhor, a pedra viva rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus. Do mesmo modo, vocês também, como pedras vivas, vão entrando na construção do templo espiritual, e formando um sacerdócio santo, destinado a oferecer sacrifícios espirituais, que Deus aceita por meio de Jesus Cristo. (...) Vocês, porém, a raça eleita, sacerdócio régio, nação santa, povo adquirido por Deus, para proclamar as obras maravilhosas daquele que chamou vocês das trevas para a sua luz maravilhosa. Vocês que antes não eram povo, agora são povo de Deus; vocês que não tinham alcançado misericórdia, mas agora alcançaram misericórdia.”
A Igreja de Cristo tornou-se herdeira das promessas do antigo povo de Deus. Deus manifestava a sua Glória aos homens no tabernáculo e, mais tarde, no templo de Salomão. Agora, a Igreja é o verdadeiro santuário de Deus! É nela, e através dela, que os homens podem ver a Glória de Deus. Tem a missão que antes era da nação de Israel: Ex 19,6: “Vocês são um povo separado somente para mim e me servirão como sacerdote...”. 1Pd 2.9: “Mas vocês são a raça escolhida, os sacerdotes do rei, a nação completamente dedicada a Deus, o povo que pertence a ele. Vocês foram escolhidos para anunciar os atos poderosos de Deus, que os chamou da escuridão para a sua maravilhosa luz.”
“Portanto, ide e fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho mandado...” (Mt 28,19-20). Este é grande mandato, em que Jesus ordena que sejamos missionários, ordena que a igreja seja missionária, ordena também ao sacerdote, seja qual for sua congregação, ou mesmo diocesano, porque, se não for assim, a Igreja e os seus pastores estarão fora do projeto missionário de Cristo. Podemos identificar se, como Igreja, como pastores, temos uma espiritualidade verdadeira, ao olharmos para nossa posição em relação às Missões?
Pastoralmente, apenas seguimos a conservação dos grupos existentes, e não somos uma Igreja com pastoral missionária. Não poucas vezes, isto implica na acomodação dos pastores diante de desafios assumidos também pela comunidade, quando não, a centralização pastoral do padre pode ser também a causa de uma paróquia apenas de sacramentalização. Outros tantos sacerdotes então sobrecarregados com muitas funções e com paróquias extensas. O cansaço e a vida estressante atrapalham muitíssimo a espiritualidade sacerdotal, e o que dizer então da espiritualidade missionária?
Esta crise de espiritualidade missionária está intimamente ligada a outras duas crises que também existem na Igreja contemporânea:
O Crescimento Espiritual do Sacerdote
Para crescer é necessário esforçar-se para sermos pastores à altura, segundo o espírito e o estilo de Jesus, Bom Pastor (PDV 73): é um compromisso de conversão e um esforço permanente de renovação. São Paulo dirige palavras a Timóteo, dizendo: “Por este motivo, convido-o a reavivar o dom de Deus que está em você pela imposição de minhas mãos” (2Tm 1,6). Crescer convida-nos a uma profunda amizade com Cristo, uma verdadeira experiência de comunhão de vida e de amor com o Bom Pastor, para chegar à altura de que Paulo fala em Efésios: “A meta é que todos juntos nos encontremos unidos na mesma fé e no conhecimento do Filho de Deus, para chegarmos a ser o homem perfeito que, na maturidade do seu desenvolvimento, é a plenitude de Cristo” (Ef 4,13). Crescer ainda nos exige encarnar, em nosso ser e em nosso agir, a caridade pastoral de Cristo, para dar frutos bons e novos. Crescer consiste, também, em buscar os meios, os instrumentos adequados, as habilidades pastorais adequadas, para responder às exigências de nosso ministério no mundo de hoje.
Crescer é possível, se há comunhão. Estamos a serviço da comunhão eclesial e fraterna. Somos chamados, com o oferecimento de nosso testemunho de vida, a ajudar outros a sair do próprio individualismo e egoísmo. Nossa vida e ministério são, então, um compromisso profundo de relação com Jesus.
Temos vários meios para crescer. A fonte de todas as motivações, a finalidade e a energia vital, é a unção do Espírito Santo e a configuração a Cristo-Sacerdote pelo especial caráter recebido (PO 2). Por isto São Paulo nos chama a “reavivar” os dons da comunhão com o Bom Pastor. O reavivar abre-nos à escuta constante da Palavra de Deus, a conhecer o homem e o mundo de hoje, para amá-lo e levá-lo a Cristo, para ampliar os nossos recursos interiores e a capacidade de nossos irmãos pastores e dos colaboradores pastorais. Cada um, portanto, foi chamado a crescer para o bem de todo o corpo eclesial.
Um Caminho Compartilhado
A oração faz-nos crescer no caminho compartilhado, porque haverá a escuta da Palavra de Deus (ministério da Palavra) na celebração dos sacramentos, sobretudo, na Eucaristia (ministério de santificação), na vida segundo as exigências da caridade pastoral (ministério da condução da comunidade e da comunhão), na atualização para se ter a habilidade pastoral adequada, os elementos e os conteúdos científicos suficientes para a Missão no mundo de hoje (PDV 53).
Temos de levar adiante, de maneira complementar e interdependente, as quatro dimensões da formação sacerdotal (humana, espiritual, intelectual e pastoral (PDV, 43-59.71-72). Neste processo, nosso ministério é o meio mais forte. A bela imagem do ministro ordenado, como pastor que cuida o rebanho, será, então, maravilhosamente completada com outras imagens de Jesus Cristo, como a do semeador, ou a do pescador, que põe em evidência nossa missão de anunciar o Evangelho a todos os homens e mulheres.
Somos Pastores para o Povo de Deus
A Carta aos Hebreus ensina-nos que Jesus Cristo é o único sumo sacerdote da Nova Aliança, que se ofereceu uma vez para sempre, o único sacrifício eficaz, oferecendo-se a si mesmo (Hb 7,26-28; Hb 9,11-10.18); ele é o sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque (Hb 5,6;7,17). Na Exortação Apostólica Pastores Dabo Vobis, o Papa João Paulo II propõe de novo este ensinamento (PDV 12-13), agregando que Cristo é o Bom Pastor que conhece suas ovelhas uma por uma e oferece a vida por elas (Jo 10,11-16), e assim é um chefe a serviço (Jo 13,1-20).
A Pastores Dabo Vobis situa nossa identidade no interior da Igreja-mistério, comunhão e Missão (PDV 12). Somos homens do mistério, porque estamos inseridos na comunhão trinitária e configurados a Cristo-Cabeça e Bom Pastor. Somos homens da comunhão, porque somos chamados a ser construtores de comunhão em todos os níveis (com a ordenação sacerdotal somos, com efeito, introduzidos sacramentalmente na comunhão com o bispo, com os outros presbíteros e com os diáconos, para o serviço ao Povo de Deus: PO 7-8; a unidade de todo o presbitério em torno do bispo tem sua raiz no próprio sacramento da ordem recebido (PDV 17). Somos homens da Missão, que servem todo o Povo de Deus, para que se uma a sua cabeça, Cristo.
Os Pastores são Animadores da Dimensão Missionária
Todos os cristãos são enviados para “fazer discípulos” para Jesus (Mt 8,16-20) A Missão ajuda-nos a recuperar a identidade cristã, a dar novo entusiasmo e novas motivações, a reforçar a comunhão e tornar fecunda a ação evangelizadora (RMi 2). Os pastores receberam a força da caridade pastoral e a Missão de fazer que os “discípulos” e as comunidades a nós confiadas também sejam pastoreadas por missionários de Jesus.
A pastoral missionária realiza quatro serviços específicos:
Conclusão
Para que a prática da espiritualidade seja efetiva, é preciso uma espiritualidade coletiva, ou seja, expressa em comunidade, em que toda a Igreja ore pelos países, missionários e organizações missionárias e, também, contribua para o sustento destas Missões. Hoje, um dos maiores – se não o maior – problemas para a propagação do Evangelho é a falta de recursos financeiros. É evidente que cada cristão deve testemunhar todos os dias o Evangelho de Cristo: este é o fruto da verdadeira espiritualidade!