Formação
É a Eucaristia que faz a Igreja;
E a Igreja cumpre o mandato da Missão
Pe. Elmo Heck
Sempre como exemplo, vamos agora reler o Sacramento da Eucaristia em chave missionária.
A comunidade cristã nasce do anuncio e do Batismo sustentado pela Eucaristia, e, a partir deles, torna-se Mistério de Comunhão e Missão.
É a Eucaristia que faz a Igreja. É um mistério, porque é dom de Deus e é obra d’Ele. É Ele que nos abre os olhos para entender que na vida o mais fascinante acaba nos alienando e escravizando. A Eucaristia nos conduz à liberdade e a disponibilidade à missão.
Só Ele pode nos convencer de que, na verdade, o que nos falta é a comunhão com Ele, único e verdadeiro bem (Sl 15). Deus é o único que nos pode satisfazer de verdade: “o nosso coração não encontra paz até que não repouse em Vós” (Santo Agostinho).
É Mistério de Comunhão, à medida que o Cristo, na Eucaristia, nos transforma, nos une, a exemplo da Trindade, que é uma Comunidade de amor. O que une a comunidade cristã é a ação transformadora de Jesus Cristo em cada um, e não as nossas afinidades humanas.
É na comunidade, que celebramos a Eucaristia, na qual Ele quer ser encontrado: “Foi Ele que quis a Igreja como lugar onde de fato o podem encontrar”(RM 47).
Nesta comunidade, a Igreja Católica, o caminho que o Cristo quis como “caminho normal de salvação, ela possui a plenitude dos meios de salvação” (RM 55, UR3, AG 7). A Igreja que o Cristo quis e que oferece todos os meios de salvação que Ele deixou é a Igreja que nasce da Eucaristia.
Citamos as palavras do pastor protestante Juan Carlos Ortiz: “Também nós os protestantes temos as nossas tradições: as denominações. Jesus tem somente uma esposa, a Igreja. Ele não é polígamo. No entanto, chegamos até a dizer que as denominações fazem parte da vontade de Deus. Assim, nós culpamos a Deus pelas nossas divisões e falta de amor. E depois, criticamos os católicos pelas suas tradições. Pelo menos, suas tradições são mais antigas que as nossas. Não devemos tentar remover o argueiro dos olhos dos católicos, enquanto não tirarmos a trave que se encontra diante do nosso” (O Discípulo, p. 13, Editora Betânia).
Este mistério da comunhão, quando autêntico, tende à missão, a manifestar a todos o amor encontrado na Eucaristia: “A finalidade de tudo é a caridade” (Santo Agostinho, Carta a Proba, Se I. 44,65-68).
A Eucaristia é o coração da vida e da Salvação cristã e “é a maior fonte de energia que existe”. É o resumo da vida de Jesus, e, como tal, ilumina também a vida de cada cristão e das comunidades cristãs.
Afinal, a Eucaristia não é outra coisa que aprender de Jesus, ser por Ele transformados, recebendo sua força, para continuar, à medida do possível, a sua obra. É ir atrás de Jesus, para ser Eucaristia como Ele.
“Foi Ele que quis a Igreja como lugar, onde de fato o podem encontrar” (RM 47).
Quem vai à Missa com outras finalidades, antes ou depois vai se cansar, porque o Cristo não deixou a Eucaristia para essas finalidades.
Os primeiros cristãos não davam a Eucaristia como viático aos mártires destinados a morrer pela fé, porque naquele momento em que davam a vida, eles mesmos eram “Eucaristia”.
O sacrifício cristão, fonte de vida nova e porta para a vida verdadeira, consiste no tornar-se “Eucaristia”, como Jesus. Não pode se esgotar no simples fato de participar da Missa e da comunhão aos domingos.
É porque participa da Missa aos domingos, que o cristão encontra forças para ser, um pouco, “Eucaristia” durante a semana. Sem a Missa e o alimento da Palavra de Deus aos domingos, falta o mínimo do alimento espiritual indispensável para seguir Jesus na nossa vida.
Nós obedecemos àquilo que temos dentro. Por isso, se não colocarmos, com insistência, em nós o alimento da Eucaristia e da Palavra de Deus, acabamos buscando outros alimentos que o mundo de hoje propõe insistentemente. O sagrado sacrifício cristão está também no mundo e na história: “em cada homem que morre ao mundo e doa a si mesmo” (Santo Agostinho Carta a Proba).
Celebra-se na Igreja, mas vive-se fora dela. Consegue-se vivê-la, enquanto se alimenta em nós a ligação com Deus, por meio da liturgia comunitária e da oração. A comunhão com Deus é alimentada pela “ação comum do Povo de Deus”, que é a Liturgia.
É sempre bom lembrar que a Missão, sem uma verdadeira vivência de comunhão com Deus e com os irmãos na fé, torna-se dispersão e ativismo.
A Eucaristia (Missa) existe num lugar, e, com ela, a vida e a salvação cristã. Ela é a fonte, não pelo simples fato de ser celebrada, mas por haver gente que a viva. Há consenso até na teologia tradicional sobre a afirmação de que: “A profundidade da presença da Eucaristia, num lugar, não está ligada ao padre que a celebra, mas à comunidade que a vive”.
Para entender melhor o potencial transformador que tem a Eucaristia, em relação à nossa realidade, é ilustrativo a tomada de consciência de Bartolomeu de Las Casas, que foi o primeiro padre latino-americano, ordenado em 1511.
Convidado por Diego Velasquez para celebrar uma missa, Bartolomeu, o único clérigo da aldeia, recusou-se, percebendo uma contradição entre a celebração daquela Eucaristia e a situação dos índios na aldeia.
Por isso, Bartolomeu de Las Casas, antes de tudo, decidiu libertar os índios que trabalhavam para ele como escravos.
Era o mês de Abril de 1514. Bartolomeu descobriu neste ano a relação direta entre a Eucaristia e a Ecomomia, e, no dia 15 de agosto do mesmo ano, libertando seus indígenas, começou a luta pela justiça, que ocuparia o restante de sua vida: 52 anos de muitas perseguições.
Nesta conversão profética, ajudou-o a leitura bíblica da missa que não quis rezar. (Eclesiástico 34,23-25): “O Altíssimo não aprova os dons dos iníquos nem olha para as ablações dos maus nem pela multidão dos seus sacrifícios lhes perdoará os seus pecados. Aquele que oferece um sacrifício com os haveres dos pobres é como o que degola um filho na presença de seu pai. A vida dos pobres é o pão de que necessitam; aquele que lhes tira é um homem sanguinário”.
À luz deste trecho bíblico, Bartolomeu entendeu que o Pão da Eucaristia, fruto da terra e do trabalho do homem, oferecido a Deus (Ofertório) para ser partilhado entre todos (Comunhão), tem uma profunda ligação com o pão da economia, também fruto da terra e do trabalho da humanidade.
A Eucaristia ilumina, não só a vivência eclesial, mas sim toda a vida dos homens, em todos os aspectos. Ela exige partilha, também, dentro da própria Igreja. Ela, primeiramente, deve dar exemplo como instituição, mas também as comunidades entre si precisam ajudar-se. Sem partilha dentro da Igreja e entre as comunidades, não é possível o nascer da Igreja para a missionariedade.
A Eucaristia exige missionariedade. Ela é a “forma, a fonte e o modelo operante, que opera em si mesma a vida comunitária e pessoal dos cristãos” (D. Carlos Martini). Por isso, é a partir da Eucaristia que deve ser estruturada a vida da Igreja. É a Eucaristia que constitui a Igreja (dizem-nos os teólogos), e é a partir dela que se delineia a vida das paróquias, das comunidades, das CEBS, dos grupos e de cada cristão.
Sermos convidados à Mesa do Senhor revela o desejo de Deus de fazer de nós seus familiares. Mas quem é que convida, na nossa vida diária, à mesa familiar? É o pai que reúne os seus filhos ao redor da mesa, é a mãe que prepara a mesa para seus filhos, é o amigo que convida seus amigos íntimos para jantar com ele.
Na Eucaristia, o sentimento de Deus para cada um de nós equivale ao do pai, da mãe e do amigo mais íntimo. Deus, com este gesto revela o próprio coração, deixando transparecer o seu sentir.
Mas Deus, Pai de Jesus Cristo, quer convidar para sua mesa não só os cristãos de hoje, mas todos os homens, os de longe e de perto.
Como é que Ele poderia fazer isso, a não ser servindo-se dos cristãos que já acolheram o seu convite?
A partir do Novo Testamento, percebe-se que Cristo, para construir o Reino, para fazer de nós seus familiares, quer precisar de cada um de nós.
A missão é compromisso e chamado para todos os cristãos. Não se pode participar da Eucaristia sem sentir a dor do Pai pelos filhos que faltam.