Padre da diocese de Jundiaí é enviado para Moçambique

Padre da diocese de Jundiaí é enviado para Moçambique

A maior tristeza é a limitação, pessoal e social, do missionário e da Igreja. Somos poucos e há tantos que têm sede de Deus. A maior alegria, sem dúvida, é ver o brilho nos olhos dos que acolhem a Deus

O padre Adriano Ferreira Rodrigues, da diocese de Jundiaí (SP), viajará para Moçambique, na África, no próximo dia 30 de janeiro para integrar a equipe do Projeto de Ação Missionária e cooperação Intereclesial na diocese de Pemba, mantido pelo Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

A celebração de envio do missionário ocorreu no último dia 30 de dezembro, na Igreja matriz de São João Batista em Itu (SP) e reuniu a comunidade paroquial, amigos, familiares e padres de paróquias da cidade. O bispo diocesano, dom Vicente Costa, presidiu a celebração e fez a entrega da Cruz Missionária ao padre Adriano que desenvolverá o seu apostolado na cidade de Metoro, pertencente à diocese de Pemba, na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique.

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O Jornal O Verbo conversou com o padre Adriano, que falou sobre a missão de evangelizar e como vivê-la de forma autêntica.

Padre Adriano, como surgiu o desejo de ser missionário fora do Brasil?
Eu tenho vivido neste contexto de missão já desde a minha infância na Igreja. Eu sempre participei junto com os meus pais do Caminho Neocatecumenal, um serviço da Igreja, um itinerário de formação cristã, que me ajudou bastante no meu discernimento vocacional e em todo o meu crescimento cristão e eles incentivam e valorizam muito a questão missionária. Eles têm famílias, sacerdotes e religiosos em todo o mundo, em contextos bastante difíceis. Quando me tornei padre, escolhi ser diocesano, mas nunca deixei de caminhar em uma comunidade. Vivi durante cinco anos no Pará, na diocese de Marabá, uma região bastante simples, com um contexto diferente da diocese de Jundiaí. Ali haviam garimpeiros, sem-terra, indígenas, migrantes de outros estados, e pude encontrar muitos sacerdotes estrangeiros, que trabalharam na África, na Ásia, em outros contextos. Nesse_MG_8840 convívio com eles eu acabei sendo motivado a ir um pouco além. Eu estava na Amazônia, naquele “fim de mundo” – segundo o que pensava, para poder ajudar um pouco aquele povo tão sofrido – e aqueles padres que trabalharam anos e anos em situações tão mais difíceis, me falavam: a gente veio aqui para descansar um pouco. Então, refletindo sobre tudo aquilo que tinha recebido de Deus, e relendo a “Fidei Donum”, uma carta encíclica do papa Pio XII, tomei uma decisão. Recebi o dom da fé e há tantos que ainda não o conhecem. Quando pude partilhar com dom Vicente Costa, retornando daquela missão à Jundiaí, ele aceitou muito bem essa notícia, esse chamado de Deus e me ajudou agora a poder chegar a esse ponto de poder dizer que é hora de partir, de ir para águas mais profundas. Quando me dispus a partir da diocese de Jundiaí para a missão “ad gentes”, eu não sabia nem para onde iria nem de que maneira iria. Mas, a providência de Deus cuidou para que aparecesse esse projeto missionário para o nosso Regional Sul 1 da diocese de Pemba onde temos um bispo brasileiro, originário da diocese de Osasco, que fez esse apelo aos sacerdotes e a todos os bispos do nosso estado – ele realmente cativou o coração desse “padrezinho” aqui.

Conte-nos um pouco mais sobre essa experiência na Amazônia?
pe adrianoNa diocese de Marabá, a situação de pobreza e afastamento do grandes centros me ajudou muito. Pensei, erradamente, que iria levar um pouco de Deus e de civilização, mas acabei aprendendo muito sobre como viver e conviver, que Deus se revela muitas vezes mais no meio do povo que não tem nem leitura, nem formação catequética. Pude, lá, dar aula de violão e de reforço escolar, conhecer a catequese sem papel, o valor da tradição oral e da história.

Quais foram os momentos de maior alegria e de maior tristeza na missão?
Na minha experiência, a maior tristeza é a limitação, pessoal e social, do missionário e da Igreja. Somos poucos, e há tantos que têm sede de Deus. A maior alegria, sem dúvida, é ver o brilho nos olhos dos que acolhem a Deus. É possível ver isso em qualquer lugar mas, quando no meio do ”nada”, em que nada parecia possível, numa celebração ou em uma catequese, alguém experimenta, descobre o amor de Deus. Pode ser um jovem, um casal, um idoso ou um enfermo. Isso dá sentido à vida das pessoas, e à minha também!

Como será evangelizar para pessoas que não são católicas?
Ainda vou experimentar isso. Mas, pelo que tenho ouvido, é um diálogo contínuo e o essencial é o testemunho de vida e a convivência fraterna e respeitosa, sem julgamentos.

Após a experiência na Amazônia e conhecendo a realidade missionária de hoje, defina o que é ser missionário nos dias de hoje?
Ser missionário é simplesmente seguir Jesus Cristo. Ele é o missionário do Pai. Ele que desceu dos céus e se encarnou, Ele que nascendo no meio de nós caminhava pelas aldeias e vilas e ia anunciando o amor de Deus. Ser missionário é realmente ter essa disposição de poder sair de si. Não é fácil ser missionário, mas para quem é cristão, não há outra maneira de viver. É a decisão de partir, de sair da zona de conforto, do comodismo, de se arriscar um pouco em Deus, de experimentar Deus.

Como o senhor avalia os desafios da Missão na atualidade?
Deus gosta desses desafios e nos convida a vivê-los com Ele, que escolhe os pequenos, os pobres, os fracos. Não é preciso fazer muita coisa, ter muita coisa ou ir a um lugar ou a outro, _MG_88072mas abrir-se ao chamado de Deus. Ele mostrará a cada um como ser missionário, cada um deve agir de um modo. É preciso responder a um chamado de Deus, para que não nos limitemos a responder ao questionamento do momento, ao problema da semana. Me assusta ver tantos preocupados com apenas um aspecto da vida na fé – sexualidade, economia, política, entre outros. Se considerarmos apenas isso como o mais importante, esquecendo de todo o resto, jamais seremos missionários.

Qual é a importância da missão na vida de um presbítero?
É de suma importância. Nem todos poderão partir para outras regiões, mas esse sair de si, ir ao encontro do outro, descobrir o Cristo nas periferias materiais e existenciais – isso é essencial. Na missão não há como fazer grandes projetos e planejamentos. Deve-se viver a cada dia com os irmãos e descobrir o que precisa ser incentivado e o que precisa ser deixado de lado. A humildade para crescer e aprender junto com o povo é importante na vida paroquial, mas na missão, é essencial.

No que deve consistir o seu trabalho na diocese de Pemba?
Sei que há muitas comunidades com vida sacramental reduzida pela ausência de sacerdotes. Foi-me dito que as visitas a essas comunidades acontecem apenas uma vez por ano, devido às distâncias, e todos se confessam antes de participarem da Eucaristia. Além disso, trabalharemos pela formação dos leigos e a questão social.

Fonte: Regional Sul 1 da CNBB com a colaboração do Jornal O VERBO.

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