Moçambique não é para os extraordinários

Moçambique não é para os extraordinários

Seminarista relata suas percepções e vivências sobre a missão redentorista em Moçambique.

Por Jean Carlos*

A pouco mais de um ano, cheguei em terras moçambicanas. Apesar do pouco tempo, posso expressar minhas singelas percepções de nossa missão redentorista em Furancungo. Aqui, a vida segue como em qualquer outro lugar do mundo; crianças brincam nas ruas, mulheres em suas muitas tarefas diárias, o comércio cedo já está funcionando, a comunicação digital se espalha a todo vapor, a singeleza e o sorriso moçambicano perpassam todos esses ambientes.

2018-03 - Jean CSsR - Moçambique 4Não, não estamos no paraíso, e certamente esse lugar está muito longe de o ser. Diante dessa singeleza de vida, perpassa todo o padecimento de um povo que sofreu por quase 500 anos a dura colonização dos portugueses e, logo em seguida, adentrou em uma profunda guerra civil, e hoje sofre nas mãos de uma estrutura política corrupta em todas as esferas do poder.

Diante desta ambiguidade, nossa missão é, acima de tudo, ser presença; uma presença cristã, católica, redentorista. Uma presença amiga, mesmo com as limitações da língua e cultura. Eles, o povo moçambicano, compreendem que têm pessoas que se importam com eles e estão junto deles; certamente, aqui está a nossa maior contribuição nessa pequena vila. Não temos escolas como os Jesuítas, não temos abrigos como os Vicentinos e Vicentinas e muito menos hospitais como algumas Congregações femininas. Acredito, porém, que nossa presença atinge o mais profundo deste povo, pois procuramos permanecer com eles em seu cotidiano: acompanhamos e celebramos em quase 80 comunidades, espalhadas ao longo de 7.430 km² da paróquia e ainda procuramos oferecer nossa assistência religiosa-companheira-sacramental a outra área paroquial que não tem presbíteros nem religiosos.

A pobreza deste país é algo que nos fere na alma. Seguramente, nenhum confrade que aqui reside põe uma colher na boca sem antes lembrar daqueles que tão pouco possuem. Só romantiza a pobreza que nunca sofreu dela. A pobreza mata aos poucos, não somete a carne, mas também o espírito. A pobreza é feia, e o povo compreende tanto isso que usa a mesma raiz yipa em Chichewa para expressar o mal e o feio, e costumeiramente repete Umphawi ndi woyipa, ou seja, “a pobreza é feia/má”. Hoje, vejo que a pobreza e a riqueza fracassaram com a promessa de trazer felicidade.

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Mesmo com as chagas da pobreza aberta, nossos irmãos de Furancungo e comunidades, continuam a ser um povo profundamente solidário. O pouco que possuem põem a partilhar. Em cada oferta, seja na Eucaristia ou entregue em nossa casa, é visível o óbolo da viúva (cf. Lc 21,1-4). Embora em nossa casa nada nos falte, mesmo assim eles partilham e partilham com alegria (cf. 2Cor 9,7).

2018-03 - Jean CSsR - Moçambique 3Irmãos missionários, “Tende coragem!” (cf. Jo 16,33). Nossa missão é essa: permanecer com o irmão no Cristo pelo Espírito! Não importa o tempo que passarão aqui; meses, um ano, um quadriênio ou a vida inteira. Um coisa está certa: necessitamos sempre “sair” e “permanecer” com aqueles que foram, são e serão os destinatários de nossa missão, seja aí no Brasil, em Moçambique ou em qualquer outro lugar no mundo.

Enfim, a missão em Moçambique não é para pessoas extraordinárias, mas para todos nós, cristãos, que buscamos conviver e permanecer cotidianamente com esse povo sofrido sendo o que somos e o que devemos ser: verdadeiros discípulos missionários do Redentor que amam e servem, antes de tudo, os mais abandonados e pobres.

*Seminarista da Vice Província Redentorista de Fortaleza

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