Festa Junina contra São João

Festa Junina contra São João

O proprietário da festa se sente no direito de organizar o que lhe dará mais lucros. E que se danem a cultura e a tradição do povo!

de Ivo Poletto *

Estamos na semana das festas juninas, importantes em todas as regiões, mas certamente mais intensas em todo o Nordeste. São João é festejado como um santo que gosta da alegria do povo, uma alegria que se expressa com quadrilhas e danças, junto com muita fartura de comidas típicas da produção dos pequenos sitiantes. Pode-se dizer, então, que ele é um santo ligado à roça, à produção de alimentos.

Ouça o programa de rádio Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social (FMCJS).

Participando de um encontro da Cáritas em Campina Grande, soube que a prefeitura deste município entregou os festejos a uma empresa, e ela, em lugar de valorizar os cantores locais e as músicas típicas das festas juninas, estava sj-ireceimpondo a realização de shows com cantores sertanejos. Dá nisso terceirizar a cultura popular: o agora proprietário da festa se sente no direito de organizar o que lhe dará mais lucros. E que se danem a cultura e a tradição do povo!

Não tenho informações se a terceirização está acontecendo em outros municípios, mas a de Campina Grande me leva a outras perguntas: estaria São João feliz com o que está acontecendo no sertão semiárido? E se ele não está feliz, como a festa pode promover a alegria?

Não tenho dúvida alguma de que ele está feliz com todas as pessoas, famílias e comunidades que estão trabalhando em favor e participando o programa de Convivência com o Semiárido, construindo em mutirão as cisternas caseiras, produzindo alimentos agroecológicos com sistemas agroflorestais, apoiando a educação contextualizada, gerando renda e autonomia com a economia solidária, produzindo energia com o sol e o biogás, cuidando do bioma caatinga. As festas juninas precisam ser promovidas por estas pessoas e comunidades, e não por empresários de fora ou da região, que aborrecem São João, de modo especial com sua mania de colocar a busca da riqueza acima da verdadeira alegria e da vida.

De fato, não foram os grandes proprietários e empresários os principais geradores do grande deserto que existe na região? Sim, um deserto, e maior do que o território do Ceará.

Por isso, vale contar com São João como patrono de quem defende a vida da Caatinga. E pedir a ele que nos ajude a enfrentar os que teimam em estragar esta região e todas as outras regiões do Brasil, criando mais e mais desertos.

* Ivo Poletto, Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social (FMCJS): www.fmclimaticas.org.br

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