“É uma grande contradição: pessoas morrem na Amazônia por falta de oxigênio”, afirma bispo do Acre

“É uma grande contradição: pessoas morrem na Amazônia por falta de oxigênio”, afirma bispo do Acre

Comunicado divulgado pela diocese de Rio Branco nesta semana confirma que as igrejas permanecem fechadas até “a hora mais segura para darmos o passo de reabertura”. Em entrevista ao Vatican News, o bispo dom Joaquín Pertíñez descreve o triste cenário vivido na região e lamenta: “o mais absurdo de tudo é ter que dizer, com muita tristeza, que muitas pessoas morreram na Amazônia por falta de oxigênio. É uma grande contradição, além da impotência que se sente sem UTIs, ventiladores, equipamentos de proteção, remédios, testes, enfim, é muito difícil.”

Mais um comunicado divulgado pela diocese de Rio Branco, no Acre, confirma que as igrejas permanecem fechadas até “a hora mais segura para darmos o passo de reabertura”. A mensagem, divulgada na última segunda-feira (20), foi embasada numa “difícil decisão” e com manifestação ponderada e pela segurança dos católicos que somam mais de 51% da população do Acre. Além disso, “o ‘efeito sanfona’ de abrir e depois ter que fechar, poderá trazer perdas irreversíveis para o nosso povo”.

A Igreja doméstica na prática

“Estamos todos cansados e ansiosos”, prossegue a nota. Já são 4 meses de igrejas fechadas e atividades paroquiais presenciais suspensas em respeito às normas sanitárias e de isolamento social. Porém, é um incentivo “à vivência da fé como Igreja doméstica, que tantas vezes falamos e pregamos e que agora é o momento de colocar em prática”, afirma o bispo de Rio Branco, dom Joaquín Pertíñez, que acrescenta:

“Fomos muito criticados, e continuamos sofrendo, vendo os nossos templos fechados, mas nós sempre falamos que a vida está acima de tudo. Continuamos com as igrejas fechadas, não sabemos até quando, com sérios prejuízos também para nós. No total, a economia não se salvou e a linha de crescimento de contagiados e de mortos não para de crescer, a curva só aponta para o alto, não se inclina de jeito nenhum. Nestes dias os números são assustadores, tudo muito preocupante.”

O Acre já contabiliza quase 18 mil pessoas testadas positivas para o coronavírus e mais de 470 as que morreram vítimas da doença. As missas, transmitidas diariamente ao vivo, através de diferentes plataformas on-line, são uma forma de incentivar as pessoas a ficarem em casa, apesar de muitos agirem de maneira “irresponsável, não obedecendo as normas dos governos”, alerta o bispo.

O apoio institucional com hospital filantrópico

O Hospital Santa Juliana, entre as obras sociais da Igreja local, também é um apoio para mitigar os efeitos da pandemia já que é o único da região habilitado para a alta complexidade. Dom Joaquín explica que, desde o início da pandemia, colocou a instituição a serviço do governo, de forma gratuita, para os casos de Covid-19, através dos 20 leitos da UTI – recém-inaugurada, com aparelhos provenientes dos Estados Unidos e que tem parceria com a Faculdade de Medicina da Uninorte.

“Mas o governo preferiu construir e habilitar outros espaços para atender pacientes com Covid-19. Com certeza muitas mortes teriam sido poupadas e evitadas se se fosse dada essa assistência desde a nossa UTI. Mas nós não podemos decidir sobre essa questão. Continuamos atendendo o máximo possível e dentro das nossas limitações o máximo possível de pacientes, de pobres e necessitados, inclusive também indígenas, mas, nossas condições econômicas estão chegando ao limite. Não estamos suportando mais por ser um hospital filantrópico.”

A instituição tem sofrido com a alta demanda, os gastos com fornecedores de materiais e o problema dos médicos que não estão querendo trabalhar na UTI. “Precisamos de ajuda para poder continuar essa missão em favor dos mais desfavorecidos”, desabafa o bispo.

O desafio dos migrantes em meio à pandemia

Outro grande desafio apontado por dom Joaquín é a questão migratória, já que a região se encontra na Tríplice Fronteira, entre o Brasil, Peru e Bolívia. O Acre recebe muitos haitianos, nigerianos e venezuelanos que, diante da crise econômica e social atual, estão querendo voltar ao país de origem e encontram as fronteiras fechadas. “Nem os peruanos estão podendo entrar no país deles”, acrescenta o prelado, e os governos municipais não têm “condições de enfrentar tantos desafios”. A Igreja, assim, procura trabalhar com voluntários para amenizar a situação:

“O mais absurdo de tudo é ter que dizer que, com muita tristeza, muitas pessoas morreram na Amazônia por falta de oxigênio. É uma grande contradição e algo muito triste ver e saber tudo que está acontecendo ao nosso redor. E a impotência que se sente diante deste problema, deste grande desafio, sem UTIs, sem ventiladores, sem equipamentos de proteção, sem remédios, sem testes, enfim, é muito difícil.”

São os migrantes, os pobres, os indígenas, os mais vulneráveis e que mais sofrem com as consequências da pandemia, que também “não faz distinção de raça e status social”. O reflexo da grave crise econômica, que acompanha aquela sanitária, não está sendo ignorada pela Igreja que tem atuado diretamente com ações solidárias:

“Então, depois do coronavírus, chegou outro vírus aqui: o da fome. Não sei se é melhor ou pior, mas é terrível a fome na vida do povo. Muito desemprego, muitas famílias sem o mínimo para sobreviver. Graças a Deus começou também a aparecer muita solidariedade em favor dos mais necessitados que são atendidos pelas Caritas paroquiais, fazendo o possível, já que não podemos chegar a todos. Mas estão surgindo muitos gestos heroicos em favor da superação desta crise. Até já faleceu um agente de pastoral da Cáritas das nossas paróquias… Assim, a gente faz o que pode, que pode ser só uma gota no meio do oceano da Selva Amazônica, da floresta que nos rodeia.”

Fonte: Vatican News

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