Conclusões do 5º Congresso Missionário Americano

Conclusões do 5º Congresso Missionário Americano

As mais de 3 mil pessoas reunidas durante a celebração de envio do 5º Congresso Missionário Americano, realizado em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, assistiram a leitura oficial do texto que traz as conclusões das discussões realizadas no CAM 5. Apresentamos a versão traduzida para a língua portuguesa. A versão original, em espanhol, pode ser encontrada neste site.

CONCLUSÕES DO 5º CONGRESSO MISSIONÁRIO AMERICANO
Santa Cruz de la Sierra – Bolívia 2018

1. Desde o grande impulso missionário do Papa Francisco, a Igreja Católica na América celebrou o 5º Congresso Missionário Americano (CAM 5) em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia 2018), de 10 a 14 de julho de 2018. Com o lema América em missão: o Evangelho é alegria, realizou-se esta assembleia extraordinária, na qual se espera fortalecer o sentido missionário de toda a Igreja Católica, encontrar caminhos de renovação e conversão missionária na América. A Comissão Teológica do Congresso preparou o conteúdo ao longo de cinco anos, durante os quais, foram realizados dois Simpósios Internacionais, respectivamente em Porto Rico (2015) e no Uruguai (2016), bem como outros congressos missionários nacionais em cada país ou jurisdição eclesiástica por todo o continente americano. Como resultado dos Simpósios internacionais foram publicados dois livros sobre os eixos temáticos do Congresso: Evangelho, alegria, comunhão e reconciliação, missão e profetismo.

2. A realização do CAM 5 foi, sem dúvida, um momento de graça para a Igreja na América, através do qual se pode avivar o espírito missionário de toda a comunidade católica, para que se faça presente em todas as realidades do mundo com a força transformadora e a alegria do Evangelho. Isto nos impulsiona a trabalhar, abrindo caminhos de comunhão e de reconciliação nos âmbitos sociais e políticos, inter-religiosos e eclesiais. Com sentido missionário, evangelizador e audácia profética, este Congresso vai fomentar, desde já, mudanças nas atividades e estruturas eclesiais, de modo que esta Igreja em saída responda fielmente a Deus em sua missão Ad Gentes, especialmente para com os pobres e os excluídos, aos que não conhecem a Cristo, nem os valores que emanam do Evangelho da Alegria.

3. Seguindo a orientação marcada pelo Concílio Vaticano II, desde a Gaudium et Spes, do decreto Ad Gentes e a Conferência de Aparecida do CELAM, a Igreja mostra-se essencialmente missionária quando se abre aos desafios do mundo contemporâneo para buscar respostas adequadas a partir do Evangelho e da Palavra de Deus. Somos conscientes das mudanças, profundas e rápidas, que confundem as culturas e sociedades pós-modernas, que submetidas e deslumbradas pelas novas tecnologias, seguem sem resolver eficazmente os problemas arraigados do homem e do mundo. Entre estes desafios, a nossa Igreja está preocupada especialmente com os principais fenômenos do nosso continente: a crise da família com todos os seus consequentes problemas, o desprezo, a violência contra a vida e a dignidade humana, a violação dos direitos humanos, o domínio econômico de uma minoria que gera desemprego e pobreza, o panorama de injustiça e falta de solidariedade que remonta o ser humano à época do secularismo, a necessidade de cuidar da mãe Terra, a situação preocupante da desigualdade e violência que as mulheres estão submetidas, as imigrações, a população indígena, os aspectos sombrios da Igreja, ferida, sobretudo, pelos escândalos da pedofilia, o declínio das vocações sacerdotais, a modernidade débil e relativista, assim como o negativismo e a imoralidade inerente à própria modernidade.

4. Todos esses aspectos que impactam a fé cristã foram amplamente tratados nas fases prévias do Congresso, sobretudo, nos Simpósios Internacionais e Congressos missionários nacionais mencionados. A partir de todos esses trabalhos e publicações, a Conferência Episcopal da Bolívia e as Pontifícias Obras Missionárias elaboraram o Instrumentum Laboris do CAM 5 que serviu de base para o trabalho das comunidades cristãs católicas que vivem seu sentido missionário em toda a América. A pesquisa realizada recolheu as contribuições dos membros ativos das igrejas com uma amostra representativa de quase dez mil questionários, através da qual se desenvolveu uma metodologia de participação ativa e plural de toda a Igreja nos países da América.

5. Com base nesses dados prévios a este evento continental, o Congresso reuniu todos os delegados de cada país. Uma organização admiravelmente eclesial acolheu a todos os participantes hospedados nas famílias de todas as paróquias de Santa Cruz. O congresso foi presidido pelo bispo Dom Sergio Gualberti, arcebispo de Santa Cruz, e coordenado por Dom Eugenio Scarpellini, diretor das POM Bolívia. Vivemos cinco dias intensos de atividades diversas que ocuparam a atenção de todos os participantes. Entre estes participaram S. E. cardeal Fernando Filoni, enviado especial do Papa Francisco para o CAM 5, S. E. Toribio Ticona, cardeal boliviano, Mons. Giovanni Pietro Dal Toso, Presidente internacional das POM, Irmã Roberta Tremarelli, Secretária geral da Pontifícia Obra da Infância Missionária, as delegações americanas das Pontifícias Obras Missionárias, toda a Conferência Episcopal da Bolívia, um grande número de Bispos da América e de outros países, sacerdotes, religiosos e uma multidão de leigos. Os 3.177 missionários inscritos foram acolhidos voluntariamente por 3.830 pessoas das paróquias de Santa Cruz, em uma enorme demonstração de entusiasmo, serviço, entrega e alegria. Pela manhã foram organizadas seis sessões, sendo uma sessão de abertura, e cinco conferências magnas sobre os temas do Congresso, enquanto no período da tarde organizaram-se doze oficinas, sendo quatro conversatórias e cinco subassembleias, onde se discutiam as questões levantadas pela manhã.

6. As conferências brilhantes, profundas e esclarecedoras tiveram a seguinte sequência: Em primeiro lugar, A alegria apaixonante do Evangelho, ministrada por Dom Guido Charbonneau (Honduras), a segunda, Anunciar o Evangelho no mundo hoje, sob a responsabilidade de Dom Santiago Silva (Chile), a terceira, Discípulos, testemunhas de comunhão e a reconciliação, apresentada por Pe. Sergio Montes, SJ (Bolívia), a quarta, Missão Profética da Igreja hoje, ministrada por Mons. Luís A. Castro (Colômbia), e finalmente, a quinta, Missão Ad gentes na América e desde a América, proferida por Mons. Vittorino Girardi (Costa Rica).
Em continuação, apresentamos as principais conclusões que emanam de toda essa rica reflexão que ocupou nossa atenção e nossas atividades durante estes dias. Reunimos, sobretudo, as propostas de linhas de ação para a renovação missionária da Igreja na América.

PROPOSTAS DE CONVERSÃO MISSIONÁRIA PARA A IGREJA NA AMÉRICA

Educar na alegria do Ressuscitado e das Bem-aventuranças

7. É preciso potencializar entre os servidores da Palavra de Deus, o conhecimento e o aprofundamento no mistério central da fé cristã, que é o Mistério Pascal, da morte e ressureição de Jesus, para compartilhar sistematicamente com o Povo de Deus, a preeminência da mensagem das Bem-aventuranças (IL 236-259). Elas constituem a verdadeira antologia do Evangelho e sintetizam a alegria de toda a mensagem cristã, dos valores do Reino de Deus e sua justiça, fomentam a opção preferencial pelos pobres e a criação de espaços de atenção aos que sofrem e excluídos.

Sair às periferias do mundo para ir ao encontro dos “outros”

8. É preciso fomentar espaços de diálogo e alegria em nossas comunidades, ir às periferias da dor, da marginalização e da pobreza. Criar meios, métodos e instrumentos para ir ao encontro dos afastados da fé e transmitir-lhes a alegria do Evangelho com um coração aberto à universalidade, especialmente no meio do sofrimento. Avivar o sentido Ad Gentes e ir com a alegria do Evangelho ao encontro das culturas e da diversidade cultural de nossos povos e do crescimento cultural de nossas gentes, com uma atenção particular ao mundo indígena, aos setores da população de imigrantes, de todas as vítimas da violência e da droga. Fazer-se presente com os valores do Evangelho nos ambientes culturais e geradores de cultura, nas universidades e instituições educativas, assim como nos meios de comunicação e nas mídias sociais.

Fomentar o conhecimento da Bíblia e dos Evangelhos

9. Propõe-se promover o conhecimento da Bíblia e especialmente dos Evangelhos como fonte de renovação cultural, do encontro entre culturas e povos e como caminho de paz entre as diversas religiões, além de buscar um espaço aberto e plural desde o ponto de vista teológico na Universidade pública dos países da América (IL 267-270). Do mesmo modo, propõe-se criar escolas inter-paroquiais missionárias para fomentar sistematicamente o conhecimento e a difusão da Bíblia, como Palavra viva e permanente de Deus que regenera a vida, além de instaurar catequeses bíblicas nos intervalos das catequeses sacramentais.

Promover comunidades de vida missionária

10. Propõe-se promover e apoiar ao máximo as Comunidades de vida missionária, desde as Comunidades Eclesiais de Base, de outras formas de vida comunitária eclesial e de movimentos eclesiais, como forma concreta de viver a dimensão missionária da Igreja, imersa no mundo e nas realidades humanas, sociais e políticas com o método da Revisão de Vida, utilizando os três passos fundamentais (Ver, Julgar e Agir) como instrumento de análises e de transformação pessoal, eclesial e social desde a força do Espírito (IL 274).

Promover a comunhão de bens na Igreja e com os pobres

11. Da mesma forma, propõe-se criar, fomentar e desenvolver a instituição de Caritas em todas as comunidades cristãs paroquiais e não paroquiais, com o fim de fazer presente, de maneira organizada e estruturada, a prática da caridade e das obras de misericórdia diante das necessidades materiais e sociais de nossa população, especialmente entre os mais pobres e necessitados, tanto de perto como de longe (IL 275). Desse modo se desenvolve a estrutura fundamental da Igreja para orientar a comunhão de bens com os mais pobres e necessitados. Deve-se apoiar concretamente a proposta emblemática da instituição da Koinonía Eucarística com os pobres, para compartilhar desde o critério evangélico, evangelizador e caráter universal Ad Gentes, as contribuições de cada Eucaristia.

Promover a reconciliação em todos os âmbitos da vida

12. Em primeiro lugar é preciso fomentar o sacramento do perdão e da misericórdia de Deus, assim como promover, cuidar e atender a Reconciliação no âmbito familiar em nossas comunidades e paróquias (IL 280-289). É urgente educar para a reflexão, a escuta, a valorização mútua, o respeito, a comunicação, o encontro, o amor, o perdão, a alegria sana, a felicidade compartilhada, a serenidade, a lucidez, a harmonia. Do mesmo modo, deve-se promover o diálogo entre as religiões orientado para a Reconciliação, e a Igreja deve ajudar para que todos os atores sociais e políticos participem ativamente nos processos de reconciliação. Sobretudo, deve-se consolidar a opção pelos pobres como caminho de Reconciliação, e, em último lugar, a reconciliação ecológica em favor da criação de Deus, cuidando com responsabilidade nossa Casa Comum, a irmã, mãe Terra (IL 280-289).

Fomentar a consciência da missão profética e libertadora em todos os âmbitos sociais

13. É necessário despertar e alimentar a consciência da missionariedade, cultivando a dinâmica vocacional da Igreja e de seus membros no serviço ao mundo inteiro. Do mesmo modo, sugere-se a elaboração desde as Conferências episcopais, de um projeto missionário que inspire os planos pastorais e renove nossas estruturas de evangelização. E por outro lado, faça-nos caminhar em direção à missão Ad Gentes, especialmente orientada aos âmbitos onde não se conhece a Cristo, ou não se vivem os valores do Evangelho, particularmente, em corrompidos setores da população dedicados à gestão econômica, empresarial, social e política de nossas sociedades. Também é preciso fazer um esforço intenso de conexão com a vida real do povo, assumindo e promovendo a Leitura orante da realidade como metodologia de diálogo com o mundo e da comunicação do Evangelho. Também fazer-se presentes nos diversos ambientes com os meios adequados e saindo às periferias existenciais e geográficas do mundo, indo ao encontro dos marginalizados (IL 290-95). Desse modo, apoia-se a criação do Observatório Eclesial Americano dos Direitos Humanos, com o objetivo de fornecer informações de caráter profético acerca das situações de exclusão, marginalização, opressão, injustiça, corrupção e extorsão dos direitos humanos, sociais, políticos e econômicos em todos os países da América.

A Evangelização da família como chave cristã de transformação social e cultural

14. Construir um desenho específico de atenção à instituição familiar e aos problemas familiares a partir da Igreja. À luz da família trinitária e de Nazaré, as famílias cristãs devem ser comunidades domésticas de vida e de amor autenticamente cristão. Para isso, é preciso trabalhar no campo educativo e catequético e na formação dos jovens, para que experimentem a vivência madura do amor como entrega total ao outro. É necessário trabalhar sistematicamente na atenção eclesial a partir das paróquias, aos problemas dos casais, antes, durante e depois do matrimônio. É urgente consolidar o respeito e a dignidade da pessoa no marco familiar, para que nenhum membro da família seja maltratado, particularmente as mulheres e as crianças. É igualmente urgente educar no respeito à vida como um dom de Deus desde o primeiro momento da concepção até a morte natural. É fundamental, desde a família e paróquias, educar aos jovens no sentido e no valor cristão da sexualidade.

Potenciar uma Igreja missionária ministerial e laical

15. Potencializar o desenvolvimento de uma Igreja em saída que rompa os moldes de uma Igreja demasiada clerical, e abra caminhos firmes e decididos para uma Igreja ministerial e participação laical, que coloca seu olhar em Cristo e nos irmãos necessitados, desorientados e não crentes. Fortalecer uma Igreja na qual os leigos assumam sua responsabilidade testemunhal e missionária orientada para a alegria do Evangelho a serviço dos outros, especialmente, dos que sofrem e dos pobres. Nesta linha, apoia-se a proposta emblemática da criação de um ministério reconhecido, laical e feminino, através do qual se reconhece à mulher, seu extraordinário serviço à evangelização como uma realidade viva e se institucionaliza uma participação estruturada na missionariedade da Igreja do nosso tempo. Propôs-se o termo de ginacolitado, sendo que o acolitado é uma expressão eclesial vigente para um ministério laical, porém fica como tema aberto para estudo, análise e aprofundamento.

Promover e cuidar das vocações para a vida sacerdotal e religiosa

16. É preciso promover e cuidar as vocações para a vida sacerdotal e religiosa como formas de vida especificamente evangelizadora e profética no mundo atual. Para isso, é preciso elaborar projetos de formação para os seminários e Institutos religiosos, nos quais a entrega missionária para viver a radicalidade do seguimento a Cristo morto e ressuscitado, seja apresentada, cuidada e desenvolvida com entusiasmo e a imensa alegria do Espírito das Bem-aventuranças.

Celebrar a fé e a religiosidade popular em chave missionária

17. É primordial cuidar de todas as celebrações da Eucaristia, cume e fonte de nossa vocação cristã e dos sacramentos: prepará-las com esmero, valorizar a acolhida, potenciar os gestos e sinais, cuidar da linguagem, da homilia, dos cantos, da música e comentários, de maneira que conectem melhor com a sensibilidade, preocupações e inquietudes do homem contemporâneo (IL 260-266). É vital cuidar da preparação e celebração do sacramento do perdão e da reconciliação e atender com esmero os sacramentos do Batismo, Matrimônio, a Unção dos enfermos, sem descuidar da importância dos funerais. Do mesmo modo, deve-se depurar e orientar, segundo o Evangelho, a rica religiosidade popular e a devoção a Virgem Maria de nossas comunidades.

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