Aprofundando a Missão |
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A Missão Universal Nos 40 anos do Decreto Conciliar Ad Gentes
Pe. Daniel Lagni “Euntes ergo docete omnes gentes,
Antes de tudo, eu gostaria de manifestar minha profunda alegria por estar aqui com vocês, na região de nosso país missionária por excelência. Quero cumprimentar a todos e parabenizar a Igreja do Regional Norte 1 pela feliz iniciativa de promover este Congresso. E gostaria de convidá-los a uma breve reflexão sobre a Missão universal da Igreja em nossos dias. Um mártir de hoje
Em 2002 morria em Roma, aos 74 anos de idade, um grande mártir e missionário dos nossos tempos. Falo do Card. Francisco Xavier Nguyen Van Thuan. Ele passou 13 anos nas prisões comunistas do seu país, o Vietnã, continuando uma tradição de família: entre 1698 e 1885, seus antepassados paternos sofreram muitas perseguições. Seu bisavô contava-lhe que, na idade de 15 anos, fazia 30 quilômetros a pé para levar arroz e sal ao pai, preso por ser católico. Nascido em 1928, em 1967 foi nomeado bispo de Nha Trang e, no início de 1975, coadjutor de Saigon, capital do Vietnã. Poucos meses depois, os comunistas conquistaram Saigon, acusaram-no de participar de um "complô entre o Vaticano e os imperialistas", e prenderam-no no dia 15 de agosto de 1975, festa da Assunção de Maria. Tinha só a roupa de corpo e o terço no bolso. Mas, dois meses depois, já começou a escrever mensagens da prisão à sua família e à comunidade cristã, em pedacinhos de papel que uma criança lhe trazia às escondidas. Durante os primeiros anos, passou de uma prisão a outra, até que foi relegado a um isolamento total, por nove anos. Viveu essa dura realidade, "preenchendo-a de amor", como ele mesmo se expressou. Não tinha Bíblia consigo, então escreveu mais de 300 frases do Evangelho que lembrava de cor. Cada dia, às três horas da tarde (a hora da morte de Jesus na cruz) rezava a Missa. O altar era a mão, na qual colocava algumas migalhas de pão, três gotas de vinho e uma de água. No início da prisão, as autoridades haviam-lhe permitido escrever uma carta à família, para que pudesse pedir as coisas mais necessárias. Entre outras, pediu um remédio para a digestão. Os familiares entenderam o que ele realmente queria e lhe enviaram uma garrafinha de vinho de missa com a etiqueta "Remédio para dor de estômago". Guardava as migalhas de pão consagrado em pacotes de cigarros. Ele testemunhou: "Quando estava na prisão, o sistema nervoso estava um pouco desgastado, e, às vezes, eu não conseguia rezar. Então, por fim, peguei um tema só: viver o testamento de Jesus: “Que todos sejam um” (Jo 17,21). E viver o testamento de Jesus é um assunto imenso para mim, que nunca se esgota. Então pensei: vivo o testamento de Jesus, sendo como Jesus, cada momento, cada minuto da vida, para ser santo". Traduziu isso, sobretudo, no amor ao próximo, na pessoa de seus carcereiros. Tratava-os com bondade, sorria-lhes, falava de suas viagens, explicava como vivem as pessoas no exterior, falava de economia, de liberdade, de tecnologia. Isso estimulou a curiosidade deles, até o ponto de quererem aprender línguas estrangeiras. Foram eles que o ajudaram a fazer uma pequena cruz de madeira e uma corrente de ferro para carregá-la no pescoço. Daquela cruz ele nunca mais se separou, e foi a sua cruz de cardeal. Foi libertado em 21 de novembro de 1988, festa da apresentação de Maria no templo. Em 1994, foi chamado a Roma pelo Papa João Paulo II, que o nomeou vice-presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz, do qual, em 1998, foi eleito presidente. Em 2001, foi nomeado cardeal. Ao iniciar o retiro espiritual para o Papa e Cúria Romana no ano de 2000, ele afirmou: "Eu, Francisco, servo de Jesus Cristo, o menor entre os sucessores dos Apóstolos, não acredito que conheça muitas coisas em comparação aos senhores, exceto Jesus Cristo crucificado". Ele fazia suas as palavras do grande Apóstolo do Povos, São Paulo, na 1ª Carta aos Coríntios, capítulo 2, versículo 2: “Pois, entre vós, não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado”. Proponho então a vocês trechos de uma conferência (com alguns acréscimos e comentários nossos) do Card. Van Thuan, de maio de 2002, alguns meses antes de sua morte. São reflexões que nos oferecem, apontam e sugerem orientações seguras para a vivência da Missão universal “ad gentes” e além-fronteiras.
Uma Igreja Missionária para o 3º Milênio
São palavras de Dom Thuan: “‘Eu gostaria de tentar exprimir a minha visão sobre a Missão universal da Igreja, amadurecida tanto nos anos de sofrimento na prisão, quanto nos serviços, para a Igreja no mundo todo, confiados a mim pelo Papa, depois que eu fui solto. Eu redescobri com luz nova a história missionária do passado, e, ao mesmo tempo, fiquei sempre mais convicto de que a Missão é sempre possível, também, e, sobretudo, nos momentos de sofrimento. Eu experimentei a força renovadora do Evangelho, especialmente nos momentos nos quais todas as portas da evangelização pareciam definitivamente fechadas. Desenvolver uma Missão mais coerente com o Evangelho tem sido uma constante reflexão sobre o que significa ser Igreja Missionária hoje. Para mim, a chave de compreensão foi sempre a pessoa de Cristo, a sua mensagem, o seu mistério pascal de morte e ressurreição (cristocentrismo). Não é possível amar a Missão, sem partilhar a mesma vida de Cristo. Um conhecimento d’Ele ao longo da vida leva a viver em sintonia com “os seus sentimentos” (Fl 2,5): “Tenho ainda outras ovelhas” (Jo 10,16), “Vinde a mim todos vós” (Mt 11,28), “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda criatura!” (Mc 16,15). Desejo aprender sempre melhor o apaixonante tema da Missão, sem impedimentos e sem fronteiras...
1. Um olhar de fé para o passado missionário da Igreja Somos herdeiros de uma história de graça e de uma herança apostólica de mais de 20 séculos. Trata-se de uma história de pessoas e de comunidades concretas, desde os apóstolos até hoje. Há sempre luzes e sombras, como em toda a História da Salvação, mas sempre é possível entrever e sentir a presença e a voz de Cristo ressuscitado: “Eis que estou convosco” (Mt 28,20). Somos, portanto, a comunidade do Ressuscitado, o qual ilumina, purifica e transforma todas as nossas limitações, fazendo de nós instrumentos vivos do próprio Cristo: “Eu plantei, Apolo regou, mas era Deus que fazia crescer. De modo que nem o que planta nem o que rega são propriamente importantes. Importante é aquele que faz crescer: Deus. Pois nós somos colaboradores de Deus” (1Cor 3,6-7.9). A “memória” do passado é sempre necessária e útil para agradecer a Deus, mas também para experimentar novamente o perdão e a misericórdia. Só assim é possível aprender a perdoar, a ouvir e acolher os outros sem distinção de raça, cultura e religião. Compreende-se melhor a Missão na “teologia vivida” dos santos missionários. Avalia-se melhor a Missão no contexto histórico, sem visões fora de época. Uma grande lição, difícil de aprender, é compreender que a Missão “ainda se encontra nos inícios” (Encíclica Redemptoris Missio, 1). Para poder chegar a “formar Cristo” (Gl 4,19) em cada coração humano, de modo a transformar todos os batizados em “filhos no Filho” (Ef 1,5; cf. Gaudium et Spes, 22), é preciso ter a paciência milenar de Deus. A nós falta esta paciência, e, por isso, às vezes, olhamos o passado de modo negativo demais. A minha experiência de prisão fez-me valorizar os maiores valores dos missionários e catequistas do passado no Vietnã. Quantas vezes eu me lembrei dos mártires e dos santos. Lembrando os inícios e o desenvolvimento da evangelização no Vietnã, eu aprendi a amar mais a Igreja, assim como a amou Jesus: “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25). Esta história passada no Vietnã, que é parecida com a de tantos países, foi o fundamento do atual reflorescer, que se renova sempre mais. Observo, às vezes, uma tentação bem comum: interpretações generalizadas do passado, às vezes com um tom de amargura e desânimo. Esta atitude não contribui para a vivência do presente com alegre esperança, que é sempre confiança e dedicação. Amando as nossas raízes missionárias, descobriremos melhor as novas possibilidades do presente e do futuro.
2. Viver o presente com olhar contemplativo Encontramo-nos diante de situações novas, que exigem novas posturas, sempre mais evangélicas. A humanidade já é mundo “globalizado”, no qual os relacionamentos são sempre mais plurirreligiosos e pluriculturais. Os que morreram nas torres gêmeas em Nova York (em 11 de setembro de 2001) eram de oitenta países diferentes. Em algumas grandes cidades, como em Los Angeles, são faladas mais de cem línguas. Nas nossas cidades, cada vez mais, os rostos das pessoas mostram um cruzamento planetário de culturas e etnias. Encontramo-nos diante de uma nova época na história humana. Os problemas tornam-se comuns em toda parte do mundo. As fronteiras geográficas foram rompidas; outras, porém, foram erguidas. Quando o Evangelho foi anunciado no século II na região do Mar Mediterrâneo, na Europa, norte da África e Oriente Médio, havia uma situação parecida, mas limitada e reduzida: os países estavam ligados por uma língua comum (o grego “koiné”), pelas estradas do Império Romano e por necessidades econômicas e sociais comuns. Agora, pela primeira vez na história, esta situação está se tornando “global”, com todas as suas conseqüências positivas e negativas. É necessário chegar a uma “globalização” realmente solidária, de membros de uma só família humana. Encontramo-nos diante de possibilidades novas de evangelização, como nunca ocorreu na história. Parece uma situação privilegiada em termos geográficos, sociológicos e culturais (cf. Redemptoris Missio, n. 37-38). Mas neste contexto global surgem novos desafios: a vida familiar, os critérios morais, os problemas da justiça e da paz, a pobreza de grandes massas de população, as migrações, os refugiados ambientais...
Para nós, todas estas situações são campos de Missão, nos quais deve ressoar, sem fronteiras, a mensagem evangélica das bem-aventuranças e do mandamento do amor. Quando se apresentam situações novas, existem também novas graças para poder enfrentá-las. Em toda parte, pode-se constatar um despertar missionário, especialmente nas Igrejas jovens, de evangelização mais recente. Em toda parte desperta-se um sentimento de solidariedade e uma sensibilidade mundial. Os documentos do Concílio Vaticano II, e os que a ele se seguiram, de modo especial, as exortações pós-sinodais (sobre a África, Ásia, América, Oceania e Europa), são um espelho que reflete tanto as novas situações quanto as novas graças, com os desafios a serem enfrentados pela Missão. Uma questão fundamental é a necessidade de renovado fervor nos apóstolos. Diante dos novos desafios e das novas graças, parece que seja urgente uma atitude missionária a exemplo da Igreja primitiva. Existem novos campos de Missão, quase completamente esquecidos, em termos geográficos, sociológicos e culturais. É preciso a “criatividade da caridade, que suscite não só a eficácia dos serviços prestados, mas também a capacidade de tornar-se próximos, solidários com que sofre, de modo que um gesto de ajuda não seja sentido como uma esmola humilhante, mas como uma partilha fraterna” (Novo Millennio Ineunte, nº 50). Quanto a nós, devemos viver com paixão o momento presente, sem amarguras nem exclusivismos, sem discussões teóricas e estéreis. As diferenças de dons e carismas, recebidos do mesmo Espírito Santo, enriquecem a evangelização. Com profundo sentido de unidade (que não se trata de forma alguma de uniformidade), constrói-se a Igreja, comunhão de toda a humanidade, como reflexo da vida trinitária de Deus-Amor. “Que os missionários e missionárias, que consagraram toda a vida para testemunhar entre os povos o Ressuscitado, não se deixem intimidar por dúvidas, incompreensões, rejeições, perseguições. Possam despertar a graça do próprio carisma, e retomar corajosamente a caminhada” (RM 66). As vocações missionárias não germinam onde existe um ambiente de tristeza, onde falta o amor à Igreja e a expectativa de uma alegre esperança. A Missão acontece sendo “alegres na esperança” (Rm 12,12), na esperança que “não decepciona” (Rm 5,5). Cada um dos que crêem e as comunidades cristãs, como corpo eclesial, tornam-se realmente missionários, quando são autenticamente solidários em nível universal, ou seja, comunidades e Igrejas-Irmãs, nas quais tudo é partilhado, como expressão do fato de ser “um só coração e uma só alma” (At 4,32) com abertura universal. A presente fase da história deve seguir o caminho da esperança “contra toda esperança” (Rm 4,18), O nosso ponto de apoio não são os poderes deste mundo (riquezas, ambições, honras...), mas a cruz do Senhor, enquanto expressão máxima de doação. Ela é a verdadeira força na fraqueza (cf. 2Cor 12,10). O nosso momento presente é um momento privilegiado e maravilhoso da História da Salvação, o qual não podemos desperdiçar, pois é um momento histórico único. Ele é um “kairós”, um tempo de graça.
3. Uma visão de esperança para o futuro da Missão Podemos afirmar, sem hesitação, que se prevê em um futuro breve uma nova etapa de evangelização. Vemos “alvorecer uma nova época missionária” (RM 92). Quando a encíclica missionária de João Paulo II afirma esta realidade encorajadora, coloca uma condição: “Se todos os cristãos e, especialmente os missionários e as Igrejas jovens, responderem com generosidade e santidade aos apelos e desafios do nosso tempo”. Todos os grandes santos e missionários de cada época foram uma surpresa histórica imprevisível, preparada, certamente, por muitas pessoas, quase sempre desconhecidas e esquecidas: pais, educadores, párocos, doentes, contemplativos... Os acontecimentos históricos e as estatísticas são úteis e interessantes, mas não são irreversíveis. Quando surge um novo “carisma” na Igreja ou quando se vive melhor um “carisma” já recebido em uma família eclesial, a história muda e transforma-se de modo surpreendente e inesperado. Os “sinais dos tempos” (Mt 16,3) são um convite a reler os acontecimentos da história à luz da Palavra de Deus e, mais concretamente, à luz do mistério pascal da morte e ressurreição de Cristo, que se comparou ao grão de trigo que morre debaixo da terra para dar abundantes frutos (cf. Jo 12,24). Eu gostaria de indicar algumas linhas de leitura para preparar o futuro da evangelização, vivendo plenamente a atualidade do presente, e recolhendo a herança de graça do passado. Hoje todas as culturas e religiões questionam a nós cristãos sobre qual seja a nossa particularidade na relação com Deus, isto é, a nossa experiência específica de Deus. Talvez este seja o maior desafio que a Igreja tenha tido em 20 séculos. Como discípulos de Cristo, perguntam também a nós: “Queremos ver Jesus” (Jo 12,21). “Pedem aos que crêem hoje não só que ‘falem’ de Cristo, mas, de certo modo, que o ‘mostrem’” (NMI 16). Realmente, a Missão consiste em, sob a ação do Espírito, “transmitir aos outros a própria experiência de Jesus” (RM 24). A Missão só é possível a partir de um encontro existencial com Cristo: “Quem tenha realmente encontrado Cristo não pode guardá-lo para si, mas o deve anunciar” (NMI 40). A leitura orante da Bíblia pode ser um meio excelente e uma escola missionária para poder dizer como os apóstolos: “Nós vimos o Senhor!” (Jo 20,25; cf. 1Jo 1,1s). O anúncio apaixonado de Cristo é fruto do amor apaixonado por Cristo (cf. Vita Consacrata, nº 76 e 109). Reconhecer e ajudar a amadurecer as “sementes do Verbo” (cf. DV 8) é uma prioridade urgente da Missão no futuro próximo. O próprio Espírito Santo que semeou estas “sementes” leva-as à “maturidade em Cristo”. “É também o Espírito Santo que distribui as “sementes do Verbo” presentes nos ritos e nas culturas, e as prepara para o amadurecimento em Cristo” (RM 28). Poderíamos perguntar por que estas “sementes do Verbo”, semeadas desde séculos, ainda não alcançaram a maturidade do encontro explícito com Cristo. Com efeito, “o Verbo Encarnado é a realização de uma aspiração presente em todas as religiões da humanidade. Esta realização é obra de Deus, e vai além de todas as expectativas humanas. É mistério de graça” (Tertio Millennio Adveniente, nº 6). Mas Deus quer a nossa colaboração missionária. As “sementes do Verbo” têm necessidade de ver em nós as “marcas” do Verbo aceito e vivido pessoalmente nos critérios, nos valores, nas atitudes pessoais e comunitárias. O processo de inculturação e o diálogo inter-religioso desenvolvem-se com autenticidade quando são fruto da contemplação da Palavra, a qual dá a capacidade de descobrir as “sementes do Verbo”. Só Jesus é o Verbo Encarnado, “a Palavra definitiva do Pai” (TMA 5), e, portanto, o único Salvador, que não destrói, mas faz que se complete a preparação evangélica” que Deus semeou nas culturas e nas religiões. O Cristianismo, ao comunicar esta verdade transcendental da revelação divina, deve aprender das outras culturas e religiões (que são portadoras das “sementes do Verbo”) para aprofundar e viver melhor os conteúdos definitivos da revelação cristã. “O dever missionário, por outro lado, não nos impede de dialogar intimamente, dispostos à escuta. A própria Igreja nunca terminará de aprofundar este mistério da Graça, infinitamente rico de dimensões e de implicações para a vida e a história do homem. Este princípio encontra-se na base não só do inesgotável aprofundamento teológico da verdade cristã, mas também do diálogo cristão com as filosofias, as culturas, as religiões. Não raramente o Espírito de Deus, que “sopra onde quer” (Jo 3,8), suscita na experiência humana universal, apesar das inúmeras contradições, sinais da sua presença, que ajudam os próprios discípulos de Cristo a compreender mais profundamente a mensagem da qual são portadores. Não foi, afinal, com esta humilde e confiante abertura que o Concílio Vaticano II se dedicou a ler os “sinais dos tempos”? Embora procure, com dedicação e cuidadoso discernimento, reconhecer os “verdadeiros sinais da presença e do desígnio de Deus”, a Igreja reconhece que não só deu, mas também “recebeu da história e do desenvolvimento da humanidade”. Esta atitude de abertura, juntamente com um atento discernimento, o Concílio introduziu também com relação às outras religiões. Agora cabe a nós seguir o seu ensinamento e caminho percorrido com grande fidelidade” (NMI 56). Cada missionário e cada comunidade missionária são chamados a ser Evangelho vivo e aberto, como concretização das Bem-Aventuranças. Lembrando o testemunho de Madre Teresa de Calcutá, realmente se pode afirmar que “o missionário é o homem (e a mulher) das Bem-Aventuranças” (RM 91). O verdadeiro profetismo cristão é o testemunho das bem-aventuranças. É preciso coragem para realizar a renovação eclesial, segundo o estilo de São Francisco de Assis e de tantos santos e fundadores missionários. Os Encontros de Religiões com o Papa João Paulo II, em Assis (Itália), em 1986 e 2002, foram antecipações do futuro. Estes eventos não teriam sido possíveis sem este profetismo que confunde outros pontos de vista baseados no poder e na violência. São necessários homens e mulheres tocados pela cruz. Sem a experiência de ter transformado o sofrimento em alegre doação, não existe fecundidade apostólica, porque então faltaria a capacidade de escuta, de serviço humilde, sem privilégios, de gratuidade, de doação incondicionada, de coerência, de pobreza e simplicidade evangélica, de disponibilidade missionária... Temos necessidade de redescobrir a Missão e a teologia missionária, vivida pelos santos missionários de todos os tempos. Tanto a reflexão teológica quanto a ação pastoral devem ser teologia e pastoral vividas por pessoas autênticas e coerentes que procurem viver seriamente o Evangelho. O sinal da comunhão eclesial é um eficaz sinal de evangelização (cf. Jo 13,55; 17,23; At 4,32). A Igreja será missionária, ou seja, “sacramento universal de salvação” (AG 1), à medida que for reflexo da comunhão trinitária de Deus-Amor. A “comunhão” eclesial é um fato evangelizador, pois que é sinal “sacramental”, isto é, um eficaz sinal de evangelização. As diferenças dos ministérios, vocações e carismas, no conjunto do desígnio salvífico querido por Cristo, convergem na unidade harmoniosa de uma família eclesial na qual o primado (o primeiro lugar) pertence sempre à caridade. Por isto, o serviço do sucessor de Pedro equivale, segundo a expressão de Santo Inácio de Antioquia, ao serviço daquele que “preside a caridade” universal. As tensões entre os ministérios, vocações e carismas normalmente surgem da defesa de privilégios não evangélicos. As diferenças dos dons recebidos não produzem divisão, uma vez que eles procedem do mesmo Espírito. A construção da justiça e da paz é possível somente à luz do mandamento do amor e por meio de comunidades unidas, que sejam escolas de comunhão universal. A “globalização” será justa e pacífica, quando se tornar solidariedade autêntica entre todas as famílias dos povos.
Finalizando... Uma vez que temos necessidade de viver a Missão movidos pelo Espírito “corajosamente” (At 4,31) e “alegres na esperança” (Rm 12,12), eu gostaria de fazer uma proposta simples e concreta: retomarmos os principais documentos sobre a Missão: inicialmente, o Decreto Ad Gentes, sobre a atividade missionária da Igreja, do Concílio Vaticano II, publicado há 40 anos, e ainda muito atual e que merece o nosso aprofundamento; a Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, sobre a evangelização no mundo contemporâneo, do Papa Paulo VI, publicada em 1975; a Encíclica Redemptoris Missio, sobre a permanente validade do mandado missionário, do Papa João Paulo II, publicada em 1990. Estes e outros documentos da Igreja universal, e também dos nossos bispos, são fundamentais para a nossa formação e vivência missionárias. Enfim, concluindo com a Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, do Papa João Paulo II, que nos orienta neste início do 3º Milênio da Era Cristã: “O mandado missionário introduz-nos no terceiro milênio, convidando-nos ao mesmo entusiasmo que era característico dos primeiros cristãos. Podemos contar com a força do mesmo Espírito, que veio em Pentecostes, e nos move hoje a prosseguir seguros na esperança “que não engana” (Rm 5,5)” (NMI 58). Somos chamados a progredir com coragem e alegria neste caminho de esperança. “Acompanha-nos neste caminho a Virgem Santíssima, ‘Estrela da Nova Evangelização’, aurora luminosa e guia segura no nosso caminho” (NMI 58). Sejamos “alegres na esperança”, porque experimentamos a presença de Cristo que nos acompanha sempre e “nos espera no coração de cada pessoa” (RM 88). “Que Jesus ressuscitado, que caminha conosco e foi reconhecido pelos discípulos de Emaús “ao partir o pão” (Lc 24,35), nos encontre vigilantes e prontos a reconhecer o seu rosto e correr até nossos irmãos levando a grande notícia: “Nós vimos o Senhor!” (NMI 59). Este será certamente o caminho para construir a paz mundial, segundo o desígnio de “recapitular tudo em Cristo” (Ef 1,10). Com um coração unificado, vivendo com amor e responsabilidade o mistério da Igreja, comunhão missionária, seremos “promotores da paz” (Mt 5,9) sem fronteiras, prontos a evangelizar generosamente por este mundo afora, a todos os povos, “ad gentes”...”’
Documentos Citados
AG: Decreto Ad Gentes, sobre a atividade missionária da Igreja, do Concílio Vaticano II (1965).
EN: Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, sobre a evangelização no mundo contemporâneo, do Papa Paulo VI (1975).
GS: Constituição Pastoral Gaudium et Spes, sobre a Igreja no mundo contemporâneo, do Concílio Vaticano II (1966).
RM: Carta Encíclica Redemptoris Missio, sobre a permanente validade do mandado missionário, do Papa João Paulo II (1990).
TMA: Carta Apostólica Tertio Millennio Adveniente, em preparação ao Jubileu do Ano 2000, do Papa João Paulo II (1996).
NMI: Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, na conclusão do Grande Jubileu do Ano 2000, do Papa João Paulo II (2001).
Para Refletir
1. Tendo como modelo a Santíssima Trindade, quais atitudes podemos vivenciar em nossa ação missionária? 2. Por que a Missão deve ter necessariamente dimesão universal, “ad gentes”, além-fronteiras? 3. Qual é o papel do Espírito Santo na evangelização, no contexto da pluralidade e da diversidade? Qual seria (é) a contribuição específica da Igreja do Regional Norte 1 para a Missão universal?
1. Daniel Lagni é sacerdote da Arquidiocese de Goiânia, GO, Diretor Nacional das Pontifícias Obras Missionárias (POM) do Brasil e Representante dos Diretores Nacionais das POM da América Latina e Caribe. 2. “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome o Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,19s)
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