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Aprofundando a Missão

MISSÃO E EVANGELIZAÇÃO INTEGRAL

 

Dentro do grande tema da Missão existe uma perspectiva muito específica e mais querida pela nossa Igreja na América e no Brasil: a promoção humana e o compromisso social do cristão, como parte integrante da evangelização e da Missão.

Desde a opção pelos pobres, a Igreja na América Latina busca realizar uma evangelização que dignifique o pobre, com o qual nos solidarizamos todos nós, à medida que vivemos encarnados neste continente empobrecido e marginalizado, porém esperançosos, e de uma "riqueza" solidária ímpar.

Ao longo da história do Cristianismo, este compromisso social, fixado ultimamente na Doutrina Social da Igreja (DSI), tem, no dizer do Papa João Paulo II, "um valor de instrumento de evangelização". A Nova Evangelização, "da qual o mundo moderno tem urgente necessidade... deve incluir entre seus elementos essenciais o anúncio da Doutrina Social da Igreja. Para a Igreja, ensinar e difundir a Doutrina Social é algo próprio da sua Missão evangelizadora e faz parte essencial da mensagem cristã".

Sobre a questão social, a Igreja tem ensinado, dando a sua contribuição. O fato é complexo, e exige uma resposta, não automática ou mágica, mas com criatividade e coragem, que se fundamentam no Evangelho da Vida. O Papa João XXIII advertiu sobre a importância da educação e da ação social, e da intervenção dos leigos neste compromisso. Os leigos têm um papel primordial na questão social. Todos têm um compromisso nas respectivas profissões e funções na sociedade. Eles têm um campo específico de evangelização e conscientização política nos ambientes de trabalho. Trata-se de um compromisso e de uma opção bem definida, para enfrentar com coragem os problemas, como as desigualdades, a discriminação das minorias, a violação dos direitos humanos, as injustiças de diversos matizes... de tal maneira que a pessoa cresça na sua capacidade de discernimento e de atuação na sociedade.

Não poderemos deixar de dar um destaque à opção preferencial pelos pobres. O documento dos bispos latino-americanos reunidos em São Domingos (1992) afirma: "Assumimos com renovado ardor a opção evangélica preferencial pelos pobres, em continuação com Medellin e Puebla. Esta opção, que não é nem exclusiva, nem excludente, iluminará, à imitação de Jesus Cristo, toda nossa ação evangelizadora".

Está acontecendo em todas as partes um momento histórico caracterizado como uma "mudança de época". Uma época de crises de valores, com um processo de globalização que parece frustar os sonhos de uma sociedade justa e solidária. O Sínodo da América debateu o tema da Nova Evangelização no Continente. Os povos do Norte, e também as elites do Sul, usufruem de riquezas à custa da exploração das nações pobres da América Central, Caribe e América do Sul, resultado do sistema do Capitalismo selvagem.

É bem verdade que na América os pobres necessitam de um novo anúncio de esperança, de valores sustentados na visão da Fé, a visão crítica e a visão da transformação social.

Esta busca da esperança, comunitária e pessoal, exige de todos uma responsabilidade da qual não podemos nos evadir. Dizia Gandhi: "Vocês que vêem, o que fazem com a luz que têm?". Os cristãos não podem renunciar a esta luz do Evangelho, que somos chamados a propagar no meio em que nos encontramos e no mundo inteiro, sem cair no dogmatismo, no moralismo, ou na crítica destrutiva, nem no desânimo.

1. Fé e Vida
A fé, pela força do Espírito, torna-se vida, ou não é fé. Vejamos um pouco a trajetória de um homem de fé, que se tornou vida e semente para a paz em El Salvador.

Oscar Arnulfo Romero Galdámez nasceu na cidade de Barrios (El Salvador), em 15 de agosto de 1917, Dia da Assunção da Virgem Maria.

No dia 25 de abril de 1970 foi ordenado Bispo Auxiliar de São Salvador, com o lema de sua vida: Sentir com a Igreja.

Os anos em que passou como Auxiliar foram muito difíceis para Dom Romero, devido a um sacerdócio tradicionalista, com posturas conservadoras diante da situação, que não se adaptava à pastoral social que impulsionava a Arquidiocese, além do difícil ambiente que se respirava na capital. Em El Salvador a situação da violência era assustadora.

Romero foi nomeado Arcebispo de São Salvador em 3 fevereiro de 1977 e tomou posse dia 22 do mesmo mês, em uma cerimônia muito singela. Tinha 59 anos, e sua nomeação foi uma grande surpresa.

Sua luta, ou conversão, como ele mesmo dizia, começou com um grupo de camponeses, inclusive crianças, que regressavam de um ato litúrgico, e foram assassinados sem compaixão por alguns militares. Até então Dom Romero não havia compreendido que, detrás das autoridades civis e militares, detrás mesmo do Presidente da República, Artur Armando Molina, que era seu amigo pessoal, havia uma estrutura de terror, que eliminava de seu caminho todos que pareciam atentar contra os interesses da "pátria", que nada mais eram que os interesses da elite. O acontecimento marcou um novo horizonte para Dom Romero.

Oscar Romero começou a identificar-se mais com os pobres e a chamar os assassinos e opressores pelo nome. Sua opção começou a dar frutos na Arquidiocese, o clero se uniu mais a ele, os fiéis sentiram o chamado e a proteção de uma Igreja que lhes pertencia. A situação complicou-se cada vez mais. Uma nova fraude eleitoral colocou o general Carlos Humberto Romero na presidência. A voz e os direitos do povo eram cada vez mais silenciados pela violência e opressão da elite salvadorenha apoiada pelos Estados Unidos.

Lendo algumas homilias de Dom Romero, compreendi que em nossos dias não precisamos recorrer a um Santo Ambrósio, Arcebispo de Milão, do século 11, para encontrarmo-nos com um gigante defensor dos pobres e oprimidos, diante das injustiças e espoliação cometidas pelos ricos e pelos governos. Com a mesma força do alto com que Santo Ambrósio negou a entrada no templo ao imperador Teodócio I, até que não reparasse em público seu pecado pelo assassinato de centenas de soldados dizimados, Dom Romero defendeu o seu rebanho, diante dos injustos e opressores, com a voz do Evangelho, sem rodeios diplomáticos, até morrer assassinado no dia 24 de março de 1980, às 6 horas e 25 minutos, enquanto celebrava missa num hospital. Silenciaram-lhe a voz, mas o seu sangue derramado é semente da paz e de novos cristãos comprometidos com a causa do Evangelho.

Mataram Dom Romero, porque foi fiel a Jesus Cristo, na sua Igreja. Uma Igreja que O anuncia como uma realidade que humaniza, sobretudo em tempos de injustiças sociais, mesmo no mundo de batizados.

Tantos irmãos mártires foram e são protagonistas de uma Igreja preocupada não com ela mesma, mas com o mundo e a história na qual ela está inserida, uma Igreja entregue ao serviço de toda humanidade, como sinal e instrumento do Reino. Por isso são considerados perigosos pelos ricos e opressores, e tachados de revolucionários por gente da própria Igreja, ancorada ainda no anúncio de uma fé intimista e voltada para o passado.

A vida de Dom Romero foi a encarnação de sua fé. Ele nunca imaginou chegar a ser mártir pelo seu povo "traspassado" como Cristo na cruz pelas injustiças dos poderosos. Sua vida e seu martírio foram simplesmente a conseqüência de um princípio sincero e claro: "ou odeia o povo, ou odeia o Evangelho"; uma olhada na vida e na dura realidade quotidiana é uma olhada de fé no Evangelho. Um professor dizia, em Roma, que o cristão comprometido é aquele tem, em uma mão, a Bíblia, e, na outra, o jornal. A fé encarnada na vida é o glorioso testemunho missionário dos pequenos-grandes discípulos de Cristo em todos os momentos da história e em todas a regiões do mundo, e, aqui hoje, na América Latina, já deu, só nos últimos trinta anos, mais de seiscentos mártires que tombaram pela causa da justiça e do Evangelho.

2. A Fé ilumina a realidade

Cada pessoa é parte integrante do projeto de Deus. Toda pessoa é uma obra de arte feita pelo Divino Artista: tem, portanto, um valor incomensurável. Quando alguém encarna em sua vida a fé que proclama, esse projeto de Deus faz-se seu. Como Deus-Pai se faz atento ao clamor dos que sofrem e buscam a justa relação entre todos os homens-irmãos, o cristão deve estar atento, por causa de sua fé, à realidade que clama ao coração. Por isso cada cristão, vivendo sua fé como acontecimento e como compromisso com o projeto libertador, não está "frente a", mas "na" realidade; não está "contra", mas "com" os demais seres humanos. O que implicar ver e compreender a realidade com atitudes singulares:

  1. Ver a realidade com sensibilidade e com misericórdia. Ver com o coração, não com preconceitos e pré-julgamentos ou condenação (cf. Lc 7,11-15).
  2. Ver com o compromisso, assumindo a realidade, com interesse na busca de soluções. (cf. Mc 6,34-44).
  3. Ver criticamente, denunciando. Ser consciente no discernimento e nas opções. (cf. Mc 11,15-19)
  4. Ver com esperança, com utopia. A realidade pessoal e a história são manifestações e realizações do Reino de Deus.