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Aprofundando a Missão

Experiência evangelizadora no Continente Americano

Dom Erwin Kräutler

Não me atrevo, em absoluto, a falar sobre a experiência evangelizadora em nível de todo o Continente Americano, desde o Alasca até a Terra do Fogo; nem sequer no âmbito da América do Sul. Seria muita pretensão ou presunção. Sou um missionário que vive há 37 anos na Amazônia, 22 dos quais, como bispo. Minha missionariedade, eu a vivi e continuo vivendo toda ela na região do Rio Xingu, grande afluente do Rio Amazonas, que deu o nome à Prelazia, de que hoje sou bispo. Sagrado em 25 de janeiro de 1981, tornei-me pastor da maior circunscrição eclesiástica do Brasil, com mais de 350 mil km2, maior que a Itália e muitos países latino-americanos. Em 1983 fui eleito presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), cargo que ocupei, por dois mandatos consecutivos, até 1991. Foi a época em que o Brasil elaborou sua nova Constituição Federal. Cabe, em grande parte, à Igreja Católica, e ao braço indigenista dela, o Cimi, o mérito de estarem inscritos na Carta Magna de 1988 os direitos dos povos indígenas, antes homens e mulheres sujeitos à tutela do Estado, como se fossem crianças ou excepcionais. Descobri naquele tempo de luta pelos direitos indígenas uma forma de missionariedade bem distinta, e vivi uma experiência evangelizadora antes nunca imaginada. Em 1995 fui eleito membro da Comissão Episcopal de Pastoral da CNBB, um grêmio composto por nove bispos, que se reúne dez vezes ao ano com a Presidência da CNBB, para tratar de todos assuntos concernentes à ação pastoral e evangelizadora da Igreja no Brasil. Recebi a incumbência de ser o responsável pela Dimensão Missionária. Em 1999 fui reeleito para um segundo mandato. É por isso que estou aqui, representando a Igreja que está no Brasil, que amo com entranhado amor.

Quais são os traços mais relevantes da experiência evangelizadora na Igreja no Brasil?

 

O projeto Igrejas-Irmãs

Em 1972, após uma visita da então presidência da CNBB ao norte do país, surgiu entre nós o Projeto Igrejas-Irmãs, visando despertar a solidariedade entre as Dioceses e Regionais. Dom Estêvão Cardoso Avelar, então Bispo-Prelado de Marabá, PA, em entrevista coletiva à Imprensa, comunicou que o episcopado brasileiro incentivaria um programa de ajuda-mútua entre as dioceses brasileiras: "Aquelas que têm maiores recursos, colaborem com as menos favorecidas. Todas as dioceses, ainda que pobres, sempre podem contribuir em favor de outras mais pobres ainda". As palavras de Dom Estêvão foram proféticas, e anteciparam a famosa frase de Puebla: "devemos dar de nossa pobreza".

As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 1995-1998 chamaram nossa atenção para o programa Igrejas-Irmãs, esclarecendo que se trata de uma "iniciativa, historicamente importante no despertar das Igrejas do Brasil para a Amazônia, as Regiões do Oeste e o Nordeste" (DGAEv 248).

No Projeto Rumo ao Novo Milênio se afirmava: "O anúncio exige, sobretudo, uma espiritualidade que torne a Igreja sempre mais missionária" (PRNM 151). Queremos dar um novo impulso à espiritualidade missionária, na esperança de que o novo milênio seja marcado por ações concretas de solidariedade entre as Igrejas.

O terceiro milênio suscita na Igreja um novo ardor na busca de caminhos para anunciar e testemunhar a mensagem libertadora de Jesus, até os confins da terra. A partilha de orações e de recursos humanos e materiais entre as Igrejas constituir-se-á numa demonstração de que realmente queremos um milênio marcado pela justiça e pela paz. Será também um sinal de que a Igreja quer resgatar suas "dívidas internas", provendo do pão eucarístico e do pão material inúmeros irmãos e irmãs que deles estão excluídos, por falta de uma maior racionalidade na distribuição de recursos entre as Igrejas.

Nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 1999-2002, os bispos acrescentam: "A Igreja Particular alimenta a comunhão eclesial, articulando-se com as demais Igrejas do Regional, com a Igreja no Brasil e no mundo, procurando permanentemente reforçar os vínculos de comunhão e contribuir, segundo seus recursos, mesmo com sacrifícios generosos, para a Missão universal e a ajuda a Igrejas-Irmãs particularmente carentes" (DGAE 307).

Gosto sempre de citar as palavras de Dom Paulo Moretto, Bispo de Caxias do Sul, proferidas na 36ª Assembléia Geral da CNBB, em 30 de abril de 1998, ao tratarmos do intercâmbio e da solidariedade entre as Igrejas Particulares no Brasil: "Quando a ajuda missionária não é cultivada por um relacionamento fraterno, mútuo e gratuito, o esquecimento e a fadiga vão tomando o lugar da solidariedade. Sobra um fio de vida, mas já não há vitalidade. Se a ajuda missionária for adiada até o dia em que todas as comunidades locais forem atendidas como merecem, então seguramente não chegará nunca o momento de uma real e generosa colaboração".

 

América, com Cristo, Sai de Tua Terra

Na Exortação Pós-Sinodal Ecclesia in America, o Papa João Paulo II fala da obrigação da Igreja na América de "permanecer disponível para a Missão ‘ad gentes’. O programa de uma Nova Evangelização no Continente, objetivo de muitos projetos pastorais, não pode limitar-se a revitalizar a fé dos crentes habituais, mas deve também procurar anunciar Cristo nos ambientes onde Ele é desconhecido. Além disso, as Igrejas particulares da América são chamadas a estender este ímpeto evangelizador para além das fronteiras do seu Continente. Não podem reservar só para elas as riquezas imensas de seu patrimônio cristão. Devem levá-lo ao mundo inteiro e comunicá-lo a quantos ainda o ignoram. Trata-se de muitos milhões de homens e mulheres que, sem a fé, padecem da mais grave das pobrezas. Diante de tal pobreza, seria um erro deixar de promover a atividade evangelizadora fora do Continente, com o pretexto de que ainda há muito para fazer na América, ou à espera de se chegar primeiro a uma situação, fundamentalmente utópica, de plena realização da Igreja na América" (EA 74).

Quando Puebla cunhou a expressão "devemos dar de nossa pobreza", acrescentou: "Por outro lado, nossas Igrejas podem oferecer algo de original e importante: o seu sentido de salvação e libertação, a riqueza de sua religiosidade popular, a experiência das Comunidades Eclesiais de Base, a floração de seus ministérios, sua esperança e a alegria de sua fé’" (DP 368). É bem verdade que somos uma Igreja de pobres, quando levamos em conta a realidade de penúria e miséria em que se encontra a maioria de nosso povo que enche as igrejas e vive nas comunidades. Somos uma Igreja pobre, também em recursos materiais e financeiros, se a compararmos com as Igrejas que estão na Europa ou na América do Norte. Mas, de jeito nenhum, somos "pobres" em termos de gente apaixonada pela causa do Reino de Deus. Não somos "pobres" de entusiasmo, de "fervor do espírito" (cf. At 18,25), de fé em Deus e no seu Projeto de esperança por "um céu novo e uma nova terra" (cf. Is 65,17; Ap 21,1), de amor que vai "até o fim" (cf. Jo 13,1), até as últimas conseqüências.

O "aggiornamento", desejado e incentivado por João XXIII, e pelo Concílio Vaticano II, engendraram a Conferência de Medellín. A maravilhosa Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi de Paulo VI "latino-americanizou-se" em Puebla. O ardor missionário de João Paulo II é o pano de fundo de São Domingos. O Sínodo para a América uniu o norte com o sul do Continente, para discutir, junto com o Sucessor de Pedro, "as problemáticas da Nova Evangelização nas duas partes do mesmo Continente" (EA 2). Nas últimas décadas surgiu e cristalizou-se sempre mais o "jeito de ser Igreja" da América Latina, na simplicidade e na partilha, na dimensão samaritana e profética das Comunidades Eclesiais de Base, na opção pelos pobres e na solidariedade com os excluídos, nas celebrações vivas e participativas que unem fé e vida, no engajamento generoso de mulheres e homens, jovens e adultos nas diversas pastorais. Ora, isso é obra do Espírito Santo, não só para o "gosto" latino-americano, mas é um dom a ser partilhado com outras Igrejas, até em outros continentes. São talentos que constituem a "riqueza" da nossa Igreja. Não queremos enterrá-los no chão latino-americano (cf. Mt 25,14-30), mas fazê-los frutificar e render também além de nossas fronteiras, dando novo ânimo e alento à Igreja "que se faz presente pelo mundo inteiro".

 

A mística missionária

Não queremos outro colonialismo religioso! Missionariedade não significa "tutela" para com um "menor", "deficiente" ou "excepcional", por parte do maior que se considera locupletado em sua mansão-fortaleza, a ponto de agora poder oferecer algo do seu supérfluo, de cima para baixo, e ainda com muito alarido e com direito de interferir na caminhada da diocese "beneficiada", doravante "subalterna", exigindo uma minuciosa prestação de contas, bem dentro da filosofia de "Quem paga manda!". Nada disso! Missionariedade não é protecionismo eclesiástico ou então sujeição de uma Igreja-Filha-Carente a uma Igreja-Mãe-Dominante, que assume o papel de galinha choca, que bota com seu bico os pintinhos, um por um, debaixo de suas asas. Missionariedade nunca pode nem deve gerar dependência!

Missionariedade tem a ver com gratuidade, simplicidade, entrega, doação e disponibilidade total. O missionário, a missionária, em qualquer parte do mundo onde quiser trabalhar, precisa sair não só de seu país, mas de si mesmo(a), precisa desprogramar-se, aceitar generosamente as novas circunstâncias, mergulhar na realidade cultural diferente e estar pronto para o que der e vier: "Eis a serva, o servo do Senhor! Eis-me aqui Senhor!" Missionariedade é isso!

Proponho uma nova e soleníssima fórmula de envio de missionários(as) para além-fronteiras e "ad gentes":

"Vai meu irmão, minha irmã! Lá, em tua nova Missão, em tua nova terra, em tua nova pátria, anunciarás Jesus Cristo e o seu Evangelho, servirás aos pobres, aos excluídos do banquete da vida, lavando-lhes os pés, falarás com quem nunca andou ou não anda mais conosco. Tu te aproximarás com muito carinho de um povo com cultura e tradições diferentes. Chegando lá, estranharás, sem dúvida, os costumes e usos locais. Mas, não imporás as tuas idéias! Não apresentarás o país que te viu nascer como paraíso! Não dirás nunca que no lugar onde te criaste as coisas são bem melhores! Não darás nunca a impressão de que vieste para ensinar, para civilizar, para instruir, para colonizar! Jamais violentarás a alma do povo que, doravante, será o teu povo! Oferecerás simplesmente o testemunho de tua fé, de tua esperança e de teu amor, e darás a tua vida até o fim, até as últimas conseqüências! Assim, tu terás o privilégio e a felicidade de viver a graça de todas as graças! Encontrarás o Senhor que disse: ‘Depois que eu ressuscitar, irei à vossa frente para a Galiléia’ (Mc 14,28). No Evangelho de São Marcos, um ‘jovem sentado do lado direito’ do túmulo vazio disse às mulheres "Ide, dizei a seus discípulos e a Pedro: ‘Ele vai à vossa frente para a Galiléia. Lá o vereis, como ele vos disse!’ (Mc 16,7). Missão é sempre ir à Galiléia, às Galiléias de todos os continentes! Nossa Senhora Aparecida, de Nazaré, de Guadalupe, e "de tantos nomes mais", te proteja sempre e em todos os lugares por onde andares! Agora, meu irmão, minha irmã, é hora de partir! Desata e enrola de uma vez a tua rede, pega a tua mochila, despede-te de pai e mãe, da família, de quem te ama e a quem tu amas! E vai em frente! Vai em frente! Segue o teu caminho e não olha mais para trás! Todo mundo vai rezar por ti! Vai acender velas ao pé da Santa! Vai com Deus! Vai com Deus! Amém! Amém!"

O grande missionário São Francisco Xavier, que morreu há exatos 450 anos, no dia 3 de dezembro de 1552, na Ilha chinesa de Sancião, com apenas 46 anos de idade, vítima do impaludismo, a malária que tão bem conhecemos e até hoje nos assusta na Amazônia, escreveu: "Considerando a grande graça que o Senhor nos concedeu de enviar-nos a estes lugares, sentimo-nos confusos. Achamos que somos nós que servimos a Ele, porque viemos a estes lugares, enquanto foi Ele que nos faz compreender com extrema claridade o grande dom de sua imensa graça, que nos concedeu trazendo-nos ao Japão, livres de todo apego ao que nos poderia impedir de chegar até Ele".

Missionariedade é isso! Se não existe esta mística, nenhum "projeto" vai decolar, e continuaremos dando voltas ao redor do toco (toco-de-amarrar-besta), não saindo de lugar nenhum, para destino algum.

Dom Erwin Kräutler, Bispo Prelado de Xingu, PA,
Responsável pela Dimensão Missionária da CNBB.
São Salvador (El Salvador), 27 de novembro de 2002.