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O DOM DA MISSÃO
UMA MÍSTICA A RECUPERAR:
POR UMA ESPIRITUALIDADE MISSIONÁRIA
Pe. Daniel Lagni1
Inicio a nossa reflexão sobre a Missão, no contexto deste Congresso Missionário Arquidiocesano de Vitória, trazendo um fato da vida missionária que pode iluminar bem o nosso presente e o nosso futuro. Pe. Guillet, missionário da Sociedade das Missões Africanas (Padres Brancos), costumava visitar com freqüência os Fuldas, do Benin, uma etnia nômade de pastores, e que, portanto, vive em permanente peregrinação. É um povo islamizado há mais de três séculos. As seguidas visitas do padre levaram o povo a construir-lhe uma cabana no acampamento, como se fosse membro da família.
Um dia, quando o Pe. Guillet chegou lá, disse-lhe um idoso da tribo: “O marabuto [guia espiritual muçulmano] veio visitar-nos e nós lhe mostramos a sua tenda e dissemos-lhe que o senhor vinha aqui muitas vezes. Ele respondeu que vocês, os padres católicos, podem ser os melhores homens do mundo, conhecem a Lei de Moisés, os Salmos de David, o Evangelho de Jesus Cristo, e mesmo o Alcorão, mas, infelizmente, recusais Maomé como o grande profeta, e, por isso, não poderão salvar-se. O que é que o senhor tem a dizer a esse respeito?”.
O missionário, depois de refletir um pouco, respondeu. “Sabe, meu senhor, os homens passam o tempo todo construindo muros e abrindo fronteiras entre o branco e o negro, entre o Leste e o Oeste, entre pagãos e crentes, entre cristãos e muçulmanos. Protegidos atrás desses muros, julgam e condenam os que estão do outro lado, mesmo sem os verem. Mas, por mais alto que sejam os muros levantados pelos homens, eu sei que esses muros não chegam até Deus, e que Deus nos vê por cima dos muros. E, no seu amor de Pai de todos, Ele, melhor que ninguém, vê os que O amam em espírito e verdade.”
A Missão é um pouco o acolhimento deste olhar enamorado do Pai-do-Céu sobre cada um dos seus filhos. Ela é um mistério de amor, e os nossos esquemas e as nossas teologias ficam a uma distância infinita dessa realidade. A Missão é uma mística que precisamos recuperar.
Após o Concílio Vaticano II, a evolução da teologia da Missão definiu-se em torno de três elementos fundamentais: a sua fonte trinitária, a sua identificação com a promoção e os valores do Reino e a sua peregrinação pelos caminhos dos homens, ou seja, a sua encarnação na história. Será nesses elementos que poderemos encontrar a chave de leitura de uma espiritualidade missionária para os tempos de hoje.
1. Chaves de leitura para uma espiritualidade missionária
1.1. O elemento contemplativo da Missão
Era freqüente, antes do Concílio Vaticano II, fundamentar a Missão no mandato de Cristo de anunciar o Evangelho a todos os povos. Ora, o Decreto Conciliar Ad Gentes, quase como eco da Constituição Apostólica Lumen Gentium, fez retornar a Missão à sua verdadeira fonte: a Missão tem origem na Trindade de Deus. A Igreja é, por natureza, missionária, pois tem a sua origem na Missão do Filho e do Espírito Santo, segundo o desígnio do Pai (cf. AG 2).
A contribuição mais decisiva do Concílio Vaticano II para a teologia da Missão foi ter situado a Missão na sua verdadeira fonte: a Missão nasce em Deus, é dom de Deus. Está claro que a origem, o método e o fim da Missão é o próprio mistério trinitário. A nossa colaboração missionária consiste apenas em deixarmo-nos envolver por esse dom. Anunciar o Reino é deixar transparecer este dom de Deus. A única iniciativa do missionário é este movimento para dentro do coração do Deus-Uno-e-Trino. Antes de ser uma atividade, a Missão é contemplação e disposição para mergulhar no projeto e na bondade de Deus. O Missionário não inventa e nem é o protagonista da Missão, somente Deus o é: “Missio Dei”, a Missão é de Deus. A iniciativa de Deus antecipa, acompanha e leva a bom termo a Missão.
O missionário, antes de se entregar aos homens que quer evangelizar, entrega-se a Deus, a quem quer amar. A Missão é terra de Deus, é preciso passar por Ele, para entrar na terra de Missão.
Ninguém como São João desenvolveu esta teologia da Trindade como fonte da Missão. No prólogo do seu evangelho, São João declara a origem, a finalidade e as dimensões cósmicas da Missão de Jesus. Ele é o Verbo de Deus que, desde a eternidade, progressivamente vai entrando na história humana. Toda a realidade criada é fruto dessa Palavra encarnada. A Missão, na sua origem, aparece abrangendo todo o universo, a começar pelo universo da Criação. A Palavra penetra toda a história humana e todas as realidades criadas, oferecendo-lhe a abundância e a plenitude do dom de Deus. “Todos nós recebemos da sua plenitude.” Este Logos de Deus abraça a história humana e faz-se parte integrante dessa história: “Ele se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1,14).
Ao longo do evangelho de João, são numerosos os textos que falam da relação entre o Pai e o Filho. A Missão do Filho é situada no interior da filiação divina. Ela comunica o mais profundo do mistério do Pai. A Missão é ligada à filiação, é dom da vida do Pai. Esta filiação vai fecundar toda a história humana. Se por um lado a Missão está situada no coração da Trindade de Deus, por outro, tem o seu termo no coração do homem.
Esta leitura contemplativa da Missão faz com que ela seja um mistério, uma amizade que se descobre pouco a pouco, à medida que nos abrimos a ela. Exige a entrega do coração, para se revelar. De fato, em João, os discípulos, em vez de serem chamados, como nos sinóticos, são atraídos, são seduzidos por Jesus. É aprofundando esta amizade que eles entram na Missão: “Mestre, onde moras? Vinde e vede”. É preciso entrar na sua casa, para acolher o dom da Missão. É por isso que João é o evangelista dos longos diálogos de Jesus. Mais que em qualquer outro evangelho, em João a Missão é diálogo, encontro, partilha. A Missão não se impõe. Só a amizade a pode motivar. O diálogo é o espaço privilegiado para Jesus comunicar o dom do Pai, basta lembrar o episódio da Samaritana (Jo 4,1-42). No diálogo, Jesus acompanha as pessoas na sua própria descoberta e pede licença para entrar na história de cada um.
Não se pode ser porta-voz de Deus sem estar enamorado por Ele: seria contornar o mistério. Não é por acaso que o Cristianismo, que é essencialmente mistério, mais que doutrina, exprime-se melhor na liturgia que na teologia, melhor na celebração e na festa que na escola. Daí que os valores da celebração, como a festa, a partilha, a oração, o testemunho, estão na vanguarda da evangelização.
Recuperar a mística da Missão é sem dúvida voltar ao cenáculo, para acolher o dom do Espírito e aprender a louvar.
1.2. A Missão como promoção dos valores do Reino
No passado, a Missão foi concebida, primeiramente como salvação das almas, depois como implantação da Igreja. Hoje os teólogos a situam mais na linha da proclamação dos valores do Reino. De fato, foi essa a Missão de Cristo: proclamar e inaugurar o reino de Deus. Este reino não foi só o tema central da pregação de Jesus, mas foi o ponto de referência da maior parte das suas parábolas e das suas ações mais significativas.
Este reino envolve todos os homens e toda a Criação. São João fala do Verbo que “ilumina todo o homem que vem a este mundo”, e, São Paulo, de “Cristo que veio reunir em si, todas as coisas que há no céu e na terra” (Ef 1,10).
A família humana, no seu todo, tem origem divina, todos foram criados à imagem e semelhança de Deus, todos refletem a sua imagem, cristãos ou não. O plano divino da salvação é único e universal, ninguém é excluído desse plano. A Missão da Igreja insere-se nesse projeto de Deus, que ultrapassa as fronteiras da Igreja. É uma Missão que tem as dimensões do Reino. Quando São Francisco Xavier e os missionários que o seguiram partiram para as terras de Missão, o mundo estava dividido em dois campos: um grupo de pessoas que tinham ao seu alcance a salvação, pois tinham sido batizados, e outro, destinado à condenação, se não houvesse quem os batizasse. Hoje já não partilhamos esta leitura da Missão. Deus não abandonou o seu povo. Ele chegou a todos os povos, antes de o missionário ter chegado lá, “de um modo que só Ele conhece”. A tarefa da Igreja não é levar Deus, mas descobrir e fazer crescer a presença e a ação de Deus que precede o missionário. Este Espírito de Deus continua atuando na história, nas culturas e nas religiões. Ele continua a encher a face da terra. É Ele que fecunda as sementes do Verbo presentes na Criação inteira, nos ritos e nas culturas, nas aspirações e nas esperanças da humanidade, e as faz amadurecer em Cristo (cf. Dei Verbum, 8).
É papel do missionário procurar discernir no mundo que encontra aqueles valores que comprovam a passagem do Espírito por aquele povo, antes dele ter chegado lá. Essas mediações de Deus que precedem o missionário são os valores que articulam o seu viver, como a paz, a justiça, a solidariedade, a partilha, os valores do Reino. O diálogo inter-religioso e intercultural aparece como uma via para conhecer outros espaços do Espírito, outros modos de Ele comunicar o amor do Pai, lá onde a Igreja não chega ou não pode ser fundada, nem Cristo anunciado ou compreendido... O reino de Deus tem um horizonte muito mais vasto que o da Igreja.
O missionário não vai destruir essas marcas do Espírito, mas ajudar a discernir, purificar valores ofuscados pelo pecado, pelo peso da história e das tradições. O que o missionário tem a fazer é identificar essas marcas do Espírito e fortificá-las. Deus já está lá em diálogo com o povo, e não é interrompendo esse diálogo, que o missionário lhes vai falar de Deus. O serviço missionário não é interpor-se como mediador entre Deus e o povo que é evangelizado, mas facilitar, ajudar esse diálogo. É preciso respeitar a liberdade de Deus já presente na liberdade das pessoas que procuram responder à sua maneira. A Missão é sempre um projeto de Deus, e captar os indicativos desse projeto deverá ser a primeira atitude do missionário. Mais que destruir muros, o papel do missionário será aprender a ver por cima dos muros, como Deus vê. O Pentecostes dos pagãos, de que fala o capítulo décimo dos Atos dos Apóstolos, e que tanto surpreendeu Pedro, acontece, ontem e hoje; e surpreende, ontem como hoje. É por isso que a Missão é sobretudo uma espiritualidade.
Depois de um longo período em que a Missão foi reconhecida sobretudo pela eficácia das suas obras — promoção no campo da saúde, no campo escolar, agrícola, literário, etc. —, emerge hoje uma nova imagem da Missão, ou seja, a Missão como testemunho das Bem-Aventuranças e dos valores do Reino. O Evangelho é muito mais uma maneira de ser e de se situar frente aos grandes valores, do que capacidade para atuar. Abrir-se ao Espírito Santo é talvez hoje o essencial da Missão.
Foi depois de lhes ter confiado os valores do Reino no Sermão da Montanha, que Jesus falou pela primeira vez aos discípulos da sua vocação missionária: “Vós sois a luz do mundo, vós sois o sal da terra”. Muito antes do texto do envio final de Mateus, que é um texto tardio, a Missão de ser luz e de ser sal para o mundo havia já sido confiada aos apóstolos...
1. 3. A Missão como peregrinação pelos caminhos da humanidade
Do conceito de Missão como proclamação dos valores do Reino, que são os valores de Deus na terra dos homens, deduz-se que os caminhos da Missão devemos procurá-los na vida dos homens e das mulheres do nosso tempo. A história é a agenda de Deus, a confidente onde Deus nos revela os seus segredos, os seus desígnios sobre a humanidade.
João Paulo II tem repetido várias vezes que “o homem é o caminho que a Igreja deve percorrer para cumprir a sua Missão”. Este homem não é um homem abstrato, sem rosto. Trata-se do homem e da mulher concretos, marcados pelo tempo em que vivem, pela cultura que os identifica e os distingue no espaço e no tempo, integrado numa rede de solidariedades concretas, tais como a terra, a língua, a família, a etnia, a cultura. É europeu, asiático, africano, latino-americano... Tem rosto, tem nome e tem voz. A Missão deve atingir este homem e esta mulher nas suas raízes culturais, na linguagem que ele fala, nos problemas que ele vive, nos caminhos por onde passa a sua vida. A sua conversão ao evangelho não vai mudar a sua identidade nem fazer dele um desenraizado ou um expatriado.
Este homem e esta mulher, mesmo antes de serem evangelizados, têm as marcas de Deus que o chamou à vida e os criou à sua imagem e semelhança. Mesmo sem o saber ou até desconhecendo a Deus, são sua imagem. Têm os sinais do seu amor. A Criação é o primeiro gesto missionário de Deus. Ao criar-nos, Deus comunica-nos o seu amor. Nós não chegamos à vida como náufragos à praia, para ali encalhar. A Criação é o berço que Deus preparou para cada um dos seus filhos e filhas.
Com a encarnação de Jesus, que se faz homem e assumiu a condição de todos os homens, Ele completa, em cada um, essa filiação com que nos gerou, quando nos chamou à vida. O mistério da encarnação e da redenção não atinge só os batizados: é toda a humanidade que é tocada por esta graça. Cada um é abraçado nesse abraço de Deus, seja qual for a sua religião.
A palavra revelada e anunciada pelo missionário aponta para o reino de Deus que já está presente e habita o ser humano, todo ser humano que vem a este mundo. O missionário terá de ter presente que Deus já habita no seio do povo que vai evangelizar e que as grandes linhas da sua salvação já estão escritas por Deus. Assim, a terra que ele vai pisar, essa terra é terra sagrada. É preciso “descalçar-se”, como Moisés, no Sinai, para lá entrar. Anunciar o evangelho é penetrar em terra de Deus.
Assim, a Igreja que ali vai nascer será filha daquele povo, terá a sua cor e o seu modo de se situar no mundo. O Cristo que salva será o Cristo nascido naquela Belém, chamada Nairobi, Kinshasa, Luanda, São Paulo, Hong Kong... Será a história daquele povo, aquela cultura, aquele viver que Ele vai assumir, como o fez Jesus na Galiléia.
Não se trata, portanto, de aproveitar só alguns valores dispersos, e adaptá-los aos valores evangélicos, como o missionário os concebe, mas de fazer transparecer Cristo em todos os valores daquela cultura.
O modelo desta Missão é a encarnação de Cristo, que começou por anunciar o evangelho assumindo o medo de viver de um determinado povo, adquirindo a sua própria identidade, segundo os valores culturais daquela gente, aprendendo a sua língua, amando a sua história e integrando-se no seu estilo de vida. O Evangelho está cheio dos campos da Palestina, dos seus ritmos de vida, das suas montanhas, do seu mar. Já São Paulo, marcado por uma cultura diferente, uma cultura urbana nos moldes gregos, não fala de campos, nem de agricultura, mas de estádios e de jogos, de viagens e de areópagos. Assim, a Missão, antes de ser palavra proferida, é palavra encarnada na história.
Esta teologia missionária, já presente em embrião no Decreto Ad Gentes, foi consagrada pela Evangelii Nuntiandi, tornando-se, a partir de então, espaço privilegiado da Missão do nosso tempo, pois permite que todos os povos e todas as culturas se possam reconhecer e identificar no Evangelho de Jesus Cristo.
O Concílio Vaticano II voltou-se decididamente para o homem contemporâneo, e irão ser as situações concretas que este homem vive que indicarão os passos que a Missão deve percorrer. É uma Missão contextualizada, interpelada por múltiplas fidelidades, com muitos rostos, tantos quantos são os caminhos percorridos pelo homem contemporâneo.
2. Alguns pontos de convergência da espiritualidade missionária
A revista Spiritus, conhecido periódico de Missiologia, publicou recentemente uma pesquisa com missionários de vários institutos sobre a visão que cada um tinha da Missão. A visão da Missão que se percebe nas respostas recebidas é, às vezes, difícil de ser entendida. Ela é fruto de uma experiência que se vive, e do Espírito que sopra onde quer, o que nem sempre dá para explicar. A Missão é um caminho pessoal e eclesial no seguimento de Cristo, descoberto no dia-a-dia da vida, no qual se misturam alegrias e esperanças, certezas e dúvidas, de aspectos nem sempre fáceis de serem definidos. É uma teologia vivida no dia-a-dia em função das situações e das pessoas com as quais se entra em contato. A primeira evidência desta caminhada espiritual é que se trata de uma Missão plural, que não tem um rosto único. Ela se diversifica conforme as situações e os caminhos que se percorrem. Vejamos algumas linhas de incidência de uma espiritualidade missionária do nosso tempo.
2.1.Uma espiritualidade de diálogo e solidariedade
A época que estamos vivendo é chamada de época da globalização ou mundialização. As vítimas das torres de Nova York de 11 de setembro de 2001 pertenciam a 80 nacionalidades diferentes. Em certas megalópoles, como Los Angeles, falam-se cem línguas diferentes. Nas nossas cidades, cada vez mais os rostos das pessoas revelam um cruzamento planetário de culturas, religiões e etnias. Esta é, sem dúvida, uma nova terra de Missão, que não estava na geografia dos tempos passados. Hoje, os problemas tornam-se comuns, em todas as partes do mundo. Os meios de comunicação social e a mobilidade das pessoas levam-nos a toda parte. Devido à técnica e aos meios de comunicação, de informação e de circulação, as fronteiras territoriais perdem cada vez mais sua importância. Com a mobilidade das massas e dos povos, bem como pelo impacto dos valores globais sobre os locais, uma cultura identifica-se cada vez menos com um território. Uma vez que o mundo deixou de ser dividido em espaços geográficos e culturais definidos, a Missão geográfica começa a ter cada vez menos peso na geografia da evangelização. A Missão “ad gentes” [para os povos não-cristãos] torna-se uma Missão “ad omnes” [para todos], sem fronteiras. Não é por acaso que a crise da Missão nos meados do século 20 coincidiu com o fim da Era Colonial. Era o modelo de Missão que estava ultrapassado. E também não é por acaso que a Missão “ad tempus” [temporária] do voluntariado e dos leigos missionários emerge, hoje, num contexto em que se muda de profissão várias vezes na vida, e a mobilidade das pessoas entra na rotina do dia-a-dia.
Esta nossa aldeia global perdeu as fronteiras tradicionais, mas ganhou outras talvez mais difíceis de ultrapassar. Ela é atravessada por divisões e fraturas que fazem de nós estrangeiros uns dos outros. Pessoas que vivem no mesmo lugarejo, mas que são estranhas umas às outras, que não se conhecem, que não se compreendem, e que por vezes vivem em conflito. Cada qual tem a sua religião, a sua concepção de vida, os seus valores. A pós-modernidade é o reino do subjetivo, do descartável, do individualismo.
Estas linhas de fratura não separam só as diferentes partes do mundo: o Norte e o Sul, o mundo desenvolvido e o que se diz em desenvolvimento. Estas linhas atravessam os centros das grandes cidades: Nova York, Roma, São Paulo, Paris, Pequim... Elas dividem os que têm água potável dos que não têm água nem para se lavar. Os internautas e os que não têm acesso à escola. O nativo e o imigrante, o cristão e o muçulmano, o branco e o negro, o incluído e o excluído...
Até há pouco tempo, a Missão desenvolveu-se no contexto da Colonização. Foi a Colonização que ofereceu à Missão os territórios a evangelizar, as terras dos infiéis, a infra-estrutura, como o transporte dos missionários, o apoio logístico, a proteção militar, o modelo de Missão, os valores a promover e até as metáforas da retórica Colonial. A Missão “ad gentes” identificou-se com a evangelização de um determinado território, confiado a um instituto missionário. Não é de se estranhar, pois, que já São Paulo, nas suas viagens, seguia o itinerário das rotas comerciais e das vias imperiais de seu tempo.
Hoje, a globalização pede-nos um modelo de Missão diferente. Viver hoje a Missão é ultrapassar constantemente fronteiras que nos envolvem e que separam as línguas, etnias, culturas e religiões, além das fronteiras sociais e econômicas, como o crescente abismo entre ricos e pobres. As metáforas da Missão hoje já não serão as da expansão da Era Colonial, mas exprimir-se-ão em termos de solidariedade, caminhada com os pobres, diálogo, partilha.
Esta espiritualidade reclama a aceitação do pluralismo, não como uma praga, mas como uma bênção, como uma oportunidade para construir um mundo diferente. As religiões, por exemplo, quando vistas na sua complementaridade, não devem ser tidas como barreiras, mas como caminhos diferentes de Deus se manifestar. Uma nova abordagem das religiões é necessária para que todas as religiões sejam vistas como colaboradoras do movimento da humanidade para Deus. Na promoção dos valores do Reino, os “nossos inimigos são o pecado, o mal e não as outras religiões”. Cada cultura faz emergir diferentes aspectos do Evangelho. É por isso que o encontro das culturas pode ser enriquecedor, tanto sob o ponto de vista cultural quanto sob o ponto de vista evangélico.
Participando na ação do Espírito que age no mundo, a Missão exige do missionário uma grande disponibilidade e uma atenção constante aos sinais dos tempos, para discernir a ação deste Espírito e tornar-se instrumento nas suas mãos. Já estamos bastante longe da concepção de uma Missão concebida como salvação das almas, que marcou a primeira fase da Missão, ou como serviço à Igreja, cuja finalidade seria converter o maior número possível de pessoas à verdadeira fé ou de criar comunidades eclesiais dotadas de todos os ministérios e de todas as estruturas que lhe permitissem funcionar autonomamente. Esta imagem da Missão que inspirou gerações de missionários passa para segundo plano, e esperamos que seja superada de vez.
Durante muito tempo, discutiu-se qual seria a prioridade missionária: os crentes ou os não-crentes. Este dilema parece hoje desativado. Em geral, hoje os missionários estão mais perto da Evangelii Nuntiandi ou da Populorum Progressio, em que se afirmam os valores do Reino e da pessoa, que da Redemptoris Missio, que insiste sobretudo na evangelização dos que não conhecem a Cristo. Em termos conciliares, poderíamos dizer que a Missão, hoje, inclina-se mais para a Gaudium et Spes que para o Ad Gentes.
2.2. Uma espiritualidade kenótica (do despojamento)
A maior parte dos missionários vêem no fato de deixar seu país e ir para outra cultura mais que o testemunho de uma solidariedade entre as Igrejas. Trata-se de um despojamento cultural que nos abre ao acolhimento do outro. É como passar para o outro lado. É uma kénose à imagem de Cristo que se despojou de suas seguranças, para identificar-se com aqueles a quem foi enviado. Deixar a sua terra é, antes de tudo, deixar a si mesmo, “descalçar-se”, perder as próprias seguranças, depor as armas, sair de si, para deixar-se acolher por outra cultura, onde o Espírito já se encontra e nos espera. Este despojamento é necessário para captar os caminhos do Espírito já presente nos espaços da Missão. É ele que precede o missionário e lhe indica os caminhos. O missionário é, assim, o primeiro a ser evangelizado no seio daquele povo. O Espírito está presente não só na história que o missionário vai encontrar, mas também na cultura e até nas crenças religiosas, como também na sua vida diária. É um despojamento que permite ao missionário discernir e descobrir um novo rosto de Cristo encarnado naquele povo, vivendo a sua história e os seus valores. A Missão é sobretudo ajudar o povo a fazer esta descoberta. É uma kénose, feita de disponibilidade total, de abertura ao outro, de escuta, de silêncio, de contemplação. A Missão é mais paixão que ação. Trata-se de se deixar moldar pela Missão, de se tornar permeável no encontro com o outro. É isso que lhe permite ultrapassar todas as barreiras culturais e étnicas, para poder acolher o dom do outro.
Com uma espiritualidade kenótica, os missionários atravessam fronteiras, não como quem dá, mas como quem recebe. Eles não vão para a terra de Missão com avançadas tecnologias para modernizar o subdesenvolvimento, com uma cultura superior para civilizar os bárbaros, com uma religião para acabar com as superstições, ou com uma série de verdades reveladas para ensinar aos ignorantes. A espiritualidade kenótica faz do missionário uma pessoa da outra margem, do outro lado. Do outro lado da sua própria cultura, história, valores, língua-mãe, símbolos nativos, não no sentido de os rejeitar, mas no sentido de esvaziar-se deles, para acolher os valores de quem o acolhe. O missionário passa para o seu lado.
2.3. Uma espiritualidade de comunhão
A Igreja será sacramento universal de salvação (Lumen Gentium), à medida que for um reflexo da comunhão trinitária de Deus. O testemunho de vida em comunidade fraterna emerge como sinal necessário para quem quer pôr-se a serviço das vítimas da injustiça e procura criar um mundo mais fraterno. É o amor de Deus difundido em nossos corações, por meio do Espírito, que está na origem da comunidade. A comunidade existe para revelar ao mundo o modo de ser de Deus. Ela é sacramento, sinal de Deus comunhão. É a comunidade que ensina o primado do amor, a gratuidade do perdão, o acolhimento do diferente, a partilha de bens, a solidariedade para com o pobre, a oração de mãos dadas, o modo de viver das bem-aventuranças, os valores do Reino. A comunidade eclesial é a porta por onde passa a Missão, a primeira mesa da palavra. Numerosas respostas dos missionários sublinham o caráter profético das equipes missionárias, hoje cada vez mais freqüentes nos institutos missionários. Elas são o primeiro livro onde se escreve a Missão. Trata-se de dar visibilidade ao Evangelho que anunciamos. A vida fraterna de uma comunidade, de um grupo, não é simples solidariedade num projeto comum, mas fruto do Espírito que nos leva a morrer cada dia para que o nosso irmão viva e cresça. É uma fraternidade personalizadora, isto é, o que ela promove e faz crescer não é primariamente uma obra, mas a pessoa. Por isso, o sentido primeiro de uma comunidade não é o da eficiência, mas o da fraternidade. É um modo de viver em que as pessoas se sentem reconhecidas, não tanto pelo que fazem, mas pelo que são. É a gratuidade dessa atitude que anuncia o Reino. É essa a maneira de ser de Deus. A comunidade, pelo que ela exige como abertura ao diferente e respeito pela diversidade cultural, emerge cada vez mais como o modelo de vida mais coerente com a Missão do nosso tempo. Todos sabemos que viver a unidade na diversidade não se improvisa: é uma escola de longa aprendizagem.
Um exemplo: uma comunidade de freiras dominicanas, no norte do Burundi, onde Tutsis e Hutus vivem e rezam juntos, em paz, num país onde as duas etnias estão em permanente conflito.
2.4. Uma espiritualidade de fronteira
A Missão revela a verdadeira imagem de Deus no nosso mundo. Na Idade Média, os cristãos mostravam a beleza de Deus, por meio das pinturas e gravuras dos santos nas igrejas e catedrais. Hoje, Cristo encontra-se em outras igrejas, em outras catedrais. É lá que é preciso procurá-lo e mostrá-lo ao mundo de hoje. Encontramo-lo desfigurado nas periferias, nos barracos de lona que cheiram mal, nas margens da exclusão. É o Cristo pobre e desprotegido, marginalizado pela sociedade de consumo e excluído da aldeia global.
O espaço dos direitos humanos e da luta pela justiça é hoje um espaço particularmente significativo para uma espiritualidade missionária, sobretudo para uma espiritualidade de fronteira. Viver na fronteira é viver na insegurança, e os nossos esquemas espirituais situam-se quase sempre noutro espaço muito mais confortável. Nós temos dificuldade em encontrar uma espiritualidade, situada no mundo dos oprimidos. As suas condições de vida, como as de todos os pobres, deixam pouco espaço para os nossos parâmetros espirituais. É necessário aprender a exprimir as realidades duras destas situações numa espiritualidade adequada. A verdade é que esta fronteira tornar-se-á cada vez mais um espaço de Missão. Será uma espiritualidade simples, construída a partir do quotidiano, do provisório, do dia-a-dia, na crua realidade dos acontecimentos que se vivem. Terá muitas vezes de lidar com ambientes hostis ou alérgicos ao Evangelho, em situações de luta e de improvisação que caracterizam a vida dos pobres. De qualquer modo, são estes pobres que nos evangelizam e nos ensinam a exprimir numa situação nova os valores fundamentais de uma espiritualidade missionária: como recuperar a nossa disponibilidade, como viver na insegurança, como apreender a simplicidade de vida, a espontaneidade da oração, como fazer da vida uma oração.
E, na fronteiras, descobrimos a fisionomia da Missão verdadeira... Quando se visita a Basílica de Assis, na Itália, mais que os famosos afrescos do pintor Giotto, o que as pessoas procuram ver é o túmulo de São Francisco. Quando se visita Calcutá, é o túmulo da Madre Teresa que atrai as pessoas. São eles, santos do nosso tempo, os verdadeiros rostos da Missão...
2.5. Uma espiritualidade de risco e insegurança
Um outro desafio da espiritualidade missionária hoje é o das situações de conflito. O Papa João Paulo II diz que o retorno dos mártires é um dos sinais mais eloqüentes da Missão do nosso tempo. O número de cristãos mortos violentamente ao longo do século 20 chega a algumas centenas. Todos os anos, o número de missionários mortos violentamente é de mais de três dezenas.
Hoje, um pouco por toda parte, sobretudo em terras de Missão, as situações de insegurança aumentam. Hoje a geografia do martírio não se limita, como nos primeiros tempos do Cristianismo, ao espaço da confissão da fé. O martírio do missionário, hoje, não nasce tanto de uma profissão explícita da fé, mas da sua comunhão com os outros mártires: os humilhados e excluídos da história. Chamemos-lhe campos de refugiados, fundamentalismo muçulmano, guerra étnica, intolerância religiosa, miséria estrutural, luta pelos direitos mais elementares. É o espaço de martírio que hoje cobre uma vasta geografia, sem tempo nem limites definidos.
Dois anos antes de serem assassinados na Argélia pelos integralistas muçulmanos, os sete monges trapistas do mosteiro de Thibirine, fizeram um retiro durante o Tríduo Pascal, pregado pelo superior da comunidade, o Pe. Christian de Chergé, cujo tema foi precisamente o martírio. O Pe. Christian falou de três espécies de martírio típicos da Missão de hoje: o martírio da caridade, o martírio da não-violência ou dos inocentes, e o martírio da esperança.
O martírio da caridade consiste em amar os outros até dar a vida por eles: ficar a seu lado nas horas em que a comunhão, a solidariedade, são a única maneira de ficar ao lado de Cristo. É a Missão da comunhão, da presença, da solidariedade.
O martírio da não-violência é o martírio dos inocentes, dos desarmados, dos despojados de todas as defesas, dos que não sabem defender-se, nem têm quem os defenda. É a Missão da incompreensão, a solidão da cruz, da “hora de Jesus”.
O martírio da esperança fala-nos de uma confiança a toda a prova no amor de Cristo pelo mundo, da paciência de Deus, do viver na fronteira, quando tudo aconselha a refugiar-se nas trincheiras da retaguarda. É a Missão da semente, do tempo que há de vir, do acolhimento dos tempos de Deus.
Esta insegurança não é apenas física, mas também psicológica. Antigamente partia-se para a Missão para toda a vida. A Missão identificava-se com a Igreja missionária. Hoje, nunca sabemos até quando a nossa presença é necessária ou permitida. Somos hóspedes em terra estrangeira, e o hóspede depende de quem o acolhe. O missionário além-fronteiras é um hóspede que estabelece sua morada na casa de outro povo e de outra cultura:
· Ser hóspede é viver uma situação de dependência. É obrigação do hóspede acolher e valorizar o que lhe é oferecido. Não cabe a ele selecionar, mudar. Vive a gratuidade do ser acolhido, do ser incluído na cultura e no mundo do outro. Sua casa é a casa do outro. É casa emprestada na morada do outro.
· É preciso muito tempo para que o hóspede seja aceito, mas quase nunca chega a ser membro da família, do clã.
· Ser hóspede é um desafio, e uma condição necessária para o missionário. É na condição de hóspede, que o missionário comunica e aprende, partilha, transmite e recebe, sabendo sempre que o Espírito Santo antecede sua chegada.
Antigamente tínhamos estruturas sólidas em que o missionário se apoiava e que lhe garantiam uma certa estabilidade. Hoje a única segurança que ele tem é a do Espírito que o envia, e de que terá de caminhar “como se visse o invisível”...
* Daniel Lagni é sacerdote da Arquidiocese de Goiânia, GO, Diretor Nacional das Pontifícias Obras Missionárias (POM) do Brasil, Representante dos Diretores Nacionais das POM da América Latina e Caribe e Membro da Congregação para a Evangelização dos Povos (Vaticano).
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