10 anos da Conferência de Aparecida

10 anos da Conferência de Aparecida

É um documento integralmente missionário, cujo lema convoca todos os batizados a serem discípulos e missionários da Vida

de Ulysses José da Silva *

A Conferência de Aparecida comemora 10 anos em maio. Foi certamente uma Conferência especial, a começar pelo fato de que nossos Bispos, pela primeira vez, trabalharam todos os dias cercados pelo Povo de Deus. Do subsolo do Santuário Nacional ouviam o barulho dos romeiros, suas preces e cânticos, celebravam a Eucaristia com eles, contemplavam sua piedade e recebiam seus abraços. Tal experiência ecoou fortemente no discernimento e nas decisões da Conferência. Recebemos um Documento que, desde o Documento de Medellín, resgatou e superou os documentos anteriores do Celam.

9788534927741É um documento integralmente missionário, cujo lema convoca todos os batizados a serem discípulos e missionários da Vida: ‘Discípulos e Missionários de Jesus Cristo, para que nossos povos n’Ele tenham Vida: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6)’.

Os bispos conseguiram superar suas conflitualidades ideológicas, porque tomaram consciência da fragilidade da Igreja como instituição social, ao mesmo tempo em que contemplavam a beleza do Povo de Deus, ainda cheio de fé e de piedade.

Jesus, Caminho, Verdade e Vida, é a proposta essencial de todo o Documento, como uma experiência de encontro, de amor e de missão, que todo cristão deve buscar. A alegria de ser cristão brota desse encontro, antes que do fato de ser membro de uma instituição eclesial. Os termos Vida, Povo, Missão e Discípulo-Missionário ecoam em todas as páginas do Documento, como fios condutores. Principalmente a palavra Vida, a partir da afirmação de Jesus: “Eu vim para que todos tenham Vida em abundância” (Jo 10,10), desemboca num novo empenho pelo dom da vida, desde a vida sobrenatural até a vida ecológica, exigindo assim uma retomada da opção pelos pobres.

O que nos resta desse Documento 10 anos após sua publicação? Na verdade, as grandes mudanças na Igreja da América Latina e do Caribe haviam acontecido nas duas décadas após o Concílio Vaticano II, quando contávamos com bispos que não eram apenas pastores, mas também profetas, principalmente dentro do contexto das ditaduras militares. Eles haviam estimulado sacerdotes, religiosos e leigos a se tornarem um Povo de Deus em marcha, que vivesse uma fraternidade solidária e lutasse contra as injustiças sociais. Naqueles anos, as pequenas comunidades lideradas por leigos buscavam na Palavra de Deus a força para sua fé e vida, e nas celebrações ecoavam a vida e as lutas do povo. Contudo, as mudanças culturais dentro da sociedade e dentro da Igreja haviam arrefecido fortemente essa caminhada de esperança. São João Paulo II foi o homem de Deus para o Leste europeu. Mas não se pode dizer o mesmo em relação ao mundo latino-americano e caribenho. Teve dificuldades para compreender a caminhada da nossa Igreja e as mudanças na sociedade ocidental.

Por isso, podemos afirmar que o Documento de Aparecida abriu novamente horizontes de esperança para muitos agentes de pastoral, bispos, sacerdotes, diáconos e leigos, que encontraram nele um novo estímulo para retomar a caminhada do Concílio, até certo ponto interrompida. Certamente, será uma caminhada bastante longa.

aparecidaO Documento retoma e reafirma assim valores tipicamente eclesiais da América Latina e do Caribe, como a opção pelos pobres, intrínseca à fé em Jesus; a importância das pequenas Comunidades de base na estrutura eclesial; o método Ver, Julgar e Agir para qualquer projeto pastoral; o valor e a centralidade da Bíblia; a retomada do Concílio Vaticano II, como referência indispensável da Igreja atual; a dimensão de libertação, tal como ensinava a Teologia da Libertação, que inspira de todo o Documento; a relação necessária entre conversão pessoal e conversão estrutural dentro e fora da Igreja; o protagonismo evangelizador dos Leigos, todos Discípulos-Missionários por força do próprio batismo.

Contudo, na realidade atual a Igreja do Brasil continua até hoje caracterizada pelos movimentos espiritualistas das últimas décadas. Não são poucos os bispos, sacerdotes e diáconos formados dentro do espírito da Igreja sonhada por São João Paulo II como uma instituição forte e centralizadora, em que a obediência às rubricas litúrgicas, a evangelização feita por pop-stars e o gosto do confronto espiritual entre o bem e o mal criou um catolicismo em grande parte rendido ao pentecostalismo. As propostas do Documento de Aparecida e dos documentos posteriores da CNBB ainda não têm força para mudar as estruturas atuais da Igreja e transformá-la em Igreja Povo de Deus e comunidades de comunidades vivas.

7b0634bra-aparecida-p-alexandre0001Graças a Deus, papa Francisco retomou com muita coragem as propostas do Concílio e tem sido um profeta dentro e fora dos muros da Igreja. Pode-se afirmar que ele está fazendo com que o Documento de Aparecida se transforme num desafio para a Igreja católica de todos os países. Como um dos responsáveis pela redação do Documento de Aparecida, em seus documentos e em as suas falas, colhe as grandes propostas do Documento de Aparecida e tem coragem de atualizá-las continuamente. A exortação apostólica “A Alegria do Evangelho”, sobre a Evangelização, a encíclica “Lodato sì”, sobre o cuidado com nossa Casa comum, e a exortação apostólica pós-sinodal “Amoris Laetitia” sobre o amor na família, além de seus inúmeros discursos e homilias retomam constantemente a pessoa de Jesus, a missão do cristão e a defesa da vida.

Certamente, o Documento de Aparecida continua sendo um documento do futuro. Há uma caminhada desafiadora, que começa pela conversão ideológica do clero para levar avante uma reestruturação real de dioceses, paróquias e movimentos. E os bispos, se de fato querem formar um colégio episcopal ao redor do Papa, deveriam liderar o apoio a tantos grupos que têm continuado uma pastoral de libertação. Será importante recriar o espaço do Povo de Deus e reanimar os pequenos grupos de evangelização, os círculos bíblicos, o protagonismo de leigos bem formados, a piedade popular iluminada pela Palavra de Deus, as celebrações encarnadas e o compromisso de transformação social.

* Pe. Ulysses José da Silva é missionário Redentorista.

Fonte: www.a12.com

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